Depois de assumir a presidência do FC Oliveira do Hospital, Hélder Brito fala sobre a parceria com investidores e os planos para a formação e o futebol sénior.
Hélder Brito, 44 anos, assumiu a presidência da direcção do FC Oliveira do Hospital a 7 de Julho, no dia do 87.º aniversário do clube, com a prioridade de assegurar o a continuidade do emblema, após a despromoção da equipa sénior para o Campeonato de Portugal. O interesse que o clube despertou junto de investidores acabou por surpreender a nova direcção e levar a uma parceria que entrega 90 por cento do capital da SAD a dois novos investidores, libertando a direcção do clube para gerir exclusivamente a formação e a área associativa. A direcção pede aos beneméritos do concelho que cedam um terreno ao clube para que seja construído um estádio destinado a acolher as camadas de formação.
CBS – O que o levou a avançar para a liderança do clube numa fase tão delicada?
Hélder Brito – O nosso grande objectivo era evitar que o clube terminasse, em particular a área da formação. Foi isso que me levou a mim e às restantes pessoas a avançar para a direcção. Depois, houve aspectos que nos surpreenderam agradavelmente, como a força e a atractividade da marca FC Oliveira do Hospital. Recebemos de imediato vários contactos de investidores que tentaram demover-nos da ideia inicial de ficarmos apenas com a formação. Incentivaram-nos a manter a equipa sénior e a constituir um plantel forte e competitivo. Acabou por se formar um grupo de investidores que decidiu avançar com o projecto e assumir a SAD do clube, responsável pela gestão total e integral do futebol profissional. Ao clube cabe a gestão de tudo o resto, desde a formação à área associativa, que também é muito importante.
Os investidores vão assumir 90 por cento do capital da SAD?
O clube detinha a totalidade das acções. E uma das condições colocadas para esta parceria avançar foi precisamente estes investidores assumirem 90 por cento da SAD. Só nessas circunstâncias foi possível chegar a um entendimento. A cedência de 100 por cento não era estatutariamente possível. Existiram outras possibilidades, mas esta foi a que nos pareceu mais adequada.
Os processos anteriores para colocar o capital da SAD não correram muito bem…
Não podemos dizer que todos tenham falhado. Num dos casos, houve uma pessoa que investiu no clube, mas que, devido a doença, nos devolveu as acções, demonstrando boa fé. Mais tarde, houve conversações com um senhor de apelido Hidalgo que não passaram de negociações. Pelo que sei, essa pessoa abordou o clube com intenção de adquirir as acções, mas nunca apresentou qualquer proposta concreta e mostrou alguns documentos de legitimidade duvidosa. Tudo ficou por mera conversa.
Qual o montante que vão investir na compra das acções?
Não vou falar nisso agora. Vamos fazer muito em breve a apresentação das pessoas e de todo o projecto. Nessa altura serão esclarecidos todos os pormenores. Mas são pessoas que já no passado tinham abordado a anterior SAD para fazerem a aquisição do capital. Um deles é português e será o presidente da SAD. É o Dr. José Pedro, um advogado que tem várias empresas na zona de Aveiro. Outro investidor é um empresário de futebol brasileiro muito conhecido.
A identidade do clube fica salvaguardada?
O que aconteceu com clubes como o Aves e Vilafranquense já não é possível devido à nova legislação. O clube por lei tem de ter sempre dez por cento e tem de estar sempre representado na administração. No caso serei eu. A identidade do clube está sempre resguardada. Além disso, uma das coisas mais importantes que nos levou a escolher estes investidores foi o facto de eles fazerem questão ouvir o clube. Foi algo que, em minha opinião, não aconteceu no passado e que é importante que aconteça.
Qual é o objectivo destes investidores?
O projecto dos investidores centra-se em tirar proveito da marca FC Oliveira do Hospital e de eventuais negócios com atletas oriundos da formação e na valorização de outros que são contratados. Actualmente, a SAD não integra o escalão sub-19, mas no próximo ano, provavelmente, incluiremos o sub-19 na SAD. A formação é fundamental, e estes investidores apostam nos jovens, como se comprova pelas contratações realizadas, nas quais o clube tem sido ouvido, e pela integração de quatro jogadores das nossas camadas jovens no plantel sénior. Estes jovens têm entre 14 e 17 anos. Estudam e temos de ter muito cuidado na forma como tratamos estes casos, porque eles têm e devem dar prioridade aos estudos. Por isso talvez não fiquem a tempo inteiro no plantel sénior, mas é já um prémio. São jogadores que começaram a treinar aqui com cinco anos. Isto demonstra por parte dos investidores uma clara intenção de aproveitar o que de melhor temos no clube.
