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Capitão Salgueiro Maia  –  do Herói até ao Homem. Autor: João Dinis

Para mim e para quase todos aqueles (e não só para estes) que testemunharam comportamentos e acontecimentos, falar do 25 de Abril de 1974 implica falar e louvar os “Capitães de Abril” e, nestes, o Capitão Salgueiro Maia.  E, assim, convictamente reafirmo que considero Maia como um dos grandes Heróis da nossa História como Nação e como Povo Português também porque a “Revolução dos Cravos” iniciada a 25 de Abril de 1974 também é  um dos nossos grandes acontecimentos Históricos !  E é neste exacto patamar de Herói Nacional que mantenho Salgueiro Maia.

Quero ainda assinalar uma das suas virtudes tão eficazmente testadas nos acontecimentos da revolta/revolução do dia 25 de Abril no caso a sua grande ”imaginação” demonstrada na capacidade de improvisar – com sucesso – no comando de operações perante os muitos imprevistos que surgiram nesse Dia.  Só visto !…

Ao mesmo tempo, sempre enfatizo a adesão decisiva  do Povo ao 25 de Abril que o 1º de Maio seguinte, em 1974, veio confirmar e fazer avançar no rumo traçado pela “Revolução dos Cravos”.  Valeu e vale a pena !

Mas também ouso passar dos píncaros do Herói Nacional para o Homem em que esse Herói habitava e que “utilizou” para se revelar em plenitude.

Por “itens”:

– Salgueiro Maia arriscou a sua vida, e deliberadamente, em algumas ocasiões, no dia 25 de Abril.  Nesses movimentos que fez, debaixo de grande tensão pessoal e colectiva, Maia subverteu mesmo regras básicas da sua segurança física enquanto Comandante principal dos revoltosos da coluna militar da EPC, Escola Prática de Cavalaria, vinda de Santarém.  Pois se Maia tem sido abatido num desses momentos pelos “fieis ao regime”, e foi por “uns trizes” que tal não aconteceu, teria ficado seriamente comprometido o êxito militar das operações desencadeadas no Terreiro do Paço e frente ao Quartel do Carmo, em Lisboa.       E, em consequência, outras movimentações mais seriam derrotadas. Este raciocínio encerra como é óbvio uma boa dose de especulação que, felizmente, a História fez-se como é sabido e não como “poderia ter sido”…  Devo também dizer que, em tantos momentos tensos, nunca houve quem o tenha visto pessimista ou a espelhar “cagaço”, ainda que naturalmente tenha sentido receio.   Maia gracejou mesmo em alguns desses momentos se calhar para tentar descontrair e para ajudar comandados seus a também descontraírem…

— Logo depois da “famosa” cena em que Maia esteve na mira de um dos blindados pesados (M 47) na Avenida Ribeira das Naus, juntinho ao Terreiro do Paço do lado da margem direita do Tejo, houve um “Aspirante a Oficial Miliciano” que prestava serviço militar na EPC mas que  não tinha saído com a coluna para Lisboa, e que ali estava “à civil” e não fardado pois, já manhã cedo, fora destacado, com um outro militar à civil, para uma função prática tipo “estafeta” a fazer ligação entre a EPC de Santarém e a coluna militar em acção em Lisboa.

A dada altura, esse Aspirante dirigiu-se a Maia – conheciam-se bem da EPC – com o objectivo de lhe perguntar como estavam as “coisas” a correr por ali e quais as perspectivas.  Ao vê-lo já em frente a si, ainda por cima à civil, logo Maia se lhe dirigiu com o seu vozeirão e usando uma forma muito característica nele ao nível da simples camaradagem :- “Olá rapaz ´fulano de tal´ (o sobrenome por que era tratado o Aspirante) que é que andas a fazer por aqui hoje ?  Vieste trazer-nos um café ?”…  Maia gracejou e até tinha motivos para isso pois acabara de  escapar com vida de momentos muito perigosos para ele.  Lá lhe foi rapidamente explicada a razão da  presença e da missão ao que ele logo prestou informações sempre enquadradas em franco optimismo e grande ousadia operacional.  Maia, ainda que preocupado, também era mestre em transmitir confiança aos seus comandados o que muito os animava a prosseguir…  E dali saiu Maia rapidamente para o lado da Rua do Arsenal e das tropas “do regime” com que nos defrontámos em ambiente de muita tensão. E daí seguiu depois em coluna para fazer render o Quartel do Carmo, (da GNR), esta uma operação não prevista no “Plano de Operações” inicial.

— Mais tarde, já no Largo do Carmo, num dos momentos muito tensos que também lá se viveram, Maia estava a ser muito pressionado pelo “Posto de Comando do MFA” desde o Quartel da Pontinha, para apressar a rendição de Marcelo Caetano.  Então, do Comando do MFA veio a ordem de abrir fogo intimidatório e de rajada sobre a fachada do Quartel do Carmo a qual tinha várias janelas algumas das quais bem grandes, com vidraças.  Logo Maia gracejou para quem o ouvia dizendo que mandar fazer fogo de rajada sobre a fachada implicava estilhaçar as vidraças.  Então que, depois, não quisessem que ele pagasse os vidros !…  Acontece que, a dada altura, houve mesmo umas rajadas de metralhadora sobre essa fachada, que deixaram marcas visíveis nas paredes e nas vidraças e sobressaltaram quem, do lado de dentro do Quartel, as ouviu lá bater e até ricochetear…  Claro que Maia nunca foi responsabilizado pelos “prejuízos” materiais assim causados…

— Um dos objectivos operacionais mais enfatizados do lado dos revoltosos foi o “evitar-se o derramamento de sangue”, propósito que Maia prosseguiu com todo a firmeza e em várias circunstâncias. Foi um objectivo eminentemente humanista.  Mas Maia admitiu derramar o seu próprio sangue e por sua própria iniciativa.  Por exemplo, na cena em frente da mira do grande carro blindado, junto ao Terreiro do Paço, Maia correu sérios riscos em ser fuzilado ou caso o fizessem prisioneiro em fazer-se explodir com a granada defensiva que, para isso mesmo e se o julgasse necessário, levava num bolso das suas calças…

Entretanto, pensemos também na grande atenuante que seria para os principais revoltosos caso fossem derrotados, o facto de não terem provocado confrontos com mortes a lamentar.  Sim, isso seria e incontornavelmente uma grande atenuante que,  de facto, muito conviria aos revoltosos em caso de derrota…

E sim, Salgueiro Maia foi desrespeitado !

Lamentavelmente, Maia foi desrespeitado, inclusive por alguns dos seus “camaradas” militares, ainda em vida (logo após a “golpada” do 25 de Novembro de 1975), e mesmo depois de ter prematuramente falecido, então por um Primeiro-Ministro o qual nunca o teria sido não fora a conquista da Democracia com o 25 de Abril.

Tamanho desrespeito por Salgueiro Maia, pelo seu magnífico exemplo e pela sua memória, um tamanho desrespeito constitui uma nódoa e uma injustiça profundas no Regime Democrático Português que Maia ajudou a fundar com risco da própria vida!

É oportuno e muito actual citar Salgueiro Maia quando ele disse, aliás já muito próximo ao seu falecimento prematuro :

– ”Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir”.

Actualmente, é hora oportuna para, necessariamente, se reflectir sobre isto mesmo !   Pois de nossa parte aqui te juramos cumprir activamente essa tua “ordem” – e entro em rigorosa posição de “Sentido !” – Pronto, meu Capitão Maia!

Pelos “50 Anos do 25 de Abril.

25 de Abril, Sempre !

 

 

 

João Dinis, Jano

 

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