Diário da Caravana Humanitária Portuguesa à Ucrânia
Dia 2/3
A primeira carrinha da Caravana Humanitária Portuguesa já partiu de Varsóvia com cinco ucranianas e um menino rumo a Portugal.
Três mulheres, duas meninas e um menino são as primeiras de um total de cerca 130 refugiados recolhidos nesta acção que nasceu de forma totalmente voluntária, organizada por particulares que se uniram a partir de 28 de Fevereiro e a de 2 Março já estavam na estrada com 19 viaturas carregadas de bens alimentares. A Europa está de novo pela frente e na carrinha de nove lugares os voluntários Ricardo Castanheira e Vasyl Kovpak mantêm-se alerta para “uma viagem segura durante a qual todos se possam sentir confortáveis e acolhidos”.
Os sorrisos entre gente que até há cinco horas não se conheciam “quebram o gelo” e “este é sem dúvida alguma um fim-de-dia de coração cheio” depois uma chegada a Varsóvia pela manhã desta sexta-feira igualmente emocionante. “Ver dezenas de voluntários a descarregar caixas e caixas de donativos embalados rapidamente por tipo e primeira necessidade foi impressionante”, diz Vasyl. Quando pelo 12h30 saiu do centro de apoio em Zielna 37 para recolher as três mulheres e três meninas ainda havia salas vazias “no regresso uma delas estava cheia até ao tecto”.
Tinham acabado de vir donativos da França aos quais se juntaram os dos primeiros portugueses da caravana a chegar, mas, pelas 16h00, quando as outras equipas da caravana começaram a chegar, a azáfama reacendeu-se. Em breve, depois de algum descanso, serão eles a estar na estrada com famílias ucranianas ao seu cuidado.
No meio desta azáfama anda Martin de 65 anos que chegou a Varsóvia com a filha mais velha na madrugada de quinta para sexta “depois de uma viagem inimaginável num comboio que normalmente teria capacidade para 1000 pessoas e viajaram 4000”. Nem por isso deixa de querer voltar a fazer esta viagem de coragem, “nos próximos dias há muitos familiares e amigos para ajudar e o transporte é difícil, muito difícil”.
Viagens de que do outro lado da Europa estes portugueses também já estão a pensar fazer de novo. Não os demovem as horas de estrada nem barreiras linguísticas ou vontades diferentes das pessoas com quem estes voluntários cruzam caminho. Já passaram por “momentos constrangedores em supermercados, num quartel de bombeiros e até num hostel”. Momentos que “comparados com aquilo que Martin e a filha viveram na viagem de comboio nada são”.
É para ajudar famílias como a de Martin que querem voltar a Varsóvia ou outro ponto o mais rápido possível. Com um dia de distância Ricardo Castanheira até já recorda com “algum humor” a manhã de ontem, quinta feira, quando de passagem por Versailles procuraram apoio local para tomar um banho e mudar de roupa, “afinal o orçamento dos donativos é limitado e é preciso guardar o máximo possível para imprevistos”.
De frente para o Palácio de Versailles perguntaram a alguns militares que se encontravam a fazer guarda nas imediações onde seria possível “encontrar um quartel de bombeiros para essa ajuda?”. Se um foi desinteressado e indicou a Ricardo e Vasyl os banhos públicos. Outro explicou onde ficava, ali perto, o quartel dos Bombeiros Sapadores de Versailles. Mas, depois de baterem à porta do quartel, antes do comandante Laurent Maurreaux surgir de “largo sorriso e com toda a ajuda disponível”, escutaram os “sorrisos de surpresa de alguns aprendizes”. Valeu-lhes a rápida acção de um bombeiro luso-descendente, profissional graduado e experiente que de imediato lhes respondeu em português e contactou o comandante. Banho tomado, café oferecido, fica agora um profundo agradecimento à corporação de bombeiros.
A eles e a todos os portugueses que vivem em França, Alemanha, Luxemburgo e Bélgica e que, depois de um apelo lançado pelo jornal Bomdia.eu enviaram mensagens de apoio aos voluntários e telefonaram as disponibilizar as duas casas para banhos e refeições quentes durante o caminho. E, quase sem se dar conta, formou-se um cordão solidário ao longo da Europa, “com contactos em vários pontos que podem ser accionados em momentos de emergência”.
Fica agora pela frente uma nova travessia da Europa durante a qual se cruzam com filas de camiões de ajuda humanitária e até alguns veículos militarizados. Na ideia levam a possibilidade de, numa próxima volta, chegar, talvez, mais perto da fronteira. Plano alterado devido ao recente ataque à Central Nuclear de Zaporizhzhia, com as forças militares russas a avançaram em território ucraniano “dispostas a tudo” como dizem muitos russos, ucranianos e polacos envolvidos na ajuda humanitária em Varsóvia, nas instalações de Zielna, número 37
Ana Martins Ventura
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