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Do Jano, com prazer e convicção: Testemunhos escritos desde o 25 de Abril de 1974. Autor João Dinis

Nos “50 Anos do 25 de Abril” – e muito porque eu estive lá ! – resolvi passar a escrito, uns após os outros, alguns testemunhos sobre o 25 de Abril de 1974.  Também constituem contributos para combater os esquecimentos e as tentativas de rever a História e até de desrespeitar alguns dos Homens e Mulheres que a fizeram – nova e revigorada – às vezes com risco da própria vida.   Aí vamos pois :

 

25 de Abril, 1974.  E a Revolução abriu em Flor e Esperança !

– “…E se Abril ficar distante – desta Terra deste Povo  –  a nossa força é bastante – pra fazer um Abril novo !”

Extracto de poema (que também é letra de bonita canção) de Ary dos Santos, justamente chamado      “o Poeta da Revolução”.

 

E aquela madrugada de 25 de Abril de 1974 – “a madrugada que eu esperava” como diz outro poema – avançou em crescendo para a História e para a vida das Portuguesas e dos Portugueses a que, e em consequência, breve se juntariam os Povos das (ex)“colónias ultramarinas” da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, de Angola e Moçambique, de São Tomé e Príncipe e a que só bastante mais tarde se veio a juntar Timor-Leste.

Há relatos, relatórios, “cronologias” e até há filmes que dão conta, por vezes em detalhe, do desenrolar dos principais acontecimentos que foram sendo desencadeados a partir da divulgação, pela rádio, das “senhas” para a acção, “senhas” combinadas entre os “conspiradores” do “MFA, Movimento das Forças Armadas”.  Uma delas ouvida um pouco antes das 23 horas de 24 de Abril e outra – a “Grândola Vila Morena” de José Afonso – cerca da meia noite e meia, portanto já a 25 de Abril.  E também há relatos desde antes disso. E há um vasto “documentário” muito fidedigno e circunstanciado produzido por uma televisão nacional por ocasião dos     “25 Anos (1999) do 25 de Abril” e que vale a pena rever.

Claro que houve uma intensa fase de preparação inicialmente pelo “Movimento dos Capitães” que tomou por base de agitação e agregação sobretudo problemas específicos das tropas profissionais ou profissionalizadas, portanto problemas corporativos. Simultaneamente, lançavam as bases de organização militar, à margem das hierarquias (!) do sistema militar, nas várias Unidades e de coordenação entre estas através dos seus principais “agitadores”.

Mais tarde, início de 1974, evoluíram para o “MFA, Movimento das Forças Armadas” que condensou objectivos políticos e operacionais em que já pontificaram alguns dos militares mais graduados do “Movimento” e também com maior cultura e visão políticas. Continuaram a reunir entre si e a debateram a situação e as perspectivas.  Apuraram as bases do “Programa do MFA” enquanto grande projecto para a “Revolução” – que começaram a assumir como incontornável – e alinharam as fases e as bases daquilo a que chamaram “Operação Fim de Regime” Esta uma designação que sintetiza o principal objectigo geral das movimentações militares em preparação acelerada :- o de porem fim ao regime político vigente, no caso o regime fascista e o governo de Marcelo Caetano.

No entretanto, houve quem se tentasse antecipar ao lançar uma acção militar revoltosa a 16 de Março, a partir das Caldas da Rainha. Foi precipitada e sem sucesso uma tal tentativa mas também proporcionou motivações e ensinamentos úteis para o futuro imediato, no 25 de Abril.

Esta síntese, “Operação Fim de Regime”, contida na designação-chave das operações militares desencadeadas de 24 para 25 de Abril, também significa que, afinal, o “MFA, Movimento das Forças Armadas” sabia que, primeiro, era necessário derrubar pela força o regime e o governo da época para, a seguir, partir à conquista dos desígnios sociais e políticos mais concretos e que plasmaram no “Programa do MFA” que divulgaram e começaram a aplicar logo após o sucesso “revolucionário” do 25 de Abril, incluindo, claro, o fim da guerra colonial em África.

Lembrar, a propósito, as três “famosas” consignas programáticas então condensadas na sigla do “3 D” para a designação de “Democracia – Desenvolvimento – Descolonização”. E isso foi sendo conseguido não sem grandes dificuldades. Hoje, 50 anos depois, podemos até dizer que a mais difícil de concretizar continua sendo a do “Desenvolvimento” entendido, simultaneamente, como desenvolvimento económico, social e cultural.

25 de Abril, Sempre !   E com paixão !

Pessoalmente, tenho falado e escrito, com paixão, sobre o dia 25 de Abril e as movimentações de tropas em Lisboa, em particular dos militares revoltosos saídos da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, sob o eficaz comando do herói nacional, o capitão Salgueiro Maia. Assim mesmo como herói o tenho classificado sem hesitação !  Por dever pessoal e histórico perante ele próprio, o seu exemplo e a sua memória, e também em relação à dinâmica das operações militares, dinâmica verificada no terreno da qual ele, Maia, foi o principal protagonista embora bem acompanhado por muitos outros.

