Estou a pensar que se o pessoal estudasse um bocadinho da nossa história, especialmente desde o início do parlamentarismo/Monarquia Constitucional/ Formação de Partidos Políticos, isto era tudo mais fácil.
Em 1820, tal como na implantação da República, tal como no 25 de Abril, toda a gente foi revolucionária, de esquerda, progressista. O problema é que, há duzentos anos, como hoje, o Povo vai sendo embalado, vai vivendo miseravelmente, e não sai da cepa torta.
Ao longo destes duzentos anos, excluindo os governos de Salazar e Caetano, 1933-1974, fomos sempre governados por partidos de origem “revolucionária e de esquerda”, apesar dos líderes partidários e governantes serem sempre ou quase sempre membros da nobreza, da monarquia e alta burguesia, na república, sempre cerca de 80 por cento deles Maçons.
O Partido Histórico, herdeiro dos Vintistas, os revolucionários de 1820, foi até fundado pelo Duque de Loulé, genro de D. João VI (melhor, da mulher)… cunhado de D. Pedro IV e D. Miguel, tio de D-Maria II e tio avô de D. Pedro V e D. Luiz I ..! Alternava com o Partido Regenerador herdeiro dos Cartistas (defensores da Carta Constitucional) de 1826, dissidentes dos vintistas, este fundado igualmente por membros da alta nobreza, nomeadamente o Duque de Saldanha, Marquês do Lavradio e outros. Estava a “esquerda” e o Povo bem entregue…!
E assim começou o “bailinho mandado” que perdura e a que se veio a chamar o Rotativismo. Históricos/ Regeneradores, alternando. No fundo desde 1820, um pouco mais, mas especialmente a partir de 1851 que temos o “PS e o PSD” …!
Para o que aqui interessa, o Histórico veio a ter mais uma cisão formando-se o Progressista que veio a dar o Republicano, a que sucedeu o Partido Democrático de Afonso Costa. Este partido liderou toda a primeira República, com pequenos interregnos. Ontem como hoje, todos se reivindicaram de esquerda da Liberdade, Fraternidade, Igualdade, divisa que ganhou, com maioria absoluta, no passado Domingo.
Para acalmar certas euforias que por aí vejo e a boca cheia de esquerda, pese tudo o acabado de dizer, o voto era só para homens que soubessem ler, militares e chefes de Família. Praticamente, só a partir do 25 de Abril o voto começou a ser efectivamente universal. O ensino era obrigatório (no papel) desde a revolução liberal. A República reforçou a ideia, mas foi Salazar, alvo de acérrimas críticas do estrangeiro contra o analfabetismo, que o tornou efectivamente obrigatório, em 1953…! 130 anos depois…! Para o Povo, como sempre, promessas…!
Fui dos primeiros a beneficiar. Dos oito filhos dos meus pais, quatro foram à escola, os quatro mais velhos não foram.
Entre 1910 e 1926, sob a batuta da Liberdade, Igualdade Fraternidade e boca cheia de esquerda, tivemos 43 governos, média de quatro meses e meio.
Mas, nestes 16 anos, o dito Partido Democrático teve quatro maiorias absolutas. 1915: 63%; 1919: 55%. 1922: 47%; 1925: 53%. De nada valeram à estabilidade..! Muito menos ao bem-estar do Povo…
Quando a não teve, a Guarda República consegui-a. Ao ponto de um indigitado primeiro ministro Francisco Fernandes da Costa ser esbofeteado quando se preparava para tomar posse, a 15 de Janeiro de 1920, o que já não aconteceu (Governo dos 5 minutos). A Guarda Republicana, presente, não mexeu uma palha…! Mais grave ainda, o assassinato do Presidente Sidónio Pais, do primeiro Ministro António Granjo e o pai da implantação da República, Almirante Machado dos Santos, entre outros, na chamada “Noite Sangrenta” de 19 de Outubro de 1921.
Quanto ao nosso bom Povo lá foi (vai) andando “macambúzio, de servil curvada, qual besta de carga”… como escreveu Guerra Junqueiro, Éça de Queirós, Ramalho Ortigão e outros.
Não resisto a citar a “Patuleia” guerra civil entre 1846/47, vulgarmente chamada por Revolta da Maria da Fonte, que espelha bem o que quero dizer.
Em 1835, o governo legislou sobre a construção de cemitérios para evitar o enterramento nas igrejas, por motivos de saúde. Em 1844 decretou a proibição. Em Janeiro de 1845 começou a haver confusão e foi-se tolerando. Mas, em 1846, levou-se o assunto a sério e era escalada polícia para obrigar a cumprir a lei, o que veio a dar a dita revolta e oito meses de guerra civil…! Fora da igreja os mortos “ficavam desprotegidos do Altíssimo”.
Para dizer que, quando alguém quer olhar por este bom Povo, o normal é beijar a mão a quem o explora e engana, sempre com medo do futuro, avesso ao progresso, mendigando o que por direito lhe pertence e raramente alcança.
Quando com o estado em que este País se encontra, assisti à votação que assisti, sabendo como é, faz duzentos anos, interrogo-me quantos mais vão ser necessários para uma efectiva.
LIBERDADE,FRATERNIDADE, IGUALDADE..?
Autor: António Lopes
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