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“O problema é que a maior parte dos deputados não sabe distinguir um chaparro de um eucalipto”

Jaime Marta Soares liderou a Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares desde 1974 até 2013. Hoje, aos 79 anos, diz estar disponível para servir novamente aquele município para, assegura, revitalizar novamente um concelho que a governação socialista fez regredir. Garante que quando saiu da Câmara a dívida era de 16,5 milhões de euros que estariam pagos em 2013. “Quando nós saímos, há nove anos, a dívida era 16,5 milhões, porque temos de distinguir o que é dívida e passivo”, conta, assegurando que sente uma “uma amargura muito grande por ver como se encontra Vila Nova de Poiares actualmente”. Sobre a floresta e os incêndios, Jaime Marta Soares considera que os principais culpados são os políticos. “A maior parte dos deputados não sabe distinguir um chaparro de um eucalipto”, atira.

CBS- O que é feito de si?

Jaime Marta Soares – É fácil de responder a essa pergunta. Os poiarenses veem-me todos os dias como um agricultor que cuida dos seus animais. Dos burros, ovelhas, patos, galinhas, perus e que vive com muita alegria. Estou de alguma forma a descomprimir de uma vida muito activa difícil, tanto na política, como nos bombeiros. Comecei muito novo na política e entre outras funções cheguei à Câmara Municipal e à Assembleia da República. Na Liga dos Bombeiros estive em todos os cargos, desde o mais básico até à presidência. Agora é preciso algum espaço para viver. Para recuperar as forças e analisar o passado.

Pode voltar como candidato à Câmara?

Como já lhe disse não estou encostado às “boxes”. Estou disponível para servir o meu partido, que é o PPD/PSD, tanto a nível nacional, como a nível local. O futuro a Deus pertence e não posso dizer se vou ou não sem os órgãos do meu partido decidirem. Se entenderem que posso ser útil, estou disponível para servir a minha terra.

“[A regressão de Poiares] deve-se às políticas incompetentes e incapazes de um partido que só sabe governar para clientelas e amigos…”

Depois deste tempo todo como está a sua terra?

Foi tirada do mapa. Vila Nova de Poiares teve um desenvolvimento extraordinário desde Abril de 1974. Era uma terra com ruas com mato, sem electricidade e água de chafurdo… Mas ao fim de dez anos essas infra-estruturas já estavam todas criadas. Apostámos num parque industrial dos melhores desta região. Foram concebidas condições na área da economia, apoiando os empresários, para se criarem riqueza para dividir pela população. Estive 39 anos na Câmara e nunca me importei de ter um município pobre, desde que o povo estivesse a viver bem. Esse foi sempre o caminho. Apostámos na cultura, na educação e no bem-estar da população.

Perdeu-se esse fulgor?

Os últimos censos mostram que Poiares perdeu 17 por cento da população. Isto demonstra que está a desaparecer do mapa. E deve-se às políticas incompetentes e incapazes de um partido que só sabe governar para clientelas e amigos.

Está a falar de quem?

Do Partido Socialista. Existe um compadrio em que governam só para alguns. Gostaria que as auditorias que foram feitas no meu tempo fossem realizadas agora. Tenho as minhas dúvidas, mas não sou eu que tenho de investigar.

É verdade que deixou a Câmara endividada, com um buraco tremendo?

É mentira. Uma coisa são dívidas outra é o passivo. Primeiro disseram que era de 26 milhões, depois era de 28 milhões, depois 30 milhões. A dívida da Câmara é 16,5 milhões. Salazar queria um Estado rico e um povo pobre. Serviu-me de exemplo. Eu queria uma Câmara pobre e um povo a viver bem. Era um autarca com visão. Sabia que tinha de investir naquela altura ou Poiares nunca sairia do marasmo.

Tem orgulho em como deixou Vila Nova de Poiares?

Muito. Quando nós saímos, há nove anos, a dívida era 16,5 milhões, porque temos de distinguir o que é dívida e passivo, e estaria totalmente paga ao banco em 2023. Estes senhores chegaram lá e passaram a dívida para 2038. Nos últimos nove anos não fizeram nada. Não atraíram uma empresa. Um posto de trabalho. E a dívida é de 14 milhões. O que andaram a fazer? Festas? Gastou-se mais de 1,3 milhões de euros no mercado de Vila Nova de Poiares para fazer dois parques de estacionamento. O que é isto? Mostrem uma obra de iniciativa da governação socialista desde 2013 para cá. Não têm uma única. Fazem coisas desarticuladas, desajustadas. Concebem apenas paliativos de governação.

Depois dos incêndios de 2017, Vila Nova de Poiares está preparada para enfrentar um novo perigo daquela dimensão?

