O peculiar “The Kingdom of Pineal” e suas evidências impõem-se próximo a Sobreda – freguesia de Seixo da Beira – Oliveira do Hospital.
Ou em como o ser-se diferente não pode ser impor a diferença aos outros…
Apetece começar por citar Georg Orwell quando este disse: – “somos todos iguais mas há alguns mais iguais do que outros”. Uma frase tipo um “negativo” desta famosa tese “worweliana” será dizermos agora: – somos todos diferentes mas há alguns mais diferentes do que outros…
Surgem estas cogitações motivadas pelas notícias que acodem a propósito da autodenominada comunidade multinacional e multicultural “The Kingdom of Pineal” (O Reino (da glândula) Pineal) que faz as suas apresentações públicas também através de um “site” – https//kingdom-of-pineal.org – para quem tiver a curiosidade em ir procurar na NET. Ficaremos até a saber que a palavra “Pineal” é nome de uma pequena glândula cerebral, em forma de Pinha (esta forma aparece estilizada no símbolo deste “Kingdom” e, portanto, talvez venha daí o “Pineal”), glândula essa ligada aos padrões do sono (segregação da melatonina).
Pode então constatar-se que se trata de uma espécie de “fundação” que pretende “gerir” (governar) uma “comunidade” muito particular. E, para isso, age assim como se administrasse um “reino” independente ali enxertado na zona da Cordinha, na ponta Este da freguesia de Seixo da Beira, no concelho de Oliveira do Hospital, no distrito de Coimbra, na Região Centro de Portugal. Chega-se lá desde a Sobreda, desde Vale Torto ou desde o Chaveiral, embora por estradões rurais em terra batida. O “Rio de Mel” (um ribeirito afluente do Mondego) passa muito perto. Daquela zona, hoje desarborizada, se olha bem para a Serra da Estrela (vertente Poente) sem necessidade de binóculos.
Tem este “Reino” uma já vasta área delimitada que tem sido alargada, tem população específica (fala-se em mais de 100 Membros), tem insígnias e símbolos próprios, com “leis” (conjuntos de regras) e seus zeladores privativos, com sistemas sócio-económicos e filosóficos instituídos e praticados pelos vistos. Os seus “seguidores” assumem expressamente a sua “independência” face aquilo que os circunda, inclusive em relação ao País onde de facto estão, e quer queiram ou não queiram, e onde vivem e não apenas no aspeto físico ou geográfico.
À entrada principal, há mesmo um placar a dizer “Kingdom of Pineal – Portugal Embassy” (Reino do Pineal – Embaixada de Portugal). Enfim, ao que nos é dito, não entra lá quem quiser mas apenas quem “eles” deixarem entrar. Portanto, é uma comunidade diferente e autónoma a qual, notoriamente, se “defende” do exterior.
Entretanto, uma observação desde o lado de fora dá para intuir que ali há organização, ali não aparenta haver “abandalhamentos” em termos de instalações – das tendas, às rulotes, às habitações – e até se sugere uma situação geral agradável. E pelo menos pelas aparências, não se trata de um “bando” à moda dos velhos “hippies” (bacanos) dos anos sessenta e setenta do século passado.
Ao que se pode consultar nos materiais divulgados na NET, de alguma forma este “Kingdom” (reino) se aproxima de ter “espírito de seita”, embora nós ainda desconheçamos se têm rituais de iniciação ou outras práticas de observância e sigilo obrigatórios entre “eles”.
Do que é dito, há um membro mais proeminente dentro desta “comunidade”, ao estilo de “guru” (líder espiritual). Mas, já agora, ao afirmarem-se como “Reino”, será que também arranjam, e ainda que simbolicamente: – “Rei – Família Real – Realeza” – para assegurarem a “Real” descendência e respectiva “Monarquia” … E pela designação adoptada, também devem ser grandes praticantes da modalidade da “sesta” para mais e melhor usufruírem da tal glândula Pineal (sono…). Bem, estamos a tentar gracejar…
Pois também parece que comunicam em “rede” com outras organizações congéneres.
As diferenças devem ser respeitadas. Deve ser evitado o choque de culturas e de interesses práticos. Que fazer(mos) para prevenir incidentes?
Quero afirmar que por uma questão de direito de cidadania, e na vida democrática, é necessário respeitar as diferenças entre indivíduos e entre comunidades. Porém, são relacionamentos que não são fáceis de construir com sucesso. A esse respeito, precisar, todavia, que a vivência da diferença não pode descambar em antagonismos (choques) pelo menos explícitos.
No caso em apreço, os devotos Membros deste “Kingdom” enquanto se apregoam “libertários” parece pretenderem impor as suas diferenças a outros cidadãos e a outras “comunidades”. Se assim for, será um mau princípio e uma péssima prática… Aliás, é já um manifesto exagero, que convirá esfriar, o exibirem símbolos, cartazes e dizeres, a ostentar posicionamentos em como entendem ter ali um “reino independente” em relação a Portugal.
Do nosso lado, as e os “autóctones”, poderemos até admitir que será de mútuo interesse “eles” virem para cá a povoar esta nossa Região que tão desertificada está.
Mas atenção que o processo – trata-se de um processo com muitas variantes – deve ser conduzido, também – também – pelo lado deles por forma a não provocarem choque de culturas para já não falar em choque de interesses práticos ou outros. Porém, são já evidentes sintomas de alguma tensão entre “polos”. É pois necessário evitar que daí salte “faísca”!…
Autoridades locais e nacionais devem acompanhar sistematicamente o processo.
É necessário ter muita sabedoria para actuar com ponderação e eficácia comedida.
À partida, não são de esperar facilidades na tarefa. Desde logo, a forma ostensiva de afirmação das diferenças, indicia que os Membros deste “Kingdom of Pineal” vão oferecer resistência a entidades oficiais (ou privadas) que pretendam averiguar/acompanhar melhor o que se passa dentro dessa “comunidade”.
Convenhamos que “eles” têm direito a viverem as suas vidas como melhor entendam desde que, obviamente, não ultrapassem certos limites a começar pelos valores do simples bom senso praticado por membros de outras “comunidades” como as nossas. Um dos direitos que lhes assiste é o da preservação da sua privacidade como “aldeia” (não como “reino”…) e como indivíduos.
Da parte das Entidades locais e nacionais – Junta de Freguesia de Seixo da Beira – Câmara Municipal de Oliveira do Hospital – Ministério da Saúde – Ministério da Educação – Ministério da Administração Interna – Ministério das Finanças – etc- etc – que se não dê demasiada ênfase ou prioridade a iniciativas de tipo “fiscalizador” ou de “repressão” o que provocará tensão e resistências várias. Venha pois o diálogo e o tal bom senso!
Mas que é indispensável acompanhar o processo de perto lá isso é. Então, em primeiro lugar às Entidades referenciadas (de entre outras) compete saber actuar como se recomenda e exige. Com conta, peso e medida!
Afinal, para o “Kingdom of Pineal” e seus Membros poderem viver em harmonia e em segurança. E nós, os outros “diferentes”, também ! Será mesmo oportuno indicar-lhes que o nosso bom Povo costuma dizer:- “mais vale prevenir que remediar !”…
Autor: João Dinis, Jano
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