Os falsos profetas nunca desaparecem. Mudam de discurso, ajustam a memória, reciclam convicções conforme sopra o vento. São os mesmos que pregam lealdade enquanto ela lhes é útil e que renegam o passado quando este deixa de servir os seus interesses imediatos. Não é que o passado deixe de existir. É apenas tratado como um incómodo a apagar, tal como os amigos que foram necessários em determinados momentos.
O comportamento repete-se, eleição após eleição. Pessoas quase descartadas pelos próprios companheiros de partido, são subitamente recuperadas quando se percebe que não há alternativa credível. O cálculo sobrepõe-se. Apoia-se para não ficar de fora. Não por concordância, mas por necessidade. É aqui que os falsos profetas revelam a sua verdadeira natureza.
O percurso de António José Seguro ilustra este padrão com clareza. Em 2014, foi afastado do Partido Socialista num processo conduzido por António Costa. Foi enxovalhado e, como o próprio disse, traído por aquele que viria a assumir a liderança do partido. Perante esta situação, Seguro decidiu afastar-se da vida política. Durante mais de uma década manteve-se fora do espaço partidário. Nunca traiu aqueles que o haviam afastado. Nunca renegou o passado.
António José Seguro foi um indivíduo que lutou e que construiu a sua própria candidatura presidencial. Esteve presente desde o início, quando não havia garantias de passar à segunda volta, quando o isolamento era real e o risco político elevado. E dou-lhe os meus parabéns pela força, pela dedicação e pela sua verticalidade. O apoio partidário surgiu apenas quando as sondagens e a dinâmica começaram a atribuir-lhe uma aura de vencedor. Uma aura que levou muitos dos que o traíram a mostrarem-se agora fervorosos apoiantes. Os falsos profetas.
A questão, porém, não é apenas individual. É estrutural. Se hoje aqueles que mudam de campo conforme a maré precisassem de apoio sério, de amizades verdadeiras, de pessoas credíveis e influentes dispostas a comprometer-se, quantas responderiam? Provavelmente poucas, ou nenhumas. A confiança, quando usada como moeda de troca, perde valor e deixa apenas ressentimento.
A nossa região conhece-o bem. Conhece os entusiasmos tardios, os apoios calculados, as conversões repentinas e as amizades de conveniência, descartadas quando já não há necessidade. Para obterem certos lugares, usam tudo, e mais alguma coisa, e depois de chegarem a posições que nunca pensaram ocupar, esquecem totalmente os amigos. Nesta região, muitos serviram-se de alguns e hoje até do nome se esqueceram. Choravam e clamavam pelos “meus queridos amigos”. Os falsos profetas.
Mas esta região conhece também aqueles que estiveram sempre lá, quando não havia palco, nem garantias, nem vencedores anunciados. Esses, os que não renegam o passado nem apagam os nomes que os acompanharam, mantêm uma coerência rara. Continuam a ser as mesmas pessoas, com a mesma dignidade, o mesmo sentido de dever e a mesma dedicação ao colectivo. Não precisam de reescrever a história para justificar o presente.
Talvez seja essa a diferença essencial entre quem vive ao serviço de um percurso e quem vive apenas ao serviço de si próprio. Uns carregam o passado. Outros fogem dele. E é entre estes últimos que prosperam, eleição após eleição, os falsos profetas.
Autor: Fernando Tavares Pereira
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