Em termos competitivos, o objectivo é regressar à Liga 3?
Temos de ser bastante claros. Começamos a preparar esta época muito tarde. Ainda agora estão a chegar jogadores para formar a base do plantel. Partimos em desvantagem. A aposta é claramente a manutenção. Nos próximos anos, os investidores vão querer rever os objectivos.
A promoção implicaria jogar novamente em Tábua?
A Liga 3 é uma prova com grande visibilidade. O concelho de Oliveira do Hospital tem de aproveitar isso. Os investidores têm algumas ideias no que respeita a infra-estruturas. A indicação que tenho é que o presidente da SAD vai reunir com o município em breve porque têm vontade de implementar aqui uma estrutura de futebol profissional que não seja só para o Campeonato de Portugal. Pretendem investir no concelho e querem saber qual a melhor forma de colaborar com as instituições locais.
A equipa B vai manter-se?
Não. Esse foi um projecto que nasceu e cresceu para darmos aqui algum andamento aos jovens que terminavam a sua formação. Mas não tínhamos infra-estruturas físicas e humanas para lhe poder dar suporte. Tivemos dias em que tínhamos a equipa B a jogar aqui e a equipa principal a jogar em Tábua. Isso não fazia qualquer sentido. Temos de fazer uma avaliação e depois decidir, se assim se entender, se queremos uma equipa sub-23 ou uma equipa B. Mas isso partindo de uma base sólida que não existe neste momento.
Hélder Brito apela a beneméritos para cederem terreno para estádio destinado às camadas de formação
Presidente do FC Oliveira do Hospital sublinha que infra-estruturas serão exclusivamente para o clube, sem relação com a SAD, e promete assumir construção e desenvolvimento do espaço
A direcção do FC Oliveira do Hospital vai apostar na formação e pede aos beneméritos do concelho que lhes arranjem um terreno onde possam implementar um campo e outras infra-estruturas. Hélder Brito, presidente do clube, deixa claro que este espaço nada terá a ver com a SAD, sendo exclusivamente para a formação do clube. “Quando apelo que nos arranjem um terreno é exclusivamente para o clube. Isso que fique claro. Para a formação do clube. É muito importante referir que nada tem a ver com a SAD”, refere Hélder Brito.
CBS – Esta direcção tem falado muito em defesa da formação…
É o nosso grande objectivo. Quase todos os que estamos na actual direcção passámos por essa área do clube. E é algo muito importante. Nós já trabalhamos muito bem a formação. Nos últimos anos tem-se desenvolvido muito. Têm saído jovens para o Benfica, Sporting ou Tondela. Mas queremos melhorar. Para que isso aconteça, precisamos, nós clube, de criar uma infra-estrutura, um espaço onde os miúdos possam ter condições de trabalho. No ano passado assisti aqui a coisas que custa muito. Os miúdos estavam a ver um vídeo dentro do balneário, depois tinham de sair para outros se equiparem. Não pode continuar assim. Precisamos de infra-estruturas. Deixo aqui um apelo aos beneméritos do concelho para que nos consigam arranjar um terreno onde possamos implementar um campo e posteriormente desenvolver outros projectos nesse espaço. Seria extremamente importante para alavancar a formação. Quando apelo que nos arranjem um terreno é exclusivamente para o clube. Isso que fique claro. Para a formação do clube, não teria nada a ver com a SAD.
A SAD fica só com o futebol sénior?
Sim, ficam com toda a responsabilidade do futebol profissional. Por isso, a direcção do clube tem possibilidades para se focar nas camadas jovens, que são o futuro de qualquer instituição. Mesmo assim, com estas condições precárias, temos colocado nos últimos anos equipas na decisão de provas. No ano passado, os iniciados do clube ganharam a Taça Distrital AF Coimbra e estiveram até à última jornada a lutar para subir aos nacionais. Era importante para a cidade voltar a ter uma ou duas equipas nos campeonatos nacionais. Por isso, penso que a formação merece outra atenção. Este emblema movimenta cerca de 180 jovens. É significativo.
