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Salgueiro Maia, 30 anos “depois do adeus”. Autor: João Dinis

Já lá vão 30 anos desde esse funesto 3 de Abril de 1992 que te viu partir ainda jovem (47 anos) e sem teres deixado de ser jovial, uma das marcas da tua personalidade forte.

És o rosto mais notável da “Revolução dos Cravos” sendo que outros rostos também há, mas sem tanto merecimento em serem “os” heróis.  E até há muitos rostos que nunca ficaram como vistos nesses acontecimentos do 25 de Abril de 1974, mas que contribuíram, e muito, para o êxito das operações desencadeadas pelo “Movimento dos Capitães” nessa madrugada e manhã gloriosas.

Ainda recentemente partiram dois outros heróis dos que ficaram com rosto na nossa memória colectiva: – Otelo Saraiva de Carvalho e Rui Santos Silva.

Nós testemunhámos partes “quentes” desses acontecimentos do 25 de Abril. E outros que se lhe seguiram – 28 de Setembro de 1974 – 11 de Março de 1975 – e ainda 25 de Novembro de 1975.   Em todos esses acontecimentos também esteve Salgueiro Maia embora em posição diferente da do 25 de Abril.  Mas actuante. Mas importante.

Temos assumido a opinião de que outro fora o comandante operacional do 25 de Abril no Terreiro do Paço e no Largo do Carmo, e o desfecho da revolta poderia ter sido outro e bem diferente.  Sim, Salgueiro Maia foi o homem certo – foi o comandante certo – no momento certo!    Honra e Glória para Salgueiro Maia!

De ele também deve ser dito que manteve em alta o seu profundo sentido humanista apesar de ser militar profissional.  A 25 de Abril sempre aplicou a sua firme vontade em evitar o derramamento de sangue o que foi conseguido.

O mesmo evitou pela certa a 11 de Março de 1975 quando travou à nascença uma “aventura” – que seria perigosa – proposta pelo comando da Escola Prática da Cavalaria (EPC) em Santarém, para se sair em armas rumo ao então RAL 1 (Sacavém) a dar combate, aos tiros, a uns inimigos “inventados”, porém reais ao mesmo tempo. E nas movimentações mais ou menos militares do 25/26 de Novembro de 1975, Maia não seguiu “ordens” que lhe foram dadas (desde os comandantes militares em acção) para entrar “a doer” sobre o quartel então RALIS (ex RAL 1), em Sacavém, à frente de uma coluna de viaturas de combate da EPC.  Por estradas não previstas de início, foi para um outro quartel próximo, entrincheirou-se lá com as suas tropas e daí “convenceu” o comando do RALIS a “render-se” sem qualquer tiro disparado, sem derramamento de sangue!  Também já não está entre nós, outro militar sensato na ocasião, Diniz de Almeida, que comandava o RALIS.

Porém, os “vencedores” do 25 de Novembro – os militares e os políticos – nunca perdoaram a Salgueiro Maia o ter optado pela via “pacífica” para resolver o problema com o RALIS.   Maia foi ostracizado.  Maia foi “castigado” ao mandarem-no em comissão para os Açores e daí com regresso a Santarém embora colocado no Presídio Militar, nesta cidade, e não na “sua” Escola Pratica de Cavalaria!   Por norma, os “vencedores” reescrevem a História à medida dos seus interesses e opiniões.  Nessa tarefa, por norma, acabam por ser mentirosos!

No caso de Salgueiro Maia, através da injustiça e da mentira, os “vencedores” do 25 de Novembro de 1975 construíram uma vergonha revoltante!   Derramaram mesmo uma grande nódoa no Portugal de Abril!

Sabemos quem esteve sempre a par e por isso a concordar com aquilo que as instituições dessa época fizeram a Salgueiro Maia.  Quiseram até enxovalhá-lo com a classificação (entre outras) de cobardia por não ter entrado aos tiros no 25 de Novembro, frente ao RALIS.         Que grande ignomínia!

Maia manteve sempre, e em situações extremamente tensas e difíceis, a sua jovialidade, a sua argúcia militar em acção, e o seu profundo humanismo.  “Evitar o derramamento desnecessário de sangue!” – afirmou e praticou tal desígnio, várias vezes!

Maia era corajoso até ao limite que seria a sua própria vida, se quisesse chegar lá!    E a 25 de Abril chegou, sem tremer, à beirinha desse limite e por mais do que uma vez!  Há testemunhas disso e muitas ainda!

Honra e Glória a Salgueiro Maia! Viva Salgueiro Maia!

25 de Abril, Sempre!

 

 

 

 

Autor: João Dinis, Jano

Foto de Salgueiro Maia: Alfredo Cunha

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