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Foto: Junta Freguesia de Lourosa

Breve Resumo histórico da igreja de Lourosa. Autora: Maria José Borges

Celebrando-se este ano os 1111 anos da fundação da igreja de S. Pedro de Lourosa, e sendo ainda algo desconhecida para alguns, mesmo para os oliveirenses, considerámos que não seria descabido apresentar aqui um pequeníssimo resumo histórico sobre esse tão importante monumento nacional do nosso concelho[2].

Esta igreja situa-se na aldeia de Lourosa, chamada em tempos antigos de “Lourosa da Serra”, dada a sua proximidade com a Serra da Estrela, sendo, actualmente, freguesia do concelho de Oliveira do Hospital.

O interesse actual por esta igreja data, fundamentalmente, dos inícios do século XX devido à redescoberta do seu estilo dito moçárabe, e consequentes estudos efectuados sobre ela. Em 1916 foi classificada como monumento nacional e, posteriormente, sujeita a importantes trabalhos de restauro que trouxeram à luz, não apenas o seu estilo primitivo, mas outros vestígios arqueológicos bastante anteriores à igreja.

O seu orago é a “cadeira de S. Pedro de Antioquia” e, não sendo a mais antiga igreja de Portugal, é, nos dias que correm, a única de seu estilo e a mais antiga igreja em funcionamento praticamente ininterrupto, perfazendo este ano 1111 anos de culto cristão…!

Lourosa terá sido provavelmente povoada desde tempos remotos dada a fertilidade das suas terras, propícias à agricultura e à pastorícia, e tudo indica, de acordo com alguns estudos arqueológicos já efectuados, que o local onde hoje se situa a igreja terá sido local de culto pelo menos desde finais da Idade do Bronze, inícios da Idade do Ferro, embora os vestígios melhor conhecidos sejam apenas do período romano, nomeadamente um templo dedicado a Júpiter, cujas pedras terão sido em parte aproveitadas para a construção desta igreja.

No séc. V, vários povos de origem germânica entraram no então já cristianizado Império Romano originando, como é sabido, a sua queda em 476 D.C. Para a Península Ibérica vieram, nomeadamente, os Visigodos (ou Godos) que mantiveram as estruturas básicas da romanização, assim como o culto cristão. Desse período visigótico permanece, presumivelmente, um cemitério de sepulturas antropomórficas, a NO da igreja, e de orientação variável, escavado numa extensa laje que ocupa toda a superfície da igreja e grande parte do exterior à volta da mesma. Embora se conheçam idênticas sepulturas noutros locais de Oliveira do Hospital (Meruge, junto à Capela de S. Bartolomeu, atribuídas ao século VII / IX d.C.) este conjunto de sepulturas em Lourosa é considerado «único na região do Mondego» pela própria DGMN e foi alvo recentemente (2017-2022) de uma importante intervenção e requalificação na perspectiva arqueológica.

Em 711 deu-se a invasão da Península Ibérica pelos mouros do Norte de África, destruindo a monarquia visigótica que se refugiaria no Norte da Península Ibérica, constituindo o Reino das Astúrias, antecedente dos futuros reinos hispânicos (Leão, Castela, etc.). Coimbra e Seia (onde se incluía o território que compreende Lourosa) estiveram sob uma intermitente ocupação muçulmana até ao século XI, data em que foram definitivamente recuperadas para o domínio cristão sob o comando de Fernando Magno, unificador dos reinos de Leão, Castela e Galiza, estando Lourosa integrada neste último reino. O vestígio mais importante dessa ocupação será, sem dúvida, esta igreja, que exibe um estilo de influência dita moçárabe, isto é, integrando elementos da cultura árabe, sendo embora cristã, apresentando para além das arcadas em arco de ferradura, outros elementos considerados tipicamente moçárabes como as janelas em ajimez, as únicas conhecidas em Portugal do período medieval (D. José Pessanha: 1927).

Este estilo é característico da chamada “arte da Reconquista”, estilo que se encontra noutras igrejas de Espanha da mesma época, e que terá sido construída (ou reconstruída) ao que tudo indica, em 912 da era actual (950 da Era de César), conforme lápide encontrada em caracteres visigóticos, actualmente encimando a porta principal.

Uma dúvida que subsiste é se a igreja terá sido construída ainda sob domínio mourisco, visto que as fronteiras foram muito variáveis até ao século XI, dados os recuos e avanços da reconquista cristã. Não podendo, por enquanto, esclarecer essa dúvida, o que os estudos mais recentes salientam, acima de tudo, é que o templo de Lourosa é um exemplo da arte da reconquista, de influência asturiana, eventualmente por aqui ter existido uma colónia asturiana, dada a sua semelhança com outros exemplares conhecidos em Espanha (Paulo Almeida Fernandes, 2000).

