Entrámos ou nunca saímos, da catastrófica época dos incêndios, usando sempre as mesmas desculpas, os mesmos discursos, o “carro” continua a patinar na lama, sem sair do mesmo sítio e mais grave ainda, é o facto das “rodas” se enterrarem cada vez mais, sem uma esperança de que alguma vez os “pneus” conheçam terra firme.
Já abordei aqui, nesta página de opinião, a temática do enorme “exército” de especialistas que existem em Portugal, que sabem de tudo e sobre incêndios, então, não há quem os “apague”.
Assistimos a um jogo que está muito na moda, com milhares de participantes e que até se tornou viral, como é hábito dizer-se agora, que é o chamado “jogo do empurra”.
Existe um enorme círculo constituído por jogadores, que vão tentando empurrar os outros contendores para o centro do mesmo e quem ficar no meio paga as jantaradas aos restantes.
Este jogo tem uma particularidade muito própria, que reside no facto de até hoje, desde que o jogo foi inventado em 1974, nunca ninguém foi empurrado para o centro, pois sempre conseguem pôr em prática estratégias, verdadeiramente geniais, de se manterem na linha do círculo, empurrando, empurrando, sem conseguirem colocar um adversário no meio para que este pague todas as despesas do jogo. Infelizmente são os espectadores que suportam todos os custos, com os milhares de jogadores a aumentarem todos os anos. Interessante!
Este jogo traz-me à memória, a velha discussão do sexo dos anjos e que até hoje, ainda ninguém se entendeu sobre este tema ou encontrou uma resposta.
Começou na idade média, no seio da Igreja, discutido nos seus concílios, onde uma grande parte das concepções e explicações fornecidas à população como verdadeiras, os chamados dogmas (verdades eternas), eram abraçados pelos fiéis como uma explicação segura dos diversos aspectos da vida, daí já estarmos familiarizados com estes diálogos estéreis.
Assim no século XV, numa reunião da Igreja em Constantinopla, conforme documentos da época atestam, entre várias outras coisas, os clérigos discutiam se os anjos tinham sexo ou não e depois de longas dissertações, não chegaram a nenhuma conclusão.
Devido a este facto, a expressão “discutir o sexo dos anjos” ainda é bastante usada para definir aquelas discussões, estéreis, que parecem nunca chegar ao fim.
Acresce lembrar que naquela época, poucos tinham acesso à leitura e por isso o clero ocupou um lugar de destaque na elite intelectual, pois muitos nobres e fidalgos eram iletrados.
Hoje a esmagadora da população sabe ler e escrever, mas a ignorância ainda é rainha, dado o pouco ou quase nenhum tempo que as pessoas despendem para se instruírem.
Vou recuar no tempo umas décadas, relembrar para alguns e informar,para outros que não sabem ou nunca ouviram falar, sim, porque há muita parra e pouca uva.
Os incêndios florestais em Portugal, com área queimada superior a 10 mil hectares num só fogo, tiveram inicio na década de 80, coincidindo com uma redução do pastoreio e o abandono de áreas agrícolas.
Um estudo intitulado “Grandes incêndios florestais em Portugal”, elaborado pelas universidades do Minho e Coimbra, refere que incêndios com área igual ou superior a 100 hectares, começaram a ser habituais a partir da década de 80, concretamente em 1986, no concelho de Vila Real, tendo, no ano seguinte, eclodido outro fogo, de grandes dimensões, nos concelhos de Arganil, Oliveira do Hospital e Pampilhosa da Serra, segundo os autores desse estudo, datado de 2013.
As estatísticas oficiais, registam que foi entre 2001 e 2010 que os incêndios consumiram mais floresta, cerca de 1 164 748 hectares, com 254 mil ocorrências. Se compararmos com a década 1981/1990, verificamos que nesta aconteceram menos 83 mil ocorrências.
O estudo refere ainda, que as mudanças no uso tradicional da terra e do estilo de vida das populações, acrescidas do envelhecimento das mesmas, resultaram no aumento de grandes zonas abandonadas e que conduziram ao avanço da vegetação, bem como ao aumento da acumulação de combustível na floresta.
Os elevados níveis de biomassa, acumulados ao longo dos anos, criaram condições propícias a alimentarem os fogos durante o tempo quente.
Em 20 de Julho de 1927 foi criado um organismo, pelo Decreto-lei 13 969, com autonomia administrativa, denominada Junta Autónoma de Estradas (JAE), que tinha como encargo, construir modernas pavimentações, reconstrução e reparação das existentes, bem como das respectivas obras de arte. Estava igualmente incumbida, a JAE, de elaborar estudos para a futura construção de estradas, concluindo, assim, a rede nacional de rodovias.
