Eis uma história de sucesso.
Um dia, nos idos de 2009, os astros da política conjugam-se e permitem que eu entre de fininho e sem especiais evidências como eleito numa dada Câmara Municipal. Cai-me no colo o lugar de Presidente da Câmara. Não hesito e ano após ano, construo uma reputação de «bom homem» e assim sucedo-me a mim próprio no posto. Gosto do poder e fotografo-o para me remirar nele. As pessoas acreditam em mim. Sou assim como que um predestinado.
Considero-me tão bom nestes campeonatos que me convenço disso mesmo. O Presidente da Câmara sou eu e não admito contestações! Quem não for por mim é contra mim, pois claro. E, notem, eu sou um democrata. O que faria se não o fosse… Alcunham-me de «Beato» e, aviso, isso causa-me urticária, nervoso miudinho pois lá no fundo essa alcunha também encerra uma crítica social, mesmo política. Que grande atrevimento.
Aproxima-se o fim do meu campeonato pessoal enquanto Presidente da Câmara. Estou seguro em que venci.
E como vencedor outorgo-me do direito de ter algumas vantagens. Então, eu e mais uns patrícios «inventámos» uma certa «empresa intermunicipal». A minha Câmara e as outras duas «sócias» entram com a maquia para a constituição desta «empresa intermunicipal». Ao todo são mais de 6 milhões de euros. Se fosse para saírem tantos euros dos nossos bolsos, se fôssemos empresários a lidar com os nossos dinheiros, não tínhamos nada disso nem sequer parecido. Mas eu e os outros dois Presidentes de Câmara temos os dinheiros e os patrimónios públicos – das nossas Câmaras – para somar e juntar nesse «bolo intermunicipal» que aliás é apetecível… que vai ser apetecível…
E eu, que sou o maior, eu mando! E mando bem. Outorgo-me imediatamente do lugar de Presidente do Conselho de Administração da tal «empresa intermunicipal». Preparo-me para lá continuar ainda que no futuro próximo não possa voltar a ser Presidente de qualquer das três Câmara Municipais. Mas agora ainda sou Presidente de uma dessas Câmaras e, por isso, uso do meu poder e faço decidir preferencialmente consoante a minha própria vontade e os meus próprios interesses.
Eu já estou aposentado da minha profissão-profissão e tenho uma reforma muito razoável. Mas não sou parvo. Se continuar como Presidente do Conselho de Administração da «empresa intermunicipal» posso vir a auferir um vencimento bem encorpado, bem compensador de tanta canseira. Mas travem aí já qualquer insinuação maledicente. É que tenho feito o meu trabalho como autarca desinteressadamente, sem pensar em benefícios pessoais. Se vier a auferir um vencimento chorudo como Administrador na «empresa intermunicipal» que eu próprio também inventei, isso será pura coincidência. Pura coincidência, ouviram bem?!
Ora, aí se deu forma escrita a um monólogo sobre o eu e os outros, sobre aquilo que é meu e aquilo que é dos outros.
A trama é assim:
– «Entro na Câmara de fininho e sem especiais evidências. Saio da Câmara a falar grosso como gestor remunerável de uma empresa lubrificada com dinheiros públicos».
Infelizmente, é já mais uma das histórias «do costume» !
Autor: Carlos Martelo
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