O que se pode afirmar, sem qualquer dúvida, perante qualquer tipo de classificação é que a igreja de Lourosa é representativa de um estilo tipicamente peninsular pré-românico, de influência bizantina, como era característica da arte visigótica, o que aliás está bem patente no seu formato basilical (em cruz). E, sendo anterior ao estilo românico de influência franca (francesa), que se desenvolverá mais tarde na Europa, estabelece um elo de ligação entre os estilos visigótico e românico. É nisso que reside a sua principal importância, por ser o único exemplar conhecido em território nacional.

Um aspecto assaz curioso nesta igreja é a questão do seu orago, que é a Cadeira de S. Pedro de Antioquia, a única igreja conhecida em Portugal com este orago. Por «cadeira» entenda-se «cátedra», termo alusivo à missão de ensinamento evangélico atribuído por Jesus Cristo a Pedro. Antioquia era, naqueles tempos, considerada a terceira cidade do Império Romano (depois de Roma e de Alexandria do Egipto) cidade onde “pela primeira vez os discípulos receberam o nome de “cristãos” (Actos 11, 26) e tendo Pedro sido aí o primeiro bispo da Igreja. Só depois disso teria ido para Roma onde sofreu o seu martírio.

Outro aspecto que podemos conjecturar, ainda, é a mais que provável utilização na igreja de Lourosa do chamado canto moçárabe. Este canto, que, segundo os especialistas, deveria mais propriamente ser chamado de visigótico, é algo diverso do chamado “canto gregoriano”, sendo característico da Península Ibérica até finais do século XI, e posteriormente proibido.

Lourosa integrou também o território original do Condado Portucalense e, ainda antes da autonomia portucalense, a já então vila de Lourosa seria doada em testamento à Sé de Coimbra, por D. Teresa, (Livro Preto da Sé de Coimbra). Data dessa altura a longínqua ligação que Lourosa tem mantido com a Sé de Coimbra e respectivos bispos que, pelo menos até 1835 (data em que foram expropriados os bens da Igreja pelo Liberalismo), foram senhores donatários de Lourosa.

Ao longo da Idade Média a igreja terá sofrido algumas intervenções, nomeadamente no período gótico. A esse período pertencerá, também, uma Nossa Senhora, falsamente chamada do Ó (pois não se encontra grávida), e que está atribuída ao século XIV (V. Correia: IAP), muito idêntica a outra que se encontra na Capela dos Ferreiros em Oliveira do Hospital e idêntica igualmente, às esculturas de Mestre Pêro, célebre escultor da época. Data também, presumivelmente, do século XIV o campanário actual, de estilo gótico. Foi construído, originalmente, junto à entrada da igreja como era costume na época medieval, tendo sido posteriormente remetido para as traseiras da mesma, quando das grandes obras de restauro da igreja no século XX, para permitir uma melhor visualização da igreja (vide fotos finais).

Foi, sobretudo no período barroco que a igreja sofreu maior número de modificações, nomeadamente a instituição e consequente construção de uma capela dedicada N.S. da Piedade, em 1632, que viria a ser destruída com as obras de restauro do século XX.

Outras intervenções surgiriam no reinado de D. João V, em a igreja foi toda enriquecida com altares de talha de gosto rococó, retirados com o restauro do século XX, para além da colocação de um púlpito de estilo joanino no arco médio do lado N, e que viria a ser igualmente retirado com as referidas obras de restauro, tendo sido colocado na chamada Casa Paroquial.

Em 1811 Portugal foi assolado pela terceira e última Invasão Francesa que entrou pelas Beiras, sendo Lourosa uma das primeiras povoações a ser atacada, tendo a igreja sofrido alguns saques e destruições (Pe Laurindo Marques Caetano).

Ainda nesse século, em 1884 (data oficial) seria criada a Irmandade do Santíssimo Sacramento cuja sede seria a igreja de Lourosa e que ainda hoje perdura.

Data do século XX, todavia, a efectiva redescoberta desta igreja, que foi pela primeira vez fotografada na primavera de 1911 pelo fotógrafo e editor de arte Marques Abreu (Ilustração Moderna:1930) e revelada aos historiadores da Arte pelo Dr. Vergílio Correia (1888-1944), que aqui veio em Agosto de 1911, publicando ainda nesse ano alguns artigos na Folha de Oliveira (semanário de Oliveira do Hospital) e no ano seguinte em opúsculo (V. Correia, 1912). Em 1912 também o historiador de arte e musicólogo Doutor Joaquim de Vasconcelos acorria à igreja de Lourosa, por indicação de seu amigo e colaborador, o já referido Marques Abreu, publicando ainda nesse ano diversos artigos sobre esta igreja na revista Arte Portuguesa.