Assim foi no Terreiro do Paço, durante a manhã de 25 de Abril, a seguir nas ruas de Lisboa até ao Largo do Carmo e Quartel da GNR do Carmo – o que de início não constava da “ordem de operações” para aquele dia – e durante o cerco que aí foi movido ao quartel-general da GNR (começou cerca do meio dia e trinta) até à rendição e à saída de lá, passava já da meia tarde (das 17 horas), de Marcelo Caetano, o Primeiro-Ministro do governo fascista então derrubado.

Isto sem esquecer as notáveis e corajosas movimentações que, durante a noite antecedente, outros militares mais alguns civis tinham assumido incluindo no “Posto de Comando do MFA”, na Pontinha (Lisboa).

Quero entretanto destacar o papel muito importante do ponto de vista operacional, desempenhado pela coluna militar vinda da Escola Prática de Artilharia, de Vendas Novas, que se posicionou (cedo, antes das 9 horas da manhã), com uma “bateria” de alguns obuses (canhões) poderosos, no alto do Cristo-Rei (Almada) com possibilidade de tiro directo sobre o Rio Tejo e, em especial, sobre uma Fragata da Marinha à partida hostil aos revoltosos operacionais no Terreiro do Paço. A presença dessa “bateria” por si só terá sido altamente dissuasora para a acção (ou para a falta dela…) do Comando dessa Fragata e também serviu de “conforto” para a tropa instalada no Terreiro do Paço que chegou a recear ser alvo dos disparos da Fragata a qual para isso mesmo fora fundear no Tejo com o Terreiro do Paço na sua linha de fogo directo…  Uff !

Como se diz na tropa:- “a sorte protege os audazes !”

A manhã clareara e o tempo avançava quase como se estivéssemos ali em contra-relógio. Esvaía-se a ligeira neblina sobre o Tejo e os horizontes.

As viaturas militares e os homens fardados ocupavam o Terreiro do Paço para ganhar a Democracia e o fim da guerra colonial. Participavam, desde a madrugada, na “Operação Fim de Regime” integrados em movimentações revoltosas. Estavam feitos “homens sem sono” por desígnio e vontade própria. E também homens de coragem generosa !  Quase todos eles eram muito jovens.

Súbito, surge aquela Fragata da Marinha com as baterias/bocas de fogo eriçadas com as peças de canhão bem visíveis. Ei-la que pára em frente de nós. Logo nos alvoroça ! Ameaçadora, mexeu as suas peças de canhão que, se disparadas, iam abrir fogo directo e arrasador sobre o Terreiro do Paço e, neste, sobre nós, feitos alvos…

Corre célere a péssima notícia:– “Aquela Fragata, lá no meio do Tejo, vem do lado do regime !  Podem abrir fogo para cá !”. Então, o nosso Comandante Salgueiro Maia manda abrigar as viaturas e manda-nos abrigar a nós também, principalmente debaixo das arcadas dos edifícios históricos do Terreiro do Paço.  Assim se tenta fazer, de imediato.

O grupo de comando da nossa força militar reúne em emergência. Chegam a encarar, soube-se depois, a retirada da força em reacção de contingência… Há quem fale pelo rádio de campanha. Sei que, prestes, houve quem se abrigasse debaixo de bancos de pedra por ali existentes…

Passado algum tempo que pareceu uma eternidade – imagine-se a nossa tensão e o nosso alívio …- a tal Fragata retoma a sua marcha e navega Tejo fora em direcção ao mar.  Urra !  Houve quem exclamasse !

Dias depois do 25 de Abril, passámos em revista estes acontecimentos que foram algo dramáticos mas que poderiam ter sido trágicos…

Houve quem afiançasse que o principal motivo que levara a Fragata a sair do Tejo sem abrir fogo fora o de ter tido conhecimento da bateria dos canhões vindos de Vendas Novas e ter receado que (a Fragata) estivesse feita alvo por sua vez… Mas também houve quem afiançasse que alguns dos oficiais-marinheiros de serviço na Fragata eram aderentes ao “Movimento das Forças Armadas” e se amotinaram perante a perspectiva iminente da sua Fragata ir abrir fogo sobre os “camaradas do Exército” revoltosos no Terreiro do Paço. E também há quem sustente que o Comandante dessa Fragata tenha recusado, por ele próprio, abrir fogo contra a “nossa” tropa e ter mandado fazer meia-volta e sair dali. Esta é, aliás, uma discussão inacabada e em que há divergências mas que, agora, também só interessa retomar eventualmente e por “precisão histórica” que o melhor que podia ter acontecido para todos foi mesmo a Fragata não ter feito fogo sobre nós…e não ter levado com uma barragem de fogo de retaliação por parte da “bateria” dos canhões posicionados no Cristo-Rei… Cumpriu-se assim aquele objectivo sempre presente de se “evitar o derramamento de sangue”, um apelo várias vezes expressado por Salgueiro Maia e repetido através dos “Comunicados do MFA”, divulgados pela rádio e pela televisão. Notável !

E estamos em crer que também por isso o próprio Cristo-Rei, em Almada, afinal testemunha serena daqueles acontecimentos, sorriu de mansinho e a todos abençoou de braços e coração abertos.  Haja Paz !

E assim também foi acontecendo o sucesso do 25 de Abril de 1974.

Viva o 25 de Abril, Sempre !

 

Abril de 2024  –   Nos “50 Anos do 25 de Abril”.

Autor: João Dinis, Jano.

(Veterano do 25 de Abril de 1974)

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