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Salgueiro Maia – do Herói ao Homem – II. Autor: João Dinis

Para completar o escrito sobre o Homem Salgueiro Maia que o Herói homónimo habitou, falta-me revisitar um aspecto também muito caraterístico nele.  Assim, a seguir ao protagonismo com que se cobriu de glória nas peripécias militares e revolucionárias no dia 25 de Abril, Maia esquivou-se sempre a outros protagonismos agora em funções de responsabilidade mais política e de nomeada.  E foi instado para isso por sectores militares e civis. Mas esquivou-se sempre, sendo que devido ao prestígio que granjeara é consensual admitir-se que, se o quisesse, poderia ter subido aos mais altos píncaros do poder e flutuado nas maiores honrarias.  Porém, não era essa a “sua praia”, decididamente.  Uma muito respeitável posição de princípio e de fim.

Entretanto, Maia fizera duas “comissões de serviço” no então chamado de “ultramar”, a primeira em Moçambique (Alferes) e a segunda na Guiné (Capitão), esta em 1971 – 73, da qual regressou em Outubro de 1973 para a EPC, Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Nestes dois períodos da sua vida “militar”, teve ele contactos directos com a guerra colonial onde, particularmente na Guiné, viveu episódios muito difíceis e perigosos para ele e para os seus comandados.

Maia dispunha mesmo de um vastíssimo conjunto de “diapositivos” (fotos especiais) que exibia com frequência – e que nós próprios também vimos em Santarém – em que  retratava inúmeros “improvisos” que engendrou em matéria de defesa, com elevado sucesso, dos seus aquartelamentos, lá “no mato” como se dizia.  Aliás, de forma algo dramática, ele e a sua companhia de cavalaria (esquadrão de cavalaria) foram obrigados pelo General Spínola a prolongar por mais alguns meses a respectiva “comissão de serviço” em zonas altamente “operacionais” na Guiné, uma imposição muito arbitrária de Spínola que Maia nunca lhe perdoou, o que, diga-se, foi muito justo da sua parte.

É nestes envolvimentos e noutros mais que Maia continua a adquirir, de forma progressiva, uma maior consciência política e social, ele um filho de ferroviário “itinerante” e cedo órfão de mãe.  Na Guiné, intervém a vários níveis com opinião própria e crítica da situação.  Dentro da EPC, em Santarém, ouvimo-lo a cantar (tinha um “vozeirão”…) em convívios abertos, canções daquilo que chamavam o “Cancioneiro do Niassa” (Maia estivera na guerra em Moçambique) que eram músicas “perigosas” na altura, daquelas  ditas “de intervenção”, com letras algo críticas e adaptadas à guerra colonial, no caso em Moçambique.  Maia também gostava muito de “arremedar” o então Presidente (fascista) da República, Américo Thomaz, em partes conhecidas (e ridicularizáveis…) de discursos oficiais ,e que eram “famosas” até pela risota de “gozo proibido” que provocavam…  Por causa disso, Maia e outros protagonistas chegaram a ser admoestados pelo Comando da EPC mas Maia nunca ”teve emenda”…  Pois, de facto, quando regressa à “sua” EPC, (Outubro de 1973) em Santarém, Maia já está aderente ao “Movimento dos Capitães” e prontinho para se envolver completamente nesse processo em curso, como veio a acontecer.

A seguir ao 25 de Abril, Maia esteve envolvido em algumas situações “apertadas” no meio de crises militares e civis, na iminência de conflitos armados.  Foi assim no 11 de Março e no 25 de Novembro de 1975 embora com sinais e consequências diferentes.

A 11 de Março evitou que a tropa da EPC, Escola Prática de Cavalaria, de Santarém, saísse em armas para a rua até Lisboa, a participar num golpe iniciado pelos Paraquedistas.  Mas, a meio da tarde desse 11 de Março, recebeu ordens, que cumpriu, para ir ao complexo militar de Tancos “safar” o General Spínola, das consequências da golpada militar e civil que este liderou e da qual saiu derrotado. A 25 de Novembro, a sua precaução esclarecida também evitou tiroteios em Lisboa ao obter, pacificamente e pelo diálogo, a “rendição” do alegadamente “revoltoso” quartel RALIS, em Sacavém, e ao recusar entrar logo de seguida por Lisboa adentro com a sua coluna militar em armas rumo “às confusões” violentas que tinham sido forçadas na Calçada da Ajuda, em Lisboa, em especial nas imediações do então “Regimento de Polícia Militar” que até já fora “Regimento de Lanceiros 2” por exemplo no 25 de Abril.

