Jorge Almeida consumou hoje aquilo que já se adivinhava desde o início da semana. Numa comunicação que efetuou ao final da manhã de hoje, via e-mail, dirigida à presidência do Instituto Politécnico de Coimbra, o presidente da ESTGOH anunciou o seu afastamento do lugar que ocupava desde o dia de 24 de março de 2010, por não se rever no caminho recentemente traçado para a escola de Oliveira do Hospital.
Uma demissão que não se esgotou na presidência da ESTGOH e que também alastrou ao vice-presidente, Mateus Mendes e ao presidente do Conselho Técnico-científico da ESTGOH, Filipe Amaral.
Na base desta tomada de decisão está todo o processo de instabilidade que, desde há cerca de um ano, tem vindo a afetar a escola de Oliveira do Hospital que, por decisão do último Conselho Geral do IPC, vai entrar num processo de reformulação de oferta formativa para a área da Saúde, por via da substituição dos atuais cursos de gestão e engenharia.
Um processo que não colhe o aval do até aqui presidente da ESTGOH que pretendia fazer da escola oliveirense, um estabelecimento de ensino superior ligado à recém criada BLC3 e aos projetos na área dos biocombustíveis e outras energias renováveis.
“Eu queria fazer uma escola com formato diferente, que tivesse cursos na área dos biocombustíveis e que continuasse a funcionar como unidade orgânica”, afirmou Jorge Almeida ao correiodabeiraserra.com, lamentando nunca ter sido ouvido em todo o processo que, no último ano, denegriu a imagem da escola no exterior.
“Eu nunca quis fechar curso nenhum”, diz, referindo-se em concreto à baixa da licenciatura de Engenharia Civil. Do mesmo modo, Almeida também critica a mudança frequente daquilo que foram sendo as pretensões da presidência do IPC, “que em março queria uma escola virada para a gestão, em maio fecha um curso e quer virar a escola para os biocombustiveis, em Agosto quer fechar a escola e agora a quer transformar numa escola de saúde”. “São muitas ordens e contra-ordens no mesmo ano”, reage o presidente demissionário, alertando para o facto de os 30 professores ao serviço da ESTGOH não poderem “virar as suas áreas científicas”.
“Eu aguentei muitas balas e garanto que isto não é desistir à primeira contrariedade”
“Não tenho condições para trabalhar e não posso estar à frente de uma escola em que o IPC lhe muda o caminho de três em três meses”, continua o professor que também critica a forma como a presidência do IPC olha para os cursos da ESTGOH e para as licenciaturas das escolas de Coimbra.
Jorge Almeida não entende “como é que há cursos com mais de 100 alunos que fecham aqui, quando em Coimbra há um curso de Teatro com 30 alunos e não fecha”. “Não aceito esta dualidade de critérios”, afirma, notando que em face de um caminho definido em Conselho Geral do IPC mas com o qual não concorda, nada mais lhe resta que não seja o de renunciar ao mandato.
“Eu aguentei muitas balas e garanto que isto não é desistir à primeira contrariedade”, afiança Jorge Almeida que garante deixar “a casa arrumada” – “não há dívidas e apenas executámos cinco semanas de orçamento”, regista – para a chegada de “alguém que se identifique com o novo rumo que o IPC pretende dar à ESTGOH”.
Resistente na hora de traçar previsões relativamente àquilo que vão ser os próximos tempos da ESTGOH, Jorge Almeida diz apenas não entender que “Saúde” seja a melhor área formativa para a escola de Oliveira do Hospital que, em 2001, iniciou atividade com cursos que foram propostos no âmbito de um estudo desenvolvido pela Universidade de Coimbra e, que aferiu qual a oferta formativa que melhor serviria a região. Uma oferta que, na opinião de Jorge Almeida, carecia agora de “mudança”, mas no âmbito daquilo que são os novos desígnios de desenvolvimento do concelho e da região e que passam, necessariamente, pelo conceito das energias renováveis.
“Quando vejo que o caminho é para Terapia da Fala que só gera desemprego e não tem a ver com a região, nada mais me resta que não seja renunciar”, insiste o docente que, desta forma, se mostra indisponível para, no futuro, ser responsabilizado por um caminho que nunca defendeu para a ESTGOH.
Baseando a sua renúncia no resultado de um relatório apresentado por uma comissão criada para estudar a reformulação da oferta formativa de todo o IPC, Jorge Almeida denuncia ainda a intenção de o IPC querer transformar a ESTGOH num pólo da Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra.
Do mesmo modo, também critica os autores do relatório por apenas se debruçarem na ESTGOH e não proporem qualquer alteração às restantes unidades orgânicas do IPC “permitindo-se que possam existir duplicações a dois quilómetros, mas que não possa haver a 80 quilómetros”.
De regresso à sua atividade de docente e investigador, Jorge Almeida não esconde a tristeza com que sai deste processo. “Não tenho alegria em sair, saio com indignação e revolta”, confessa, não escondendo porém o orgulho pelo trabalho que desenvolveu e pelas relações de confiança estabelecidas entres docentes e funcionários e que, facilmente, atesta na solidariedade recebida na hora da demissão, em particular do vice-presidente e presidente do conselho Técnico-Cientifico. “Eu não pedi nada. Fico sensibilizado”, conclui.
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