Depois de Vasconcelos, outros estudiosos se seguiram como D. José Pessanha, conceituado historiador de arte, que em 1916 visita ele também Lourosa publicando importantes estudos em 1927 e 1932.

A chamada de atenção sobre Lourosa por estes referidos investigadores levaria à sua classificação como Monumento Nacional por Decreto de 14 de Junho de 1916, assim como à sua divulgação a estudiosos internacionais, como o Professor Gomez-Moreno que se refere à igreja de Lourosa no seu estudo «Iglezias mozárabes…» (1919).

Tomam forma, a partir de então, os projectos de restauro antecedidos de necessárias demolições que libertassem a igreja duma série de construções anexas que ocultavam e desfeavam a sua matriz original. Porém o processo não foi pacífico, equacionado e analisado por diversos estudiosos que teceram críticas e apresentaram diferentes propostas de modelos finais (Aguiar Barreiros, 1934), ainda hoje se tecendo críticas ao processo de restauro tal como foi conduzido (Fernandes, 2002).

A evolução das obras, que decorreram entre 1930 e 1931, está amplamente documentada através da publicação dirigida por Marques Abreu com abundantes fotos suas que viriam a integrar mais tarde o Boletim publicado pela Direcção geral dos Monumentos Nacionais dedicado à Igreja de Lourosa.

Para dar maior visibilidade e projecção à igreja procederam-se a algumas alterações na envolvente da igreja, nomeadamente à deslocação do campanário para as traseiras da igreja. Procedeu-se, ainda no interior à destruição de todos os retábulos de talha, do coro alto e de todas as capelas construídas já na época moderna.

Em 25 de Outubro de 1953, evocando a passagem do primeiro milénio deste templo, e, simultaneamente homenagear o ilustre estudioso Doutor Joaquim de Vasconcelos, a Câmara de Oliveira do Hospital colocou uma lápide alusiva ao facto numa casa do Largo da igreja.

Desde a sua nova feição adquirida no século XX que a igreja de S. Pedro de Lourosa se tem tornado objecto de peregrinação de estudiosos e de turistas culturais, nacionais e estrangeiros, mas infelizmente, de uma única visita oficial de um chefe de estado (Américo Tomás, em 1971), da qual resultou a delimitação com umas correntes de ferro do cemitério visigótico, para o melhor resguardar.

Mais recentemente, a igreja de Lourosa foi incluída na Rota da Moura Encantada e, pela primeira vez foi objecto de uma tese de mestrado por Paulo de Almeida Fernandes (2002).

Em 2012 celebrou-se o seu Jubileu dos 1100 anos com um programa diversificado de actividades tanto religiosas, como culturais, implementadas por uma Comissão Organizadora dirigida pelo Padre Higino Tchikala, seu pároco na altura. Tal programação e actividades mereceram o apoio conjunto da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, bem como da Junta de Freguesia, como daí tendo resultado importantes vivências e manifestações culturais como os diversos tipos de concertos de música sacra aí apresentados, os 2 ciclos de Conferências, (o primeiro na igreja, e o seguinte, na Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital), que trouxeram diversos especialistas a Lourosa, e ainda, diversas manifestações artísticas no âmbito musical, das artes plásticas e da recriação histórica, sendo também nesse contexto que se criou,   a primeira e única Feira Moçárabe do país que teve já VIII edições.

Também recentemente a envolvente da igreja (bem como o centro histórico em geral ) foram objecto de uma requalificação, que suscitou algumas polémicas e que trouxeram uma nova configuração a toda a envolvente do Largo do Monumento Nacional, estando ainda em fase de finalização.

[1] *Historiadora e musicóloga. Mestre em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa. Docente de História da Música e Organologia e Psicoacústica na Escola de Música do Conservatório Nacional ( Lisboa).Investigadora de temas da História local de Lourosa (terra a que está ligada por origens familiares), no âmbito do  qual  possui diversas publicações e/ou colaborações. Foi membro da Comissão Organizadora do Jubileu dos 1100 anos da igreja de S. Pedro de Lourosa  (2012). Consciente e deliberadamente a autora não segue o Novo Acordo Ortográfico.

[2] Um texto mais completo e ilustrado, com ampla bibliografia, está disponível numa outra publicação, também da autora. editada no contexto do adiante referido Jubileu,  pela CMOH (2012), assim como outra versão mais resumida dessa publicação,  mas mais actualizado, está disponível  no artigo da Wikipaedia, de que também é maioritária autora(https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Matriz_de_Lourosa). Igualmente é autora (pro bono) do texto disponível na página da CMOH (https://www.cm-oliveiradohospital.pt/index.php/turismo/patrimonio-nacional/patrimonio-classificado-de-interesse-nacional/item/1140-igreja-mocarabe-de-sao-pedro-de-lourosa).

Autora: Por Maria José Borges[1]

 

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