Dois anos depois, a Feira do Queijo Serra da Estrela de Celorico da Beira está de regresso e decorre até amanhã. A autarquia apostou num orçamento a rondar os 100 mil euros para realizar um evento que vai na 43ª edição e tem por objectivo a promoção queijo Serra da Estrela. O presidente da Câmara Municipal diz que este é o reconhecimento e uma homenagem aos pastores e queijeiras, ao mesmo tempo que procura divulgar “aquele que é considerado o melhor queijo do mundo”. Carlos Ascensão defende, em entrevista ao CBS, que o futuro deste produto, “que não se pode perder”, passa pela concentração de produtores em cooperativas, o que permitiria ganhar sinergias e, ao mesmo tempo, aliviar os produtores de algum trabalho, tornando a actividade mais atractiva e lucrativa.
Dada a conjuntura mundial, o regresso da Feira ao formato presencial, na sua 43ª edição, reúne as condições para ser um sucesso?
A feira tem crescido. Há três anos correu bastante bem e há dois, a última presencial, foi a maior com cerca de 20 mil visitantes. Hoje há muita incerteza. Mas acredito que este é um ponto de retorno. As pessoas estão um pouco ávidas de festa e de sair, daí acreditar que vai ser um sucesso.
Qual a importância deste evento para os produtores de Queijo Serra da Estrela e para o próprio concelho?
Tem uma importância múltipla. É o reconhecimento, a homenagem, a preservação de uma identidade. De uma tradição que é nossa e que não podemos perder. O evento tem também uma forte importância económica para o contexto local. Ajuda a divulgar o queijo Serra da Estrela e a comercializá-lo em condições mais favoráveis, existindo ao mesmo tempo uma alavancagem de outros produtos endógenos e tradicionais.
“Celorico tem uma centralidade em termos
geográficos, uma tradição e história
ligada a esta actividade que é marcante”
Qual será o número de expositores de queijo locais?
Cerca de uma centena, dos quais 18 produtores locais de queijo (quatro DOP e 14 de queijo de Ovelha Curado). Há também uma forte variedade de outros produtos locais de qualidade superior do concelho e da região, sempre sem esquecer que o Queijo Serra da Estrela é a figura principal
Qual o orçamento destinado a este evento?
O orçamento ronda os 100 mil euros, mas é mitigado por patrocínios e com alguma receita proveniente da própria Feira. O retorno económico para o concelho é muito superior. Não sei precisar, mas sei que é claramente positivo. Só o espaço de uma tarde na televisão seria uma fortuna e durante a tarde o programa com maior audiência em Portugal vai estar a falar de Celorico da Beira. Há aqui uma promoção do concelho e daquilo que temos de bom.
Celorico da Beira ainda pode ostentar o título de Capital do Queijo Serra da Estrela?
[Risos] Muitas vezes é mais um chavão, que outra coisa. Mas, ainda assim, Celorico tem uma centralidade em termos geográficos, uma tradição e história ligada a esta actividade que é marcante. Celorico da Beira, não nos podemos esquecer, teve ao longo dos tempos o maior mercado de queijo Serra da Estrela e hoje possui o Solar Queijo Serra da Estrela que é um ícone local e uma referência que ajuda a divulgar, a valorizar e a escoar o produto. Há aqui um conjunto de atributos que fazem com que, sobretudo nós, gostemos de fazer essa afirmação. Mas sem marcar uma superioridade em detrimento dos outros. O que há é uma centralidade geográfica, histórica, de qualidade e em termos de produtores. É uma realidade. São factos. Mas é uma centralidade inclusiva, não exclusiva. Cabem aqui todos.
Mas tem existido uma queda no número de produtores…
Infelizmente é um facto, como acontece em todos os concelhos aqui à volta. Mas temos de estabelecer aqui dois patamares. Por um lado, os produtores de queijo DOP que têm vindo a diminuir por causa de algumas burocracias. Grande parte deles têm alguma idade e não estão predispostos para encarar novas experiências e realidades. Depois, temos aqueles que produzem o queijo de ovelha curado e temos aqui no concelho mais de duas dezenas de produtores. Neste caso há a necessidade de desenvolver algum trabalho para os trazer de volta ao queijo DOP. Há ainda outras questões a considerar. Uma delas é o estigma de que ser pastor é uma actividade menos nobre, menos prestigiante, quando tem a nobreza de todas as outras. Depois, há uma carga de trabalho que não permite dias de folga. Esta gente não tem sábados, domingos ou férias. Não importa se está chuva ou sol, se faz frio ou calor.
