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São Gião, o paraíso dos observadores do espaço profundo

Freguesia de Oliveira do Hospital tem a maior antena particular de radioastronomia do país

O engenheiro electrotécnico Michiel Klassen e a esposa, holandeses, vieram passar férias a Portugal na década de 90. Passaram por São Gião, no concelho de Oliveira do Hospital, e acabaram por gostar tanto do local que decidiram comprar uma pequena quinta. Na encosta do Alva. Ali, Klassen encontrou também um espaço que considerou muito bom para exercer um dos seus lobbies: a astronomia. Um dos desejos de Michiel é que as pessoas visitem as instalações e que lhe permitam ensinar aquilo que sabe. Como contrapartida apenas pede mais divulgação e uma estrada de acesso condigna ao radiotelescópio.

“Este é um país muito bonito e com um céu fantástico e a astronomia seria uma boa forma de atrair pessoas a esta região. Aqui não existe muita poluição luminosa e é extremamente sossegado e é muito bom para observações em altas frequências. Este é um bom local para quem gosta astronomia”, explica o holandês que estabeleceu em São Gião, na sua pequena quinta perdida na encosta, um verdadeiro centro de oberservação do espaço. Conta com a maior antena (9,3 metros de diâmetro) em Portugal continental dedicada à astronomia amadora. Um projecto em que Klassen, de 73 anos, empregou todos os seus conhecimentos de engenheiro electrotécnico na construção do equipamento.

 A antena, por exemplo, foi adquirida aos militares holandeses estavam a desmantelar aquele aparelho destinado à recepção de satélite e que acabou por ser modificada para radioastronomia por Klassen, acoplando-lhe dois motores de três fases que conduzem os sistemas de servo de azimute e elevação (ou altitude) com uma precisão de 0,01 graus e o reflector principal possui uma superfície sólida que o torna adequado para observações de altas frequências de até 22 GHz. O contentor junto à antena está repleto de alta tecnologia, computadores que recebem constantemente os dados do radiotelescópio que serão depois processados e transformados em imagem.

Klassen conta com as visitas regulares do Clube de Astronomia do Alva que é constituído por um núcleo duro de quatro ou cinco elementos. “E depois aqueles que vão aparecendo”, conta o médico Miguel Pinto que, juntamente com o informático Paulo Cardoso, faz parte da estrutura principal daquela colectividade que tem uma sala na antiga escola primária e procura divulgar a astronomia, realizando vários eventos de observação e divulgação ao longo dos meses. “Procuramos atrair a juventude e há muita gente interessada. E nós temos aqui uma zona privilegiada, em que o céu é escuro, sem grande poluição luminosa, e que deveria ser aproveitada para turistas que se interessam por esta área”, defende Paulo Cardoso, para quem uma das apostas das estruturas responsáveis deveria passar por criar as condições para “vender o espaço profundo”.

“Há uns dois anos criámos uma iniciativa em Lagares da Beira e apareceram cerca de 300 pessoas. Portanto, existem pessoas interessadas. E nós temos aqui o radiotelescópio do Klassen e a sua vontade de ensinar quem esteja disposto a aprender sobre estas coisas. Penso que é algo que merece ser divulgado e aproveitado”, conta Miguel Pinto, defendendo que se deveria construir um acesso digno à quinta de Klassen e tirar partido de todo aquele equipamento e conhecimento.

“A Câmara já tem há muito tempo conhecimento da existência desta mais valia. Vamos a ver se ajudam a melhorar o acesso, um estradão em terra, que actualmente só pode ser percorrido em veículos todo o terreno”, conta este médico que exerce nas freguesias de Sandomil e Loriga, em Seia, um concelho logo ali ao lado que conta também com um observatório por telescópio óptico situado na freguesia de Travancinha. “Temos de tomar iniciativas, promover esta actividade que pode ser economicamente interessante”, insiste Miguel Pinto.

Klassen, por seu lado, repete que apenas pede algumas obras no caminho para facilitar o acesso das pessoas. “Gostaria de mostrar resultados de estrelas bebés, pré-nascidas detectadas e estrelas moribundas que fabricam os elementos de que somos feitos. Explicar que no espaço existe álcool e hidrogénio”, conta. E, a concluir, aproveita para nos dizer que consegue fabricar um radiotelescópio com um prato de uma antena utilizadas para receber o sinal de televisão dos satélites, um balde de tinta vazio e um receptor que vai ligar ao computador. Tudo por menos de 100 euros. “Gostava de poder ensinar isto tudo, só é preciso que as pessoas venham”, conta o holandês que ainda passa metade do ano no seu país natal.

Incêndios de 2017 levaram tractor e corta relvas, mas Klaassen salvou equipamento de radioastronomia 

Os incêndios de Outubro de 2017 quase destruíam tudo aquilo que Michiel Klaasen e a esposa tinha construído em São Gião. Lutaram dois dias contra as chamas e conseguiram salvar a antena do radiotelescópio é a estrutura onde se encontram todo o equipamento que permite captar as imagens do espaço profundo.

“Mas durante 12 horas estivemos sozinhos a lutar contra as chamas, sem dormir ou descansar. Não tivemos ajuda de ninguém. Não apareceu um único bombeiro”, conta este holandês que, mesmo assim, acabou por perder um tractor e um corta relvas. “Mas salvou-se o mais importante que eram as nossas vidas e todo o material de radioastronomia”, sublinha Klaassen que procura ter sempre o terreno limpo (foi de resto esse aspecto que em 2017 fez a diferença), mas teme por um novo acidente. “Pode acontecer. Esperemos que não”, remata.

 

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