Está como o resto do país. Enquanto cá estive, juntamente com a população, fizemos as auto-estradas da floresta. Em 39 anos e meio que permaneci na Câmara nunca vendi um eucalipto das matas da Câmara Municipal. Mal eu saí, venderam logo aquilo. Abotoaram-se com 60 ou 70 mil euros. Era do povo. Com esse dinheiro podiam fazer as infra-estruturas florestais, mas não fizeram nada.

“As pessoas pedem-me para me recandidatar. Nunca pensei ter tanto carinho como tive dos poiarenses durante 40 anos”.

Como vê o futuro?

Poiares regrediu. Quem vier a seguir vai ter um trabalho árduo para desmontar este clientelismo socialista vergonhoso.

O que sentiu quando surgiu todo aquele processo em que veio a ser absolvido?

Vergonha das vergonhas. Avançaram com aquele processo com o medo que eu me viesse a candidatar em 2017. Como sabe, um candidato não pode ter sobre si nenhum ónus da justiça. Chorei de revolta, porque o senhor presidente da Câmara escreveu na acusação que era dolo, peculato… De umas máquinas de fotocópias e agrafadores que a autarquia precisava. Andei estes anos todos à espera para depois efectivamente ouvir do tribunal absolver-me e dizer que não havia nada de que me pudessem acusar.

As pessoas pedem-lhe para se candidatar?

Pedem. Nunca pensei ter tanto carinho como tive dos poiarenses durante 40 anos. Dizem: volta Jaime, estás perdoado.

Voltaria a fazer tudo igual?

Tudo. Sempre me limitei a fazer aquilo que os poiarenses queriam para o futuro dos seus filhos. Criando bem-estar e riqueza. Neste país, enquanto cá estive, toda a gente falava de Poiares.

O que é que lhe falta fazer na vida?

Voltar a servir os poiarenses. Sinto uma amargura muito grande por ver Vila Nova de Poiares e como se encontra actualmente. Se o PSD achar que eu poderia ser a solução iria fazer de imediato a reprogramação para colocar Poiares no mapa. Iria ouvir as populações para saber o que deveríamos fazer. Tenho as minhas ideias, mas é preciso ouvir a população.

Sente-se com forças para fazer mais dois ou três mandatos?

Não, porque para isso tinha de durar muitos anos. A minha mãe tem 98 anos e eu gostaria de lá chegar com aquele discernimento, mas há coisas… mas ainda me sinto com grande capacidade para poder fazer um mandato ou ajudar que Poiares retome a sua posição na história de Portugal.

É um homem de fé?

Sou. Rezo todos os dias, muitas horas por dia. Quando me deito e quando me levanto. Tenho uma fé em Cristo que é incrível. Cristo é quase a razão da minha existência. Converso com ele todos os dias.

 

“O problema é que a maior parte dos deputados não sabe distinguir um chaparro de um eucalipto”

O que é necessário fazer para acabar ou mitigar os incêndios?

Tenho 79 anos e há mais de 60 anos que digo as mesmas coisas sobre a floresta, sobre o que se tinha de fazer, o cadastro, planeamento e criar riqueza. Se não houver retorno ninguém investe. Só houve um Primeiro-ministro que falou na floresta como fonte de rendimento, chamando-lhe o nosso petróleo verde. Depois, têm feito muitos estudos. Todos a ganhar principescamente. Há o livro branco, o livro azul, amarelo…. Há responsáveis deste estado de coisas e esses são os políticos que nunca agarraram o problema florestal em termos de uma prevenção estrutural de fundo.

……

Uma das formas de defender a floresta é o associativismo florestal, mas não se pode começar logo com 500 hectares, tem de se iniciar com 20 e criar incentivos. Temos de ter uma lei de expropriante de utilização dos terrenos. O problema é que a maior parte dos deputados não sabe distinguir um chaparro de um eucalipto. Nada. Como não sabem nada de bombeiros. Como é que podem fazer uma reforma estrutural?

Deveriam entregar a gestão e prevenção dos incêndios aos bombeiros?

Não. A prevenção tem de ser de quem tem conhecimento da floresta. E deve ser do ICNF. Mas é preciso trabalhar. O problema é que eles são como o caracol: devagar, devagarinho. Podiam fazer fogos controlados em zonas de pastoreio porque sabem que há incêndios que são os pastores que os colocam para terem pasto para o gado. Por isso, deviam fazer queimas controladas, como não as fazem depois acontecem os incêndios descontrolados. Os pastores não o fazem por mal, mas sim porque precisam. Eles não querem grandes incêndios, mas muitas vezes perdem o controlo.

Considera que se vai cavar mais o fosso entre o interior e o litoral?

Sim. Com as actuais políticas o interior será cada vez mais pobre e o litoral cada vez mais rico. Vai continuar o êxodo das populações e onde não há gente não há desenvolvimento. Fica o despovoamento. O que ainda nos vai permitindo resistir é a beleza natural do interior e a atracção turística. O turismo rural. Vai sendo isso que vai fazendo com que o interior tenha algumas pessoas. Não vejo medidas para inverter essa tendência.

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