“A Câmara Municipal será sempre um
parceiro, na exacta medida dos seus
poderes e competências, para os ajudar [aos produtores]
a superar as dificuldades…”
Agora os produtores têm um problema que se prende com a seca e com o aumento dos combustíveis. Já pensou como vai ajudar?
Não tenho uma resposta concreta. É um problema abrangente que não passa só pelo poder local. Vai
muito mais além. Passa pela Comunidade Europeia e pelo próprio Governo. A resposta não é simples. Mas saberemos assumir as responsabilidades que nos pertencerem. No nosso caso, para os produtores DOP já asseguramos a rotulagem, a certificação do produto e existe um subsídio por cabeça. Estamos também preparados para ajudar a financiar a compra de forragens se for necessário devido à seca.
Os produtores podem contar com a Câmara Municipal?
Uma coisa que é certa: não vamos deixar os nossos produtores desamparados. A Câmara Municipal será sempre um parceiro, na exacta medida dos seus poderes e competências, para os ajudar a superar as dificuldades. Estamos a falar de um conjunto de saberes e sabores que têm de ser imperdíveis. Não nos vamos deixar abater por um problema conjuntural. Vamos superar estas dificuldades e pensar em medidas de renovação. É com satisfação que vemos alguns jovens com formação superior seguirem as pegadas dos pais e dos avós. Temos casos no concelho. Mas, infelizmente, em número insuficiente.
“O futuro passa pela concentração, por ganhar
sinergias e alívio dos produtores”
O que se pode fazer para conseguir que um jovem se sinta atraído por esta profissão?
Acho que as mentalidades estão a mudar. Tem de haver uma evolução nas práticas. Não podemos ficar agarrados ao que era a produção de queijo há 50 anos ou 100 anos. Os métodos também têm de evoluir sem perder a qualidade. Temos de avançar, entre outros aspectos, na forma como se trabalha com o gado, a ordenha e o processamento artesanal da feitura do queijo. Tornar esta tarefa menos árdua. Penso que, nesse caso, o futuro passa pela concentração. Neste momento, por exemplo, já possuímos menos rebanhos, mas os que existem são claramente maiores. Temos no concelho o maior rebanho de ovelha bordaleira com cerca de 800 cabeças…
Que não produz queijo…
Sim, está a vender o leite. Curiosamente a alguém próximo e que também tem rebanho e capacidade de
produção para absorver essa matéria prima. Isto vem de encontro precisamente a uma concentração que cria condições mais favoráveis de produção, sem perder a qualidade ancestral do produto. As coisas podem avançar no sentido agrupar produtores em pequenas e microempresas ou pode haver aqui uma intervenção, do meu ponto de vista desejável, que passaria pela criação de cooperativas de produtores em que todos acabam por ganhar um conjunto de sinergias. Este processo poderia ter o beneplácito de uma estrutura como a Câmara para ajudar a criar infra-estruturas para agregar os produtores. Aí sim, poderia criar-se toda uma estrutura que iria facilitar a parte logística e comercial, com ganhos para expansão da marca queijo Serra da Estrela. Esta organização iria aliviar a carga de trabalho individual e salvaguardar a qualidade do produto. A actividade seria também mais atractiva para jovens e lucrativa. Ao mesmo tempo alavancávamos a economia local.
Os municípios não deveriam também unir esforços em nome do queijo Serra da Estrela, até para ganhar escala?
A lógica é a mesma. O trabalho tem de ser feito localmente e depois expandido a nível regional. É mentira que não exista algum labor nesse sentido. Como se desenvolveu a fileira do vinho, também era importante que houvesse uma fileira do queijo. Está a acontecer algo nesse sentido e há mesmo financiamento. Poderíamos juntar os queijos Serra da Estrela, Beira Baixa e os queijos do Rabaçal para ganhar escala, com a marca queijo Serra da Estrela a alavancar as restantes. Aqui entre estes concelhos com queijo Serra da Estrela não há qualquer razão para se dizer que o de Celorico é melhor que o de Fornos ou que o de Gouveia é melhor que o de Seia. Não faz sentido. Há uma qualidade superior em todos estes concelhos. E tem de existir um trabalho conjunto para se fazer a afirmação do produto. Porque se cada um olhar para a sua quintinha não vejo grande futuro. Temos de pensar em organizações que vão além dos concelhos, que sejam uma referência, que estejam ligados e que defendam o queijo Serra da Estrela.
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