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Interior: entre o anúncio e a obra. Autor: Fernando Tavares Pereira

Há documentos que chegam tarde. E há documentos que, chegando tarde, trazem consigo uma responsabilidade acrescida: a de não falhar outra vez.

A publicação em Diário da República do Programa Regional de Ordenamento do Território do Centro inscreve-se nessa categoria. Não surpreende, não inova, não descobre. Confirma. E, ao confirmar, expõe.

O que expõe é simples. Durante décadas, o Interior foi sendo pensado em relatórios, estudado em planos, prometido em campanhas. Faltou-lhe quase sempre o essencial: decisão e execução.

Desde 2006, com a criação do Núcleo de Desenvolvimento Empresarial do Interior e Beiras (NDEIB), de que fui dinamizador, que o diagnóstico está feito. Entre 2006 e 2013, esse núcleo não se limitou a reclamar. Investiu, promoveu levantamentos técnicos, reuniu vontades.  Em Oliveira do Hospital, juntaram-se empresários, membros do Governo e 11 presidentes de Câmaras Municipais (Arganil, Celorico da Beira, Fornos de Algodres, Gouveia, Seia, Oliveira do Hospital, Tábua, Carregal do Sal, Penacova, Góis e Vila Nova de Poiares). Discutiram-se traçados, definiram-se prioridades, assumiram-se compromissos.

Nada disso saiu do papel.

Ao longo dos anos, muitos responsáveis políticos da região também tiveram responsabilidades. Enquanto candidatos, prometeram tudo, mas esqueceram-no quando chegaram ao poder. Em 2009, na tomada de posse, o então presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital afirmou que, enquanto fosse presidente, essas infra-estruturas teriam de avançar. O tempo passou, deixou de exercer funções, e as obras não avançaram.

Não faltaram estudos. Faltou decisão.

O resultado não é abstracto. Mede-se. Esta é hoje uma das regiões do país que mais população perdeu. A média de idades ultrapassa os 50 anos. O tecido empresarial fragilizou-se, as oportunidades rarearam, a capacidade de atrair investimento diminuiu.

Sem acessibilidades, o Interior deixou de competir.

O IC6 ficou por concluir. O IC7 não avançou. O IC37 permaneceu uma intenção.

O PROT-Centro vem agora reafirmar aquilo que há muito era sabido: sem uma rede viária estruturante, não há coesão territorial possível. Ao fazê-lo, reconhece a centralidade destas ligações e a sua articulação com a A25.

No caso do IP3, a via existe, mas sempre revelou limitações. A sua duplicação para perfil de auto-estrada, agora iniciada entre Viseu e Santa Comba Dão, constitui um avanço que deve ser reconhecido e valorizado. Chega, porém, depois de anos de anúncios que não tiveram concretização, designadamente durante os governos de António Costa.

Mas há uma questão mais funda. O país continua a investir sem pensar em rede. A barragem de Girabolhos é um exemplo disso mesmo. O investimento ali previsto poderia servir para garantir uma acessibilidade eficaz naquele território, dispensando a construção de um novo eixo como o IC37. Essa opção libertaria recursos para intervenções mais estruturantes, como o IC6 e o IC7.

Não se trata de fazer mais obra. Trata-se de fazer melhor obra.

Ao longo destes anos, defender estas posições nem sempre foi cómodo. Num espaço público onde a crítica é, por vezes, mal recebida, insistir na prioridade das acessibilidades e na defesa do interesse das populações teve custos. Ainda assim, a convicção manteve-se.

O PROT-Centro não resolve nada por si. Não constrói estradas, não fixa pessoas, não cria empresas. Pode, isso sim, abrir uma possibilidade.

Se for executado.

Se sair do papel.

Se, desta vez, houver decisão.

A regeneração do tecido empresarial, a atracção de investimento e a fixação de população dependem menos dos planos e mais da sua concretização. O Interior não precisa de novas promessas. Precisa de obras.

O Governo deu um sinal. Falta fazer o resto.

No dia do início das obras faremos uma festa na região, para agradecer aos responsáveis políticos que tiveram a coragem de avançar com a sua concretização e responder às nossas necessidades.

Digam o que disserem, sem acessibilidades não há desenvolvimento.

 

 

Autor: Fernando Tavares Pereira

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