Hoje é 25 de ABRIL e já lá vão 48 anos desde 25 de Abril de 1974!
Com tais números no corpo e na alma, lembro-me bem do que dizia o meu Avô materno que andou em França na” I Grande Guerra”: – ” Meus meninos, andei na guerra e já lá vão 50 anos!”. Para nós, seus netitos, então garotos e pré-adolescentes que o ouvíamos em meados dos anos 60 do século passado, aquele número dos “50 anos atrás” era uma coisa da qual não entendíamos bem o significado. Enfim, era tempo demais para ser avaliado por quem andava entre os 10 e os 15 anos de idade…E nosso Avô prosseguia: – ” Pois é, quem me dera nesses tempos, apesar da guerra! E também se lá tivesse ficado (na guerra) já cá não lembrava há muito tempo…”. E ao que ele também nos contava, poderia mesmo ter lá ficado por exemplo na batalha de La Lys, iniciada a 9 de Abril de 1918 (na Flandres), batalha em que o “Corpo Expedicionário Português” que participava na guerra do lado dos aliados, não resistiu à investida inicial das tropas alemãs. Meu Avô que estava no sector dos “abastecimentos” às nossas tropas, na altura não se encontrava na linha da frente e conseguiu retirar a salvo dos bombardeamentos e dos gases venenosos (andou, dizia, 50 quilómetros seguidos a comer bolachas de água e sal e a beber água onde a encontrou). Muitos outros morreram por lá, mais ainda ficaram feridos e muitos outros mais foram feitos prisioneiros pelos alemães. E também houve soldados alemães (também estes militares recrutados…) que morreram…
É a ferocidade criminosa das guerras! De todas as guerras!
Entro neste relato, porque agora chegou a minha vez de dizer: – ” Ei, passei por uma Revolução – o 25 de Abril – há 48 anos!”. E sim, uma das principais, senão a principal razão, para se fazer o 25 de Abril, foi a pretensão em acabar com a guerra colonial que já durava há 13 anos! E lanço um olhar retrospectivo que já demora bastante a percorrer esta distância temporal, comprida e cumprida de 48 anos! Enfim, não tenho netos, mas tenho uma filhota com 7 anos. Sim, fui pai serôdio…e ainda bem que sou pai! Sim, quero muito que a minha filhota e todas as Crianças possam viver e ser felizes – em PAZ!
Há “veteranos” do 25 de Abril que estão a viver um “bónus” há já 48 anos!
Salgueiro Maia que se expôs duas ou três vezes frente à mira das armas do “inimigo” – que acabou por ser amigo, e muito! – ainda viveu um “bónus” de 19 anos, embora um “bónus” precocemente encurtado…
Mas o então Tenente Assunção, esse já leva um belo “bónus” de vida com 48 anos e que continue! Sobre ele, um Brigadeiro fascista mandou abrir fogo à queima roupa – na Rua do Arsenal, perto do Terreiro do Paço – não tendo sido obedecido por soldados e de imediato desautorizado por um Coronel. Ainda bem para Assunção e para o êxito da Revolução que não houve tiros!
E também o então Aspirante Sampaio, que no Terreio do Paço, do lado da Ribeira das Naus, esteve um (mau) pedaço dentro da “sua” viatura blindada Panhard bem de frente e já na mira de um tanque dos mais pesados e com maior poder de fogo – um designado “M 47” – que viera de Cavalaria 7 para dar combate aos revoltosos, intenção que se gorou por entre várias e sucessivas peripécias daquelas que não são inacreditáveis porque aconteceram de facto mas que serão irrepetíveis pelo seu inusitado e ainda que alguém volte a intentar, “mil vezes”, algo parecido ao 25 de Abril de 1974. Mas dentro do “M 47” a respectiva tripulação desobedeceu ao mesmo Brigadeiro e recusou fazer fogo, o que ali salvou Sampaio que não tinha autorização – de Salgueiro Maia – para tomar a iniciativa de fazer fogo da Panhard (também tinha uma boa peça tipo “canhão”) sobre o “M 47”. Aliás, desobediência da mesma tripulação do “M 47” que logo a seguir também salvou Salgueiro Maia, pelo menos. Portanto, e tal como o próprio Sampaio afirma: -“sou um privilegiado em ainda por cá andar agora – que me despedi da vida naqueles momentos em que olhava de frente para o ´M 47´!”. Lá está outro a viver um belo “bónus” já com 48 anos…
Enfim, há alguns casos “pessoais” parecidos, embora em circunstâncias diferentes, como aconteceu com o próprio Marcelo Caetano que chegou a pensar que iria ser entregue à multidão que estava apinhada no Largo do Carmo o que, receou ele, possibilitaria a sua (dele) “execução sumária”… Foi Maia quem logo lhe assegurou uma retirada em segurança como se verificou.
E termino reafirmando uma convicção profunda: – a revolução do 25 de Abril “só” triunfou” naquele dia devido à extraordinária adesão do Povo de Lisboa e da outra margem! Não tivesse sido assim – e apesar de toda a determinação dos revoltosos em armas e dos impressionantes méritos de Salgueiro Maia bem secundado pelos seus Camaradas do comando e outros subordinados – a Revolução teria tido um desfecho muito diferente. Mais tarde (e não iria demorar muito…), a Revolução do Povo Português voltaria às ruas, mas naquele dia teria sido muito diferente! Ainda bem que assim aconteceu! E sem derramamento de sangue!
Viva a PAZ!
25 de Abril, Sempre!
João Dinis, Jano
“Veterano” do 25 de Abril.
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