Home - Opinião - Um acordo que põe em causa Portugal, a Europa e o ambiente… Autor: Nuno Pereira

Um acordo que põe em causa Portugal, a Europa e o ambiente… Autor: Nuno Pereira

Poderíamos estar a falar de um acordo com Marrocos, com a Turquia ou com o Reino Unido. Não, não estamos. Falamos de um acordo com alguns países da América do Sul, seis integrantes e outros tantos associados, com mais de 270 milhões de habitantes e sendo os maiores produtores de alimentos do mundo. É justamente esta dimensão que nos faz perceber a complexidade do que está em causa, porque aqui não se trata apenas de comércio, mas de concorrência, regulamentação e padrões que nem sempre se alinham.

Não falamos de economias em ascensão, mas de economias que navegam, em velocidade de cruzeiro, na área da alimentação, com produção consolidada e custos muito baixos. Não falamos de países que não fabriquem automóveis ou equipamentos e máquinas industriais; pelo contrário, falamos de regiões capazes de produzir bens essenciais para a Europa a preços que dificilmente podemos igualar. É sobre esta diferença que repousa grande parte do risco, e é por isso que deveríamos olhar com cuidado para a abertura destas portas.

Se por cá temos de cumprir uma série de requisitos ambientais, sociais e fiscais, por aquelas bandas o controlo é praticamente inexistente. E se a Europa pensa que, com este acordo, irá vender mais carros e máquinas para o Mercosul, que se desengane. Eles produzem carros e máquinas com qualidade, mas muito mais baratos; a mão de obra é substancialmente mais económica; tudo o que é produzido lá não incorre nos mesmos custos de um país como a Bulgária, que acabou de aderir ao euro, por exemplo.

Uma das grandes diferenças está nas medidas ambientais, sociais e sanitárias entre a União Europeia e o Mercosul, e é sobre estas diferenças que se constrói o futuro do comércio e da sustentabilidade. A entrada de agro-tóxicos vindos da América do Sul, proibidos na Europa, será um grande problema para o mercado europeu. E o mesmo se aplica ao vinho, onde impostos reduzidos para o vinho português no Brasil podem aumentar vendas de produtos de alta qualidade, mas, no sentido inverso, a entrada de vinho da Argentina na Europa beneficiaria de isenção de impostos, permitindo que vinhos abaixo de um euro por garrafa competissem com o nosso mercado. Se, por um lado, os vinhos mais caros poderiam crescer em vendas, por outro, a maioria dos vinhos económicos ficaria encalhada nas adegas.

Em suma, Portugal perde muito mais do que ganha, embora existam países como a Alemanha, os Países Baixos ou a Itália que possam ganhar mais do que perdem. Mas o mais preocupante é mesmo o impacto ambiental, que muitas vezes é pensado, mas depois é encostado. O aumento da produção agrícola na América do Sul iria acelerar a desmatação da Amazónia, e o próprio transporte das mercadorias aumentaria o consumo de combustíveis em larga escala.

É um acordo ruinoso para Portugal, para a Europa, para o ambiente e para a humanidade.

 

 

Autor: Nuno Pereira

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