O investigador oliveirense na área das neurociências Luís Fernando Gomes Moreira, de 34 anos, encontra-se actualmente nesta área, em sistema de pós-doutoramento, na universidade de Harvard, nos Estados Unidos da América. Licenciou-se na Universidade de Coimbra, seguindo-se uma passagem pela universidade de Berlim. Concluiu o doutoramento em Março de 2019 na Champalimaud Research. Permaneceu dois anos nesta instituição na área da investigação durante dois anos. Em Janeiro de 2021 seguiu para os Estados Unidos. Para a Universidade de Harvard.
Natural de Oliveira do Hospital, Luís refere, em entrevista ao CBS, que a partida para estado de Massachusetts não foi uma propriamente uma escolha, mas quase uma necessidade devido ao corte no investimento na investigação em Portugal. Explica que a área das neurociências é importante para o combate a doenças e desenvolvimento de próteses. “Para além disso, oferece novas formas de resolver problemas e tomar decisões em empresas ou mercados, tanto ao estudar o comportamento humano como ao desenvolver algoritmos de aprendizagem e inteligência artificial, como as redes neuronais”, conta, assegurando que, apesar da falta de oportunidades existente nesta área, sente saudades de Oliveira do Hospital e do interior de Portugal. “Mas acredito que, com investimento e planeamento, tem potencial”, resume.
CBS – Qual foi a motivação para se dedicar à área das neurociências?
Luís Fernando Gomes Moreira – É uma área que está em constante expansão e que abrange o estudo de temas muito diversos, quer a nível molecular quer nível de comportamento de grupos ou populações.
Resumidamente em que pode ajudar a população a investigação em neurociências?
Esta é uma pergunta difícil de responder resumidamente, porque pode ajudar em muitos aspectos. Podem estudar-se terapias e genes directamente envolvidos em doenças, ou desenvolver próteses para quem perdeu membros ou mobilidade. Para além disso, oferece novas formas de resolver problemas e tomar decisões em empresas ou mercados, tanto ao estudar o comportamento humano como ao desenvolver algoritmos de aprendizagem e inteligência artificial, como as redes neuronais.
O que o levou a optar pelos Estados Unidos para prosseguir a investigação?
Não foi bem uma opção. Com o início da pandemia e o corte de investimentos na ciência em Portugal, muitas pessoas viram-se forçadas a procurar emprego fora, eu fui só mais um.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar numa das mais prestigiadas universidades do mundo?
O convite surgiu depois do trabalho que realizei na Champalimaud Research e da análise das publicações que fiz em revistas da especialidade. Foi a oportunidade de trabalhar com alguns dos melhores. É uma experiência que está a ser extremamente positiva.
Portugal não investe o suficiente para conseguir segurar os seus investigadores?
Não. Mas talvez seja um problema europeu (apesar de mais grave em alguns países do que outros, como é o nosso caso).
Certamente conhece outros cientistas e jovens qualificados em várias disciplinas que também seguiram para o estrangeiro. Isso não se reflecte negativamente na evolução do país?
A longo prazo acho que será bom para o país. Eventualmente, alguns de nós voltarão, levando o conhecimento de volta o que contribuirá para o seu crescimento/ desenvolvimento. Mas de certeza que se reflecte negativamente nas vidas dos cientistas, jovens, e suas famílias, que perdem qualidade de vida e conforto.
Qual a diferença entre o que se faz nesta área nos Estados Unidos e na Europa?
Os recursos que temos para fazer ciência nos Estados Unidos são muito superiores aos que temos na Europa. Não tenho a noção dos números médios, mas na minha experiência pessoal talvez tenha dez vezes mais acesso a todo o tipo recursos do que antes.
Está a trabalhar em alguma área específica das neurociências?
Sim, na caracterização eletrofisiológica, molecular e funcional de diferentes populações de neurónios do cerebelo, uma área que está relacionada com comportamentos motores e autismo, por exemplo.
O seu futuro passa pelo estrangeiro ou poderá vir a desenvolver o seu trabalho em Portugal?
Neste momento é difícil fazer planos, mas gostaria de voltar para Portugal mesmo que o futuro não passe pela neurociência.
Quando começou a estudar em Oliveira do Hospital passava-lhe pela cabeça conseguir um pós-doutoramento em Harvard?
Não. Apenas tinha a percepção de que gostava muito da área da biologia.
À distância, como vê Oliveira do Hospital e o interior do país?
Por um lado, vejo que o interior do país neste momento não tem condições para empregar cientistas, ou outro tipo de profissionais de formação qualificada. Mas acredito que, com investimento e planeamento, tem potencial. Por outro, com muitas saudades.
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