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Observatório de Travancinha ganhou nova vida com astrónomo que fugiu da guerra

O astrónomo argentino Federico Neiman recomeçou em Travancinha, no concelho de Seia, depois de ter perdido a casa com o início da guerra em Israel, em 2023. Após uma passagem pela Grécia e pelos Estados Unidos, chegou à freguesia serrana, onde hoje dirige o Observatório Astronómico de Travancinha.

A chegada a Portugal surgiu na sequência da saída forçada de Israel, país onde viveu durante 17 anos. “Em 2023, perdi a casa e decidi sair. Passei pela Grécia, pelos Estados Unidos e cheguei a Portugal, sem objectivos definidos”, recorda. Em Fevereiro de 2025 assumiu a direcção do observatório, que abriu ao público em Julho do mesmo ano, consolidando um projecto com impacto científico, educativo e turístico na região.

Antes disso, o percurso começou em 2009, quando se mudou para Israel para estudar, acabando por permanecer no país, onde desenvolveu actividade académica e educativa ligada à astronomia. Trabalhou com várias agências espaciais, incluindo a NASA, e em projectos com a Estação Espacial Internacional.

Foi já depois desse trajecto que conheceu o projecto de Travancinha, através de contactos na comunidade científica. “Fiquei encantado com o país e a região. Não procurava este projecto, ele surgiu através desses contactos. Aceitei o desafio de o transformar numa realidade aberta a todos”, conta.

Quando chegou, a estrutura estava ainda numa fase inicial. “Era um miradouro. A situação era frágil”, recorda. A partir daí, começou a trabalhar com a comunidade local, com a Câmara Municipal de Seia e com a Junta de Freguesia de Travancinha, estabelecendo também ligações ao Centro de Interpretação da Serra da Estrela e a instituições académicas. O projecto arrancou em Fevereiro de 2025 e abriu ao público em Julho.

Travancinha reúne condições raras para a observação astronómica, num país marcado pela poluição luminosa, sublinha o astrónomo. “Portugal é o país europeu com maior poluição luminosa”, diz, referindo-se ao excesso de luz artificial que limita a observação do firmamento. “Numa cidade portuguesa é possível observar apenas cerca de 40 estrelas, quando deveriam ser milhões”. Em Travancinha, o cenário é outro. “Aqui temos baixa poluição luminosa e um céu espectacular, o melhor da região e do país”.

“A Via Láctea percebe-se com uma intensidade invulgar. Muitas pessoas perguntam o que é aquela faixa branca no céu. Trata-se da Via Láctea, milhares de estrelas visíveis a olho nu”.

É com base nessas condições que o observatório se abre à investigação científica. Está em curso a robotização do telescópio principal, de 12 polegadas, que permitirá a investigadores de diferentes países utilizá-lo à distância para estudar o céu profundo. “Muitos investigadores aguardam até três anos por uma noite de observação noutros telescópios”, explica.

O projecto articula-se com instituições de ensino superior, como o Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra, abrindo portas à investigação a partir do céu da região.

A ligação à comunidade é determinante. “A chave do sucesso é a ligação à comunidade. Um projecto desta dimensão tem de nascer dela e servir quem nela vive”, sublinha. Nesse contexto, o observatório está também a medir a poluição luminosa local. “Só conhecendo a realidade é possível melhorar”.

A continuidade do projecto assenta numa lógica colectiva. “Temos apoio da Câmara, ligação ao Centro de Interpretação da Serra da Estrela e uma forte participação da população”, diz. Actualmente, o observatório conta com cinco telescópios, incluindo um telescópio solar, e recuperou equipamentos que se encontravam degradados. Foi ainda criada uma associação de observadores astronómicos, responsável por parte dos investimentos.

O envolvimento da comunidade estende-se à formação. Jovens da região foram preparados como operadores e participam no funcionamento. “Controlam os equipamentos, explicam ao público e estão a construir os seus próprios telescópios”, conta Federico Neiman.

O observatório integra também uma vertente turística e educativa, com actividades dirigidas a escolas e famílias. “A experiência não é apenas observar estrelas, é sentir o ambiente, o silêncio e a partilha em família. Muitas famílias vivem ali momentos marcantes, reunidas sob o mesmo céu, desligadas dos ecrãs”, sublinha. Está ainda previsto um planetário fixo.

A iniciativa surge como complemento à oferta existente no território. “Não substitui outras ofertas, complementa-as, incentivando os visitantes a permanecer mais tempo”, refere. “Promove competências essenciais e aproxima os jovens da indústria espacial”.

O acesso do público depende da época do ano e das condições meteorológicas. Nesta fase, o espaço funciona diariamente, mas está aberto ao público apenas aos sábados. A partir de 1 de Junho, abre todas as noites, excepto segundas-feiras, até ao início de Setembro, mediante inscrição.

O espaço está também a ser alvo de intervenções ao nível dos acessos, com o objectivo de melhorar as condições de visita e reforçar a acessibilidade.

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