– “Júlio César conquistou a Gália. Mas não estava com ele ao menos um cozinheiro ?” – pergunta Bertolt Brecht, sabiamente e com ironia, em conhecido poema. Pois é, pois é que a História quase não reza dos anónimos que, afinal, sempre carregaram (e carregam) às costas os grandes acontecimentos históricos…
A 14 de Agosto de 1385, já lá vão 639 anos, ocorreu a célebre Batalha de Aljubarrota ou a “Batalha Real” porque nela estiveram fisicamente os então reis de Portugal e de Castela, ambos “D. João I” (João e Juan) de seus nomes e régia sequência.
É em geral reconhecido que a “Batalha Real” ou “Batalha de S. Jorge” ou, por fim, “Batalha de Aljubarrota” foi uma batalha muito especial e notável que determinou, em 1385, a independência nacional face a Castela e ao seu Rei D. Juan I, o qual também pretendia ser Rei de Portugal e ainda que “à força”.
E para consulta dos nisso interessados, há numerosos testemunhos, registos, relatos e estudos históricos e até “lendas” – aliás com grande detalhe de “pormenores” – sobre esta batalha. Convém desde logo revisitar o emérito cronista Fernão Lopes, contemporâneo aos combatentes, e até o cronista Castelhano Ayala que esteve pessoalmente em Aljubarrota durante a batalha assim como o francês Croissard de entre outros aqui incluído o próprio Rei de Castela, D. Juan.
Mais recentemente, temos vários historiadores e outros especialistas que têm estudado em profundidade o processo da Revolução democrática, popular e nacional ocorrida em Portugal, entre 1383 e 85. Processo de facto revolucionário comandado pelo Povo, pela Burguesia que emergia e se afirmava e por escassas dezenas de Nobres (dos menos abastados…) que se mantiveram do Lado do Mestre de Avis, mais tarde o Rei D. João I e do seu “Condestável” (equivalente a Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas) D. Nuno Álvares Pereira, em defesa de Portugal independente.
Pessoalmente, já estive no “Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA)” o que para mim foi emocionante pela retrospectiva factual que permite e em que nos remete para a realidade que foi aquela contenda entre Homens.
Noutro plano, gosto imenso de um “ensaio” escrito por um “militar profissional”, nosso contemporâneo, o General Vasco Gonçalves, que o publicou pelos 600 anos da Batalha de Aljubarrota, e em que faz uma síntese, que para mim foi inovadora e muito esclarecedora, de vários dos principais aspectos – sociais – socioeconómicos – políticos – militares – que estiveram em presença e até em confronto naquela época e naquela batalha. E leio, e às vezes revisito, outros escritos de outros autores para além dos já citados, em que estes não convergem em vários aspectos também. Mas vale a pena.
E à luz dessa candente e histórica experiência, patriótica, democrática, popular e nacional, entre 1383 – 85, dá para se ver melhor a (má) experiência actual com a adesão de Portugal à então CEE (1985), agora União Europeia, e da efectiva perda de vectores fundamentais da Soberania Nacional e, mesmo, da Independência Nacional. Estou até em crer que “só” uma nova “Revolução” – patriótica, democrática e nacional – assumindo lá esta a forma e o conteúdo concretos que assumir – poderá libertar-nos, e ao nosso País, destas amarras com que nos atrelam a interesses económicos, financeiros e militaristas espúrios e do “piorio”.
Foi 1383 – 85 um período muito intenso em que aconteceram algumas batalhas contra Castela que invadiu Portugal várias vezes e mais ainda houve escaramuças e combates internos, uns e outros sempre balizados e combatidos “a doer” pela vontade da maioria – os patriotas e “verdadeiros Portugueses” – em defender a independência nacional e a vontade adversa de uma minoria onde se destacavam a Alta Nobreza e mesmo o Alto Clero da época que “se bandearam” (se passaram) para o lado de Castela como bem escreveu Fernão Lopes que, entre outros “mimos”, também os designou de “maus Portugueses”. Portanto, embora com matizes diferentes dos mais recentes, é evidente que já existia a noção de comunidade, de território, de Estado e de Pátria Portuguesa aliás como Fernão Lopes bem dá a perceber nas suas “Crónicas” dos acontecimentos e que escreveu apenas 60 anos após 1383 – 85.
Em tempos em que a Independência Nacional valia todos os esforços !
Bem famosos ficaram como os principais “heróis” Portugueses, e foram-no de facto, com destaque para o “Condestável”, o “Comandante em Chefe” e principal estratega, D. Nuno Álvares Pereira – que um ano antes, na batalha dos Atoleiros, já tinha comandado para a vitória um exército Português em combate com outro e também mais numeroso exército Castelhano – e destaque para o recém-Rei D. João I (de Portugal) que combateu praticamente de início ao fim da batalha, de entre muitos outros heróis mais ou menos anónimos.