E o único espaço é este relvado sintético e os contentores a servirem de balneário?
Não temos outro. Mas se com um campo, que muitas vezes temos de dividir em cinco para que todos possam treinar, e com contentores como balneários, conseguimos fazer este trabalho, se tivermos um espaço condigno onde consigamos jogar e treinar devidamente os resultados seriam claramente superiores. Mais uma vez deixo aqui um apelo aos beneméritos do concelho que nos consigam arranjar um terreno que nós, clube, assumimos a restante parte da construção. Começaríamos por um sintético e depois, a partir daí, iriamos construindo outros espaços que temos em mente para alavancar a formação do clube. É isso que me preocupa neste momento. Temos muita qualidade, mas custa-me ter estas condições de treino e manhãs de domingo com quatro jogos. Tenho de pedir aos miúdos para começarem a jogar às 9h00 da manhã. Custa-me muito não terem instalações condignas. Custa-me que não tenhamos uma sala de trabalho em condições. Não temos uma sede. Não temos um campo. Só temos um autocarro e qualidade humana.
Há coordenação entre a nova SAD e o clube para promover esses talentos?
É do interesse dos investidores lançar os talentos que vão surgindo. Essa é a base do negócio deles. Este plantel já vai integrar quatro jogadores da nossa formação. Quem vem aqui fazer este investimento estudou todos os dados e sabe que temos muito potencial na formação. Sabe que a nossa academia de formação fez no ano passado dez anos e, a partir de agora, vai começar a dar frutos. Não é por acaso que despertamos o interesse dos grandes clubes. Há duas épocas o Sporting e o Benfica vieram aqui buscar dois jovens, um com sete e outro com dez anos. E temos muitos mais com talento.
Antes de assumir a candidatura não efectuou contactos com os empresários e com as forças vivas da cidade?
Fui bastante encorajado a avançar para o clube não terminar. Só que isso não chega. São precisas acções concretas. Pretendemos que as pessoas voltem ao clube. Vamos alavancar determinados projectos e colocar os órgãos do clube a funcionar. Não podemos ter uma Assembleia Geral que reúne de dois em dois anos. As pessoas perdem o contacto. As rotinas. Se estivermos em permanente contacto com os sócios, eles também se vão sentir mais acarinhados e vêm até nós e perguntam o que precisamos. Há sócios que hoje, além das cotas, ajudam o clube. Se calhar estes últimos tempos nem tanto pela vicissitude de jogarmos em Tábua. As pessoas têm-me abordado na rua para me dizerem que estão disponíveis para ajudar. Mas as grandes empresas do concelho têm de voltar ao clube. Aquilo que nos derem não é para ter retorno, é para ajudarem o clube da cidade. Ainda assim, o clube pode ter impacto na restauração, hotelaria e comércio. No ano passado, os clubes iam jogar a Tábua e questionavam onde podiam ir almoçar. Outros vinham um dia antes e perguntavam onde podiam visitar isto ou aquilo. São coisas que trazem movimento, neste caso era a um concelho vizinho. E se tivéssemos jogado em Oliveira do Hospital estou convencido que não tínhamos descido. Mas temos de agradecer muito ao município de Tábua, onde fomos bem tratados e que tem umas estruturas dignas de uma II Liga.
O concelho de Oliveira do Hospital tem também um elevado número de clubes. Essa dispersão de recursos não é prejudicial?
Penso que seria importante perceber o que é que município pretende em termos de desporto para o concelho. Não vou entrar aqui em questões políticas, mas é importante que exista esse esclarecimento. Têm, de facto, surgido clubes a avulso pelo concelho e é importante que exista uma reflexão. É essencial sentar as colectividades à volta de uma mesa. Se queremos ter várias equipas ou se queremos ter uma equipa forte… Não temos qualquer equipa da formação nos campeonatos nacionais. Isso não faz sentido para este concelho. Não faz sentido dispersarem-se os jovens. Se calhar, se estivessem todos numa só equipa, com esse campo de recrutamento, poderíamos ter uma equipa de formação noutros patamares e isso seria muito mais benéfico para os jovens e para o concelho.
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