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São inaugurações, senhores, são inauguramentos… Autor: Carlos Martelo

No «reino oliveirense», no planalto beirão plantado,

uns compinchas conversam em ambiente de cumplicidades partidárias.

 – «Belo vai este tempo