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Uma gota no Oceano…

Diário da Caravana Humanitária Portuguesa à Ucrânia

Dia 3/4

A partida de Varsóvia com duas famílias foi rápida e cheia de entusiasmo, mas uma gota no oceano. São as primeiras pessoas que Ricardo e Vasyl estão a fazer chegar a Portugal. Querem ir e vir as vezes que conseguirem. De repente, já ganhou forma uma rede que pode ajudar a concretizar esse objectivo.

Ajudar quem não pode vir para Portugal nesta primeira volta de ajuda humanitária será imperativo. O movimento não pode parar. Há quem já esteja em Varsóvia pronto para esperar uma semana pela próxima boleia.

Nos centros de apoio à Ucrânia que se formam a ajuda vem de muitos russos e polacos que se unem em movimento civil, voluntário, contra Putin. Gente disposta a ajudar os ucranianos na luta pela sua identidade e independência e que ganham terreno à Rússia dentro do corredor humanitário apenas com a força dos seus telefonemas.

Alguns destes voluntários, sendo russos afastados há muito tempo do seu país por razões profissionais, agora, apenas por estarem envolvidos com a ajuda humanitária, são considerados “inimigos do Estado”, explica Ivan. Ele é um deles e o melhor que lhe pode acontecer, se por acaso for apanhado em território russo, “é apanhar 12 anos de prisão, pelo menos tem sido essa a ‘oferta’”.

O corredor humanitário está a aperfeiçoar-se e durante um conflito que ninguém sabe quanto tempo durará e o que trará pela frente muitas vidas serão salvas carrinha a carrinha. Mesmo que no local pareça uma gota no oceano, entre milhares e milhares de pessoas que pedem ajuda nas fronteiras da Ucrânia com a Polónia ou já em Varsóvia, sem estas gotas, contadas uma a uma, só restaria a espera indefinida.

A sair de Varsóvia Valeria, nos seus trinta anos e Slata com quatro, têm a admiração nos olhos enquanto observam os voluntários no banco da frente da carrinha em modo piloto e co-piloto, a lutarem contra o cansaço para levar a sua primeira missão até ao fim, nesta travessia da Europa.

Pela estrada, no sentido oposto continuam a circular camiões carregados com bens alimentares, roupa e medicamentos, rumo aos centros de voluntariado. Uma fila de 20 quilómetros no sentido Varsóvia é o resultado do contributo que estará a vir da Alemanha, França, Espanha, Portugal. No mesmo sentido seguem também pequenas colunas militares.

Depois de Varsóvia um dos pontos altos da viagem de Valeria e Slata foi uma pequena paragem em Paris para uma fotografia em frente à Torre Eiffel. Um símbolo de que a guerra ficou lá atrás e o caminho rumo ao encontro com as suas famílias e a possibilidade de uma nova vida está realmente a concretizar-se. O burburinho entre visitantes e o entusiamo destas novas migrantes contagiou o local e até um vendedor ambulante ofereceu às crianças do grupo algumas miniaturas da obra mais icónica de Gustav Eiffel. Serão os únicos brinquedos, por agora.

De volta à carrinha recomeça a corrida contra-relógio. Em veículo alugado o tempo para chegar a Portugal está cronometrado. Um dia a mais significa uma despesa extra e menos disponibilidade no orçamento dos donativos e é preciso manter reservas para suportar uma próxima travessia da Europa.

Nos longos quilómetros de estrada o tempo interminável passa com conversas em ucraniano, que Vasyl tenta traduzir sempre que pode. Relatos sobre a informação        que a Rússia continua a esconder dos civis, sem acesso a redes sociais e com a imprensa, televisão e rádio totalmente controladas. Uma maternidade que foi alvo de ataques e sobre a qual ninguém sabe o número de vítimas. Soldados ucranianos desaparecidos.

A conversa corre e a pequena Slata dorme. Falta pouco para estar nos braços do pai e muito longe da Ucrânia. Um dia contar-lhe-ão que assim foi porque alguém disse numa sala escondida que a Ucrânia não é dela nem do seu irmão, da mãe, da tia.

Ana Martins Ventura

*O CBS acompanha diariamente, com a colaboração da jornalista Ana Martins Ventura, a viagem da Caravana Humanitária Portuguesa à Ucrâni

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