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Emigração Jovem: O Silêncio do Futuro. Autora: Bárbara Coquim Serra

A emigração dos jovens portugueses é um dos principais flagelos que o nosso país enfrenta.

Um Estudo da Associação Académica de Coimbra, datado de 2024, indica que dois em cada três jovens que frequenta a Universidade de Coimbra pretende emigrar. Estes jovens apontam a crise na habitação, os baixos salários, a fraca oferta de emprego e a incapacidade para alcançarem a independência financeira como principais razões para esta decisão. Este fenómeno traduz-se no empobrecimento intelectual, económico e cultural dos nossos territórios, que veem fugir o seu capital humano mais valioso e, com ele, as suas possibilidades de desenvolvimento e inovação.

Portugal forma milhares de jovens qualificados todos os anos. São licenciados, mestres e doutorados que detêm conhecimento, competência técnica, espírito crítico e ambição. No entanto, uma parte crescente desses jovens encontra-se forçada a procurar fora do país o reconhecimento e as oportunidades que cá lhes são sistematicamente negados. A emigração qualificada não é apenas um fenómeno preocupante: é o mais grave sinal de que o país está a desperdiçar o seu próprio futuro.

Durante décadas, assistimos a uma retórica otimista em torno da qualificação da população jovem. Apostou-se — e bem — no acesso ao ensino superior e na mobilidade académica. Mas falhou-se no passo seguinte: garantir que estes jovens possam exercer com dignidade, dentro do país, aquilo para que se formaram.

Mas este estudo diz-nos mais: três em cada quatro destes jovens pretendem regressar. O Estado tem responsabilidade direta neste estado de coisas. Não basta investir na qualificação se não se investe também na retenção do talento. Não basta apelar ao regresso dos jovens na diáspora se não se alterarem estruturalmente as condições que os levaram a partir. Fixar jovens não é convencê-los a ficar — é dar-lhes razões para nunca quererem partir.

Mas cabe também aos municípios assumir um papel dissuasor, pensando estrategicamente a atratividade territorial: fixar jovens qualificados, em concreto os seus jovens, filhos da terra, exige mais do que eventos pontuais ou incentivos simbólicos. Combater este ciclo vicioso implica pensar o interior como prioridade nacional e local: com políticas de juventude robustas, apoios à natalidade, à criação de start-ups, habitação pública acessível, serviços eficientes, acesso rápido aos serviços de saúde, agenda desportiva e cultural, e oportunidades reais de realização pessoal e profissional.

Oliveira do Hospital, como tantos outros concelhos do interior, forma jovens de excelência que depois vê partir, primeiro para o ensino superior no litoral e depois para o mercado de trabalho estrangeiro, por ausência de perspetiva. E esta não é uma inevitabilidade geográfica, trata-se de uma consequência política. Um território que vê partir os seus melhores recursos humanos não pode resignar-se: tem de reagir, de reinventar-se e de criar futuro. O concelho tem património, capital humano, escolas, paisagens e uma forte identidade cultural. Mas falta-lhe visão política, coragem estratégica e vontade de inverter o ciclo. E isso depende, sobretudo, da prioridade que os decisores locais colocam nos temas da juventude. Não como área acessória da governação, mas como eixo central de um projeto que construa o futuro.

A fuga de cérebros é, por fim, um marcador de agravamento da transição demográfica, marcada pelo envelhecimento da população e pela baixa natalidade, cada vez mais notória em territórios do interior A emigração jovem não só acelera esse processo, como compromete a renovação geracional e a própria base produtiva do país.

Se queremos verdadeiramente inverter este ciclo, temos de começar por ouvir os que partiram e, acima de tudo, os que ainda pensam em partir. Temos de enfrentar com coragem o desconforto que as suas razões nos causam. E se Oliveira do Hospital quiser ser terra de futuro, então terá de o ser primeiro para os seus jovens. Só assim deixará de ser ponto de partida para se tornar, finalmente, um lugar de chegada.

 

 

Autora: Bárbara Coquim Serra, jurista e deputada municipal pela coligação PSD/CDS-PP na AM de Oliveira do Hospital

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