O Ministério da Administração Interna (MAI) informou hoje que foram identificadas situações que do ponto de vista operacional podem necessitar de ajustamentos no combate ao incêndio na Serra da Estrela e que já estão a ser avaliadas. Fogo já provocou “danos enormes” na biodiversidade.
O MAI indica que a secretária de Estado da Protecção Civil, Patrícia Gaspar, se reuniu ontem e hoje, por videoconferência, com os presidentes das Câmaras Municipais da Covilhã, de Gouveia, da Guarda e de Manteigas, para acompanhar o incêndio que começou no sábado em Garrocho, na Covilhã.
“Nos encontros de ontem e hoje foram identificadas situações que, do ponto de vista operacional e dadas as características do incêndio, poderão necessitar de ajustamentos, e que estão já a ser objecto de avaliação”, refere um comunicado do MAI.
Nas reuniões estiveram presentes responsáveis da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) que explicaram as dificuldades identificadas ao nível da orografia da região, condições meteorológicas expectáveis e os meios empenhados. O Governo e a ANEPC voltam a reunir-se com os autarcas na sexta-feira às 09h00.
O Ministério refere ainda que “a complexidade deste incêndio desencadeou uma mobilização de meios excepcional”. O Ministério fala em mais de 1.500 operacionais, apoiados por 465 veículos, 14 meios aéreos e 16 máquinas de rasto.
O MAI indica também que “em função das regras previstas no Sistema de Gestão de Operações, e considerando o número de meios já envolvido, o comando da operação está a ser assegurado pelo 2.º Comandante Nacional da ANEPC, Miguel Cruz”.
Fogo provocou “danos enormes” na biodiversidade
“Este é um dano enorme na biodiversidade da Serra da Estrela, porque o incêndio atinge uma área muito vasta e também em diferentes altitudes — há áreas destruídas em zonas situadas a 600 metros até pontos situados nos 1.500 metros. Esta heterogeneidade de espaços afectados resulta numa enorme perda, porque afeta muitos habitats diferentes”, disse à agência Lusa José Conde, biólogo do Centro Interpretação da Serra da Estrela (CISE), estrutura da Câmara de Seia.
Ressalvando que a avaliação no terreno ainda não foi feita, o especialista realçou que, face à extensão do incêndio, “todos os grupos de fauna e flora terão uma perda verdadeiramente severa”. Pela área afectada, o processo de luto “será muito longo e penoso” e a recuperação lenta, alertando que “algumas perdas poderão ser mesmo irreparáveis porque altera-se o equilíbrio do ecossistema”.
“Houve vários habitats de maior importância ecológica que foram afectados, em particular, bosques de azinheiras, bosques de castanheiros, algumas áreas de carvalhais e ainda áreas de mato, nomeadamente caldoneirais”, formações arbustivas raras no país dominadas pela planta caldoneira, que são um habitat importante para várias comunidades de insectos, répteis e aves, frisou.
Para além da importância destes habitats para a conservação da flora, há “a lamentar uma perda correspondente ao nível da fauna, que é muito significativa, em particular algumas espécies mais raras, com distribuição mais local”, salientou.
Répteis como a víbora cornuda, o sardão, ou espécies de grilos e escaravelhos que apenas existem na Serra da Estrela, assim como pequenos carnívoros como as fuinhas e as ginetas terão sido afectados, referiu. “Estamos a falar de impactos transversais a todos os ecossistemas terrestres”, salientou.
No caso das aves, em que a Serra da Estrela também apresenta uma grande diversidade, haverá espécies com menor capacidade de expressão que poderão ter sido fortemente atingidas, enquanto aves de maior porte, apesar de terem a capacidade de “escapar às chamas e de se deslocar para zonas não atingidas, muito rapidamente não terão alimento disponível”, notou.
Também as espécies aquáticas terão a sua sobrevivência “muito condicionada” num futuro próximo, face à possibilidade de contaminação das águas com sedimentos e cinzas resultantes dos incêndios, apontou.
Toda a fauna que sobreviver às chamas “vai ter grandes dificuldades, porque os habitats já não lhes vão oferecer a mesma disponibilidade de refúgios e de alimentação”, referiu o biólogo. “Todos temos a lamentar as perdas económicas e sociais, que são a prioridade, mas, no futuro, devemos procurar adoptar um conjunto de medidas de gestão que permita, da melhor forma, compatibilizar as actividades humanas com a conservação da natureza. Teremos que ir de mãos dadas – o desenvolvimento local e a conservação. Só dessa forma podemos ambicionar ter um sistema mais resiliente ao fogo e às perdas que ele implica”, salientou José Conde.
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