Home - Opinião - O abandono dos rios da minha juventude*… Autor: Fernando Tavares Pereira

O abandono dos rios da minha juventude*… Autor: Fernando Tavares Pereira

Houve um tempo em que os rios eram destino e promessa. Correntes claras, margens limpas, peixes ágeis, enguias escondidas nas pedras, amêijoas negras enterradas na areia na foz do Seia para o Mondego. Estes dois rios, nos concelhos de Seia, Oliveira do Hospital e Tábua, eram mais do que cursos de água: eram lugares de encontro, de convívio, de tardes de merenda e de pesca. Os caminhos que levavam até eles eram muitos e livres. Todos sabiam onde começavam e onde acabavam. Eram também percursos de amizade e de descoberta.

Hoje, quase nada resta. A poluição tomou conta de parte das águas. O mato invadiu as margens e os trilhos desapareceram. Muitos acessos foram cortados, outros apropriados por particulares. Nalguns casos, o aventureiro que tente recuperar a velha rota arrisca-se a enfrentar barreiras físicas e até ameaças. Como já tem acontecido. Os terrenos antes cuidados por quem deles vivia ou neles passava, estão agora abandonados. O respeito pela floresta, tão natural no passado, diluiu-se entre construções dispersas, quintas muradas e a ausência de quem as mantenha limpas. Caramba, será que as juntas e as câmaras municipais não têm 500 ou mil euros por ano para limpar estes caminhos?

As juntas e câmaras municipais têm responsabilidades. E preferem promover festas, erguer palcos, animar fins-de-semana de campanha. Criando facilitismo. Porque o voto é que conta. Na maioria dos casos, não as vejo abrir caminhos ou reabilitar acessos. Como se a vida comunitária não passasse também pela proximidade à terra e à água. Muitos deles provavelmente nem fazem ideia daquilo que existia no concelho. Em contrapartida, fico a saber que no Alentejo se abriram passagens para as praias mediante pagamento. Aqui, nem pagando.

Cerca de 44 mil hectares do Parque Natural da Serra da Estrela estão entregues, em regime de monopólio, a uma só empresa. Talvez seja o retrato perfeito do país: recursos comuns concentrados, espaços de todos transformados em propriedade de poucos e das quais alguns se apoderaram. As cartas militares, se consultadas, mostrariam claramente os percursos públicos. Bastaria limpá-los, sinalizá-los e tratar devidamente os leitos de água para ter cursos límpidos como outrora, e devolvê-los às pessoas. Mas ninguém o faz.

Quando era jovem, ia com o Carlos da Quinta do Cangueiro, em Andorinha, às enguias com uma corda para o Seia, junto às Poldras, e também no Mondego. Com o Luís Canicova, na Vila do Mato, na foz do rio Seia com o Mondego, apanhava amêijoas negras. Também preparava o galricho para apanhar os peixes. A poluição, contudo, já afastou enguias do rio Seia e reduziu algumas espécies do Mondego. Hoje, sem acesso, o rio está entregue ao lixo e ao esquecimento. Os incêndios, outrora raros e mantidos à distância por aceiros e caminhos limpos, multiplicam-se agora todos os Verões.

O tempo passa, as memórias apagam-se e o futuro parece não existir. Somos um país cheio de oradores, analistas e fazedores de discursos, mas pobre em trabalhadores e organização. Escasseiam braços e vontade, sobra retórica. E é assim que os rios, os caminhos e a própria paisagem se vão afastando, lentamente, das nossas vidas.

*Este artigo foi escrito antes dos incêndios que afectaram a região.

 

 

Autor: Fernando Tavares Pereira

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