Até hoje, têm sido escalpelIzados e também em detalhe, muitos aspectos da preparação da batalha e do combate então travado. A refrega em Aljubarrota durou cerca de uma hora ou seja foi rápida embora conclusiva.
Os “Portuguese verdadeiros” voltaram pois a combater, em Aljubarrota, na base do chamado “pé terra” ou “pé em terra”, formados em “quadrado” sobre um pedaço “apertado” de terreno previamente escolhido para assegurar boa vantagem táctica sobre o inimigo como veio a acontecer.
O resultado foi tremendo pois consumou uma derrota humilhante para Castela, com um “massacre” a que foram sujeitos cavaleiros e infantes do lado Castelhano (talvez uns 5 mil mortos no combate e outros tantos abatidos durante a fuga desordenada que tentavam fazer), desde logo a “cavalaria pesada” que tomou a iniciativa de dar combate como vanguarda “de choque” do exército invasor e onde pontificavam mercenários Franceses e vários nobres de origem portuguesa mas traidores de entre os quais irmãos do próprio Nuno Álvares Pereia, os quais vieram a perecer no combate..
Mas foram Seres Humanos que lá combateram uns contra os outros. Que enfrentaram e viveram motivações, sensações e emoções diferentes. Que lá mataram e morreram ou que muito sofreram.
Aquele 14 de Agosto foi quente aliás na sequência de outros dias que o tinham precedido.
Mesmo antes de entrar em combate directo (começaram a manobrar para isso ainda antes do meio dia e começaram a pelejar pelas 18 horas), já as tropas estavam cansadas, com muito calor e muita sede e com outros incómodos à mistura. Do lado dos por Portugal – os invadidos – havia muita moral e mais convicção na “batalha-missão” patriótica, e até com afloramentos religiosos, que ali assumiam ombro a ombro (até descalços) e ainda que como “arraia miúda” como também os designou Fernão Lopes, embora não os desvalorizando e antes pelo contrário. Também odiavam os grandes Nobres – os “maus Portugueses”- que sabiam ir combater naquela hora. Ao mesmo tempo, do lado dos por Castela – os invasores – havia grande sobranceria, subestimaram os adversários Portugueses, e os mercenários incorporados no exército de D. Juan I para fazerem a guerra por Castela, sobretudo pensavam nos saques e pilhagens que sempre se praticam em invasões e guerras…
Tentemos agora imaginar a ansiedade e o medo que a expectativa de entrar em combate, de vida e morte, gera e mesmo nos mais experimentados. Imaginemos o grande barulho produzido no combate logo desde antes de este ter começado. Mais a confusão caótica que mais ou menos se instala nos embates, na luta corpo a corpo, no caso à espadeirada, à lançada ou seja lá como for, incluindo também os berros e queixumes, em agonia, de quem é mal ferido e a visão angustiante de um companheiro acabado de tombar no chão trespassado por flecha ou virotão ou até degolado e com o sangue a sair-lhe aos borbotões ?! E que expressões orais e faciais produziam os combatentes num combate sem piedade, frontal e à vista ? E até o forte e desesperado relinchar de algumas centenas de cavalos e outros solípedes, travados e trespassados à lançada ou ao virotão dos besteiros ou que se espetavam nas muitas estacas afiadas colocadas no solo exactamente para esse efeito ? Sim, nestas terríveis circunstâncias, a adrenalina gira em quantidade pelos sentidos e faz embotar as emoções mas sempre há tempo para pensar, sentir e sofrer ainda que em “flaches” e ainda que o impulso mais imediato provenha do medo em se ser morto.
Pessoalmente, eu já ouvi arrepiante relato de um combatente na Segunda Grande Guerra que lutou corpo a corpo à baioneta, e que dizia nunca mais ter esquecido, chegava mesmo a sonhar tipo pesadelo, o “urro” de dor no momento do encaixe corporal do golpe, o contraído esgar facial com os olhos esbugalhados a olhar para ele, e que um seu “inimigo” exibiu, ali à sua frente, ao ser trespassado no peito pela baioneta desse meu interlocutor, então soldado, o qual logo pontapeou o corpo em estertor para libertar a sua baioneta para nova investida… Agora multiplique-se por mil esse tipo de actos e cenas numa mesma batalha… Não, a imaginação não dá para tanto e ainda bem !
Uma coisa pode entretanto afirmar-se:- os pais e as mães de tanto e tanto Ser Humano, não geraram e não criaram seus Filhos para estes virem a ser estropiados e mortos – afinal porquê e para quê ?? – em combates e guerras consideradas que estas sejam como “justas” ou “injustas” !
Sim , só a Paz é alternativa e seja lá onde for !
Viva a Independência Nacional !
Viva Portugal !
Agosto de 2024 – 639 anos depois de Aljubarrota.
João Dinis, Jano
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