Claro que o homem Salgueiro Maia teve a sua vida mais privada digamos assim. Constituiu família. Amou e foi amado, com alguns “imprevistos” pelo meio também. Não vamos entrar aqui em pormenores que não deslustram esta sua faceta mas que nos merecem recato em respeito pela privacidade que os caracteriza.  Aliás, o recente filme “Salgueiro Maia – O implicado” avança em demasia neste capítulo e, a nosso ver, por isso mesmo é criticável até porque há protagonistas ainda vivos(as) que acabam por ficar expostos(as) em várias cenas desse filme. Enfim, nem sequer sabemos se, em especial familiares chegados, foram ou não previamente consultados(as) pela produção/realização do filme sobre essas passagens do enredo.

Salgueiro Maia foi vítima de revanchistas menores.

Mas não mancharam Salgueiro Maia.  Mancharam a História e o    Regime Democrático que Maia tanto ajudou a conquistar !

Alguns anos depois, Fernando José Salgueiro Maia enfrentou – sempre com coragem e, não raras vezes, com o seu espírito de humor aberto – o pior “inimigo” de toda a sua (curta) vida, a doença implacável que o veio a vitimar precocemente (1992) com 47 anos de idade. Neste seu período final de vida, ainda ele gravou uma entrevista histórica para uma televisão.  Entrevista muito interessante e esclarecedora do Herói e do Homem Salgueiro Maia em discurso directo !

A seguir a 1975, ainda houve tempo e revanchistas militares e civis que patrocinaram, cada um no respectivo campo de acção, a mais injusta desconsideração pelo Homem e pelo Herói Nacional.  Pois logo após o 25 de Novembro de 1975, os seus superiores hierárquicos militares “desterraram-no” para os Açores e, no regresso, “enclausuraram-no”, de facto, no “Presídio Militar” em Santarém.  Daí, mandaram-no para Santa Margarida (Ribatejo), sempre com o objectivo de o afastarem de responsabilidades operacionais no comando de tropas, matéria em que ele era mestre e com muitas provas dadas…

E com ele já morto, um Primeiro-Ministro houve que não teria sido Primeiro-Ministro não fora o 25 de Abril, que recusou atribuir uma “pensão” monetária aos (dois) filhos de Maia  enquanto atribuía um “pensão” semelhante a um ex- PIDE/DGS…

E assim consumaram “eles” (militares e civis, porventura ressabiados…) uma lamentável injustiça que emerge mesmo como uma vergonhosa nódoa na Democracia e no Regime Democrático instaurados pelo 25 de Abril de 1974 que ele tanto soube conquistar, ombro a ombro com o Povo Português !

Quero ainda assinalar que nas muito recentes comemorações dos “50 Anos do 25 de Abril”, em Santarém, eu quis que a minha filhota Maria (9 anitos) fosse, comigo, entregar à Viúva de Salgueiro Maia um muito simbólico “Cravo Vermelho”, o que aconteceu num momento em que eu lhe disse:- “sabes, Maria, as Mulheres também participaram no 25 de Abril, como esta Senhora – que é viúva de Salgueiro Maia – também participou, e muito ! ”…  Sim, o 25 de Abril é obra com futuro !  Vamos a isso !

Repete-se:- – “E se Abril ficar distante — desta Terra e deste Povo – a nossa força é bastante  —  Pra fazer um Abril novo !” – e assim continue a haver Homens-Heróis (e Mulheres-Heroínas)!

Viva os “50 Anos do 25 de Abril !”

25 de Abril, Sempre !

26 de Abril de 2024

 

 

Autor: João Dinis, Jano

(Veterano do 25 de Abril)

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