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Carlos Faria de Almeida, o presidente que ajudou a mudar Celorico da Beira após o 25 de Abril

O concelho mudou com ele. Construiu estradas, levou água e electricidade às freguesias, criou casas do povo e impulsionou empresas. “Passava a vida a mendigar em Lisboa. Mas a obra foi feita”, conta o autarca, o primeiro eleito em democracia no município celoricense após o 25 de Abril. Governou durante 17 anos, até sair a 3 de Janeiro de 1994, sem dívidas e com várias obras por estrear — piscinas, central de camionagem, novos equipamentos culturais. “Tinha dito para mim próprio que só ia fazer mais um mandato. Não consegui e fiquei com alguma mágoa. Tinha obras em andamento que já não inaugurei e empresas para se fixarem no concelho”. O reconhecimento chegou a 23 de Maio de 2025, com a atribuição do seu nome ao Centro Cultural de Celorico da Beira.

Carlos Alberto Faria de Almeida tinha 33 anos quando se viu eleito, “com surpresa”, presidente da câmara municipal de Celorico da Beira, nas primeiras eleições autárquicas em democracia, em Dezembro de 1976. Encontrou um concelho devastado pela pobreza e sem o mínimo de infra-estruturas. “Estava em más condições. Dois terços da sede do concelho eram em terra batida. Para se chegar às freguesias e anexas era um martírio. Só se podia ir de bicicleta ou burro. Não havia outra hipótese.” Recorda-se do primeiro embate com os recursos disponíveis: “Na câmara tínhamos uma máquina de escrever que não batia as letras todas. Carências por todo o lado. Fiquei desanimado: como se pode trabalhar nestas condições?”

Determinou-se, mesmo assim, a fazer caminho. Com o tempo, todas as freguesias ganharam acessos, saneamento, casas do povo, água e electricidade. “Consegui que todas ficassem com o essencial. Senti-me orgulhoso por isso. Nunca fiz promessas, mas sempre disse: se não for capaz de levar o barco aonde quero, vou-me embora.”

Durante 17 anos, percorreu corredores em Lisboa e chamou a si cada tostão possível. “Passava a vida a mendigar. Com a utilização de contactos que tinha nas secretarias de Estado e secretarias-gerais. Havia até ciúmes por parte dos meus colegas, que diziam que vinha todo o dinheiro para Celorico. Mas era o resultado de andar sempre à procura de capital para financiar as obras.” Quando deixou a presidência, a 3 de Janeiro de 1994, o concelho tinha um edifício novo para os serviços municipais, estava prestes a inaugurar piscinas, uma central de camionagem e recebia empresas de porte. “Foi o meu legado: sair com obra e sem dívidas.”

Mas confessa que saiu com mágoa. Queria cumprir mais um mandato. O último. Pretendia concluir obras em andamento e instalar empresas no concelho. Ficou a Mey Têxteis, mas outras três recuaram quando ele perdeu as eleições. “Estava tudo preparado para se instalarem no concelho, mas não confiaram no novo executivo e foram para outras paragens. Essa é uma das minhas tristezas.”

Nascido em Celorico Gare, na freguesia de Fornotelheiro, Carlos Alberto Faria de Almeida formou-se em engenharia agrária com especialização em patologia vegetal. Em 1975 foi eleito deputado pelo CDS e acabou por ser depois eleito para a câmara pelo mesmo partido, e mais tarde pela Aliança Democrática e pelo PSD. Nunca quis, porém, que o partido interferisse na gestão municipal. “Mesmo quando estive em actividade, coloquei sempre os interesses do concelho acima de qualquer partido. Só estava ligado ao partido o estritamente necessário. Não era mandado pelos partidos. Tinha uma regra: da porta da câmara para dentro trabalha-se, lá fora podem falar de política.” Não deixa de ser irónico, admite, que tenha sido um crítico da política e que se tenha visto no seu centro. “Senti uma responsabilidade muito grande por ser o primeiro presidente democraticamente eleito. Ainda por cima eu, que era crítico. E vi-me com aquela carga em cima, num concelho com demasiadas carências. Recebemos um susto, mas decidimos: vamos embora — e conseguiu-se.”

O reconhecimento chegou a 23 de Maio de 2025, com a atribuição do seu nome ao Centro Cultural de Celorico da Beira. “É um reconhecimento que eu, modéstia à parte, acho merecido. Se não, não aceitaria. Penso que já deveria ter acontecido.”

Hoje, aos 82 anos, continua a acompanhar a evolução do concelho e acredita que há sinais de esperança para combater o flagelo do despovoamento. “O presidente anunciou uma série de investimentos públicos e privados. É óptimo para que a juventude comece a ficar e a preencher as nossas freguesias e apoiar a pequena agricultura, que foi desprezada.” A política pode fazer muito, desde que se faça com entrega. “É mais fácil agora. Em primeiro lugar, as carências já não são tantas. Depois vieram os fundos comunitários. Mas o factor diferenciador continua a ser a dedicação e o empenho”, conclui.

Foto: CM Celorico da Beira

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