Hoje não posso deixar de dizer o que muitos sabem e não dizem ou outros não sabem e dizem. Durante muitos anos, o homem no meio desta foto que é o meu pai, sempre tentou dar o melhor ao meu Avô [Manuel Perreia faleceu no domingo aos 92 anos]. Outros filhos/as também sempre se preocuparam com ele e anteriormente com a minha avó. Mas esta foto é icónica e representativa do seu amor pelo Sporting. Foi tirada em 2015 quando o Sporting ganhou a taça de Portugal, numa partida em que chegou a estar a perder por 2-0. Ele estava muito nervoso e disse-lhe para irmos andando para o carro. No final, o Sporting acabou por ganhar nos penaltis e ouvimos os golos no rádio junto ao rio Jamor. Mas isto tudo era para dizer uma única coisa: ele (o meu avô) viveu momentos únicos.
Nasceu na Lagoa (Travanca de Lagos) e cresceu em Touriz (Midões). Nasceu no pós Primeira guerra e viveu a Segunda Guerra, foi caixeiro-viajante, sem ter carta de condução, foi sapateiro, foi comerciante, resineiro, produtor de queijo, de requeijão, de animais, de hortaliças. Vendeu na praça e em vários mercados ou feiras, além do café e restaurante que teve. Sempre foi empreendedor e muito lutador junto com a minha Avó.
Os tempos eram outros, mas até nisso fazia diferente. Criou uma equipa na terra que adoptou mais tarde, o São Miguel. Tratava dos terrenos que pertenciam ao Senhorio da Casa do Esporão. Sim, porque antigamente poucos tinham terrenos e os que tinham, pagavam em produtos ou trabalho ao arrendatário ou proprietário para a sua utilização.
Mais tarde comprou e vendeu pinhais e madeira em geral, tendo acabado a sua vida de trabalho a plantar vinhas e terrenos agrícolas ou florestais, maioritariamente para o meu pai. Mas aqui existe uma conivência que, desculpem os outros filhos, mas que este era diferente. Sempre distante do Pai, mas atento ao que precisava. Sem demonstrar a preocupação, mas preocupado no seu bem estar. Enfim, muito poderia escrever, mas a vida tem significado quando vemos e temos exemplos. Foram muitos os que assistiram a esta ligação, mas foram poucos os que a conheceram na sua plenitude.
É por isso que muitos apareceram ou comunicaram das diversas maneiras o seu carinho pelo meu Avô e pelo meu Pai (nunca menosprezando toda a enorme família, obviamente). Outros nada disseram, pelo respeito, vergonha e pela inveja que todo este exemplo de vida foi. O Teimoso sempre perdoou todos, mas nunca esqueceu nenhum. Afinal, ele também era o 70. O orgulho, a promiscuidade entre ambos era singular e nunca vai desaparecer porque não precisavam nunca de estar perto para comunicar. Um filho que nunca deixou faltar nada ao seu pai até aos seus últimos dias. Isso é o que realmente esta vida nos dá. Que lindo é O AMOR DE PAI.
Autor: Nuno Pereira
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