Clube foi despromovido ao Campeonato de Portugal e falhou a venda da maioria do capital da SAD. Na carta de despedida, dirigente critica o afastamento da comunidade e lamenta não ter conseguido criar melhores condições para o crescimento da instituição.
A presidência do Futebol Clube de Oliveira do Hospital (FCOH) muda de mãos após um ciclo de 25 anos, depois de 25 anos de Mário Brito ligado à direcção. O ainda presidente da direcção comunicou hoje aos sócios a sua saída do cargo, numa carta onde exprime “emoção e serenidade”, mas também “angústia, tristeza e frustração”. A decisão surge após uma época marcada pela despromoção ao Campeonato de Portugal e pelo falhanço na negociação da venda da maioria do capital social da Sociedade Anónima Desportiva (SAD).
“A falta de apoio da comunidade em geral tem sido um desafio constante”, escreve o dirigente, apontando o dedo ao “comércio local, ao município, aos verdadeiros Oliveirenses e até mesmo a alguns sócios e ex-sócios”. A ausência de reconhecimento e de cooperação, afirma, criou “um obstáculo quase intransponível”, que contribuiu decisivamente para o desfecho agora anunciado.
A carta, dirigida aos sócios, patrocinadores e amigos do clube, traça um balanço dos últimos anos de gestão, salientando um trabalho marcado pela dedicação e pelo espírito de missão. “Acredito que o verdadeiro trabalho associativo reside na capacidade de construir pontes, de unir esforços e de colocar o interesse colectivo acima de qualquer ambição pessoal. Por isso, nunca procurei protagonismo ou reconhecimento individual”, escreve Mário Brito, acrescentando que sempre procurou servir “com humildade e desprendimento”.
O presidente cessante reconhece, porém, não ter conseguido atingir os objectivos a que se propôs: “Sinto uma enorme frustração por não ter conseguido criar melhores condições para o clube prosperar como eu sempre sonhei.” Refere que o crescimento do FCOH “não teve o acompanhamento devido e necessário” por parte da envolvente comunitária, quer ao nível da “proximidade dos Oliveirenses”, quer na área das “infra-estruturas fundamentais e dos apoios necessários para as actuais exigências”.
Numa crítica implícita ao conservadorismo de alguns sectores locais, escreve que “parece-me haver quem queira o Clube como há 50 anos atrás (o velhinho FCOH). Cabe aos Oliveirenses e ao concelho decidir”.
A carta surge dias após a confirmação da descida da equipa sénior ao Campeonato de Portugal e depois de fracassadas as negociações que visavam a alienação da maioria do capital da SAD do FCOH, um processo que decorreu ao longo da época e que o presidente nunca chegou a concretizar. A combinação destes dois factores — desporto e estrutura societária — marca o final de um ciclo directivo com um quarto de século.
Apesar dos constrangimentos, o dirigente destaca o papel da formação, nomeadamente da Academia do FCOH, que considera uma das vertentes mais sólidas e sustentáveis do projecto. Sublinha os resultados alcançados e lamenta que “apenas a inveja e o ciúme” impeçam o reconhecimento do trabalho feito: “Estão à vista, mas só não vê quem não quer.”
A carta termina com agradecimentos a todos os que acompanharam o seu percurso, com uma referência particular aos voluntários, directores e membros da comunidade desportiva que trabalharam em conjunto nas últimas décadas. “Tive o privilégio de conhecer e trabalhar ao lado de pessoas extraordinárias – voluntários incansáveis, directores comprometidos e membros apaixonados – que, com o seu empenho, tornaram possível a concretização de tantos sonhos.”
A saída é feita com esperança numa nova etapa: “Faço-o com a esperança de que outros possam trazer novas ideias e energias para levar o clube a um futuro mais próspero.” E conclui: “Levo comigo as memórias de momentos inesquecíveis e a satisfação de ter contribuído para uma causa em que tanto acreditei.”
O Futebol Clube de Oliveira do Hospital entra agora num período de indefinição, sem presidente eleito, com o futuro da SAD por resolver e com a equipa principal a preparar o regresso ao Campeonato de Portugal. Não foi ainda anunciada qualquer data para eleições.
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