Em 25 de Junho de 1999 a JAE é dissolvida a fim de serem criadas 3 novas entidades, ICOR, ICERR e IEP, dando assim inicio à aquisição do trem de cozinha, onde não iriam faltar os tachos, respectivas tampas e acessórios.
Uma das primeiras consequências foi a extinção dos cantoneiros, que zelosamente e com profissionalismo, mantinham as estradas e bermas devidamente limpas, diminuindo os riscos de acidentes e incêndios.
Os cantoneiros eram funcionários públicos, dependentes do Ministério das Obras Públicas e que tinham como função manter as estradas nas melhores condições possíveis, sendo igualmente responsáveis pela sua limpeza, conservação e reparação.
Em 2022, num verão com altas temperaturas, estes homens devem andar às voltas nos túmulos por “verem” as bermas das estradas convertidas em verdadeiras florestas e os pavimentos com buracos, sem as sinalizações e pinturas adequadas para protecção dos utentes das mesmas.
Uma única entidade chegava para manter as coisas minimamente utilizáveis, mas três, não conseguem manter o básico.
Em 2006, José Sócrates, primeiro-ministro e António Costa, ministro da administração interna, assinaram o Decreto-lei 22/2006 que extinguia a Guarda-florestal, que vigiava, em proximidade, as matas nacionais, vivendo com as suas famílias no terreno, em casas, património do estado, assegurando a conservação da floresta e mostrando-se no terreno.
Esta medida deixou a floresta abandonada, desprotegida e verdadeiramente escancarada ao regabofe a que temos assistido estes anos todos, catástrofe, seguida de desgraça, cenários dantescos, que culminaram em morte e delapidação de riqueza nacional.
Ano após ano temos assistido a episódios grotescos, promessas feitas em dias de vento e diálogos para adormecer o rebanho e sem responsabilização dos culpados.
Eu poderia falar aqui dos famigerados helicópteros Kamov e dos aviões de combate a incêndios que estão estacionados, algures, à guarda da força área portuguesa e que dariam para mais uma crónica melodramática.
Seguidores incompetentes, sem responsabilidade e estúpidos servem o país e quando assim é, o nosso dinheiro, ganho com verdadeiras cachoeiras de suor, é esbanjado sem rei nem roque, por um sistema inventado para rapar e esbanjar os salários dos portugueses.
O título deste artigo de opinião, “o sexo dos anjos” ilustra bem o desnorte, propositado ou não, da temática dos fogos e não só.
Os grandes e ilustres “especialistas” discutem sem chegar a conclusões, porque também convém não as encontrar para que o jogo do empurra, possa prosseguir sem intervalos.
A culpa é dos eucaliptos, dos pinheiros, dos incendiários, portadores de potentes isqueiros “BIC”, são trovoadas secas, é o bacalhau à Braz e tudo isto foi o que ouvi dizer.
Não interessa estudar os primeiros escritos conhecidos, que proíbem o fogo em matos com sobreiros e azinheiras, datados do século XIV e que constam das Posturas antigas da Câmara de Évora (1375 a 1395), dedicados à educação ambiental na redução do risco de incêndios.
O Pinhal de Leiria foi um dos primeiros espaços florestais a ser alvo de uma intervenção para o proteger dos fogos, com abertura de um aceiro a norte e a sul da mata em 1699.
Em 1836, Frederico Varnhagen, primeiro administrador do Pinhal de Leiria, terá sido o primeiro especialista dedicado ao estudo desta temática, defendendo a utilização do fogo controlado no pinhal, durante o inverno, como forma de evitar os incêndios de verão.
Há outras lérias que geram broncas e traumas para discutir e os portugueses perguntam porquê tanto desleixo e incompetência, criando em todos nós suspeições sobre os reais motivos de tanta trapalhada e confusão, onde as coincidências são muito”coincidentes”.
São 52 os organismos que gerem esta “crise” incendiária que já dura há mais de 40 anos, com extinções atrás de extinções, de trocas e baldrocas de administradores com um despesismo incontrolável, com imensas coincidências pelo meio, que nos fazem pensar e duvidar das intenções dos governantes, que afinal parece que só desgovernam.
O crescimento dos incêndios é proporcional ao aumento dos cargos políticos.
Autor: Fernando Roldão
Texto escrito pelo antigo acordo ortográfico
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