A 46.ª edição da Feira do Queijo de Celorico da Beira abriu hoje, reunindo cerca de 120 expositores, 16 dos quais dedicados ao queijo. O evento, que decorre até domingo, contou com a presença do secretário de Estado da Agricultura, João Moura, de vários autarcas da região e de responsáveis de diversas instituições públicas. Para além da componente comercial e gastronómica, a feira apresenta um cartaz com nemos sonantes da musica nacional, com concertos de Os Quatro e Meia, Delfins, Karetus e Sons do Minho.
Na cerimónia de abertura, o Presidente da Câmara Municipal de Celorico da Beira, Carlos Ascensão, destacou a importância dos pastores e queijeiras para o sucesso do evento. “Em primeiro
lugar, quero agradecer – porque agradecer enobrece-nos – àqueles que considero os mais importantes neste evento: os nossos pastores e as nossas queijeiras. É por eles que estamos aqui. São eles quem preserva a nossa cultura ancestral, com a pastorícia e o queijo Serra da Estrela. Procuramos ajudá-los todos os anos”, afirmou o autarca, sublinhando o compromisso da Câmara com os produtores locais.
Ascensão também abordou os desafios que o sector enfrenta, anunciando medidas municipais de apoio os produtores. “A Câmara vai dar um subsídio aos pastores para ajudar à vacinação dos rebanhos e apoiamos na certificação e rotulagem. Mas não chega. Os poderes locais, intermédios e centrais têm de se unir para que estas pessoas tenham um retorno justo da sua actividade, porque trabalham muito e é uma actividade importante para a economia regional e mesmo nacional”, frisou, destacando que vão surgindo alguns jovens nesta actividade. “Temos aqui alguns pastores novos, o que nos dá alguma esperança. Mas precisamos de mais”, sublinhou.
O secretário de Estado da Agricultura, João Moura, por seu lado, reforçou a necessidade de reconhecimento do trabalho dos produtores. “O papel do Ministério da Agricultura tem sido de valorização das actividades do sector primário. Aqueles que trabalham a terra merecem respeito e não a acusação infundada de que destroem o ambiente. Não é nada disso. Aqui, nas encostas da Serra da Estrela, onde a agricultura extensiva não é possível e os recursos naturais não são abundantes, aquilo que se vai extraindo é o melhor dos nossos recursos intrínsecos, muito bem aproveitados por duas magníficas espécies: as raças autóctones, com particular destaque para a bordaleira Serra da Estrela”, afirmou. “É a ela [bordaleira Serra da Estrela] que se deve, em primeira instância, pela à sua formação genética, o leite de excelência que, com um coalho natural, o cardo – típico desta região – nas mãos sábias destas senhoras, se transforma num dos produtos mais magníficos que Portugal tem”.
Além disso, João Moura comprometeu-se a reforçar a promoção internacional dos produtos agrícolas nacionais, enfatizando que “o Ministério da Agricultura deve ser dizer lá fora que as nossas terras do interior, de Portugal, produzem os melhores produtos. “A nossa missão é tornar a vida das pessoas um bocadinho melhor, mas essa missão é facilitada quando temos pastores e queijeiras que fazem este produto de eleição”, sublinhou
Os produtores, esses, começaram cedo a preparar os seus espaços para apresentar os queijos Serra da Estrela DOP. Entre eles, Célia Silva, da Casa Agrícola dos Arais, que
transforma anualmente 50 mil litros de leite em 10 mil quilos de queijo na localidade de Vinha Entre Vinhas. “Este tipo de eventos porque ajuda a encontrar novos clientes. Apesar de a nossa produção estar praticamente vendida na sua totalidade, a promoção é sempre importante, porque nunca sabemos se vamos perder algum cliente. Nesta vida, nada está garantido”, afirmou.
No entanto, nem todos os produtores compartilham da mesma perspectiva optimista. Ao seu lado, Manuela Granjal, de 67 anos, residente em Minhocal, produz quatro queijos por dia com o leite das suas 117 ovelhas e expressa a sua apreensão com a escassez de leite, particularmente acentuada este ano, e a ausência de jovens nesta actividade. “Não temos queijo, nem leite. Não há leite e não podemos falsificar o queijo, porque só temos queijo de elevada qualidade. O que temos aqui é o que fui fazendo nos últimos tempos, porque, de resto, nós temos a produção toda vendida”, conta, sublinhando que durante a Feira o quilo do queijo passa dos habituais 22 euros para 25.
Para esta queijeira, a realização da feira é positiva, mas não resolve os problemas estruturais do sector. “A Câmara gosta e promove o queijo, mas penso que era mais útil apoiar directamente os pastores para aumentarem os rebanhos e atrair gente nova para esta actividade”, defendeu. “Já restamos pouco e temos todos alguma idade”, conclui.
Correio da Beira Serra Jornal de Referência de Oliveira do Hospital e da região. Correio da Beira Serra – notícias da Região Centro – Oliveira do Hospital, Arganil, Tábua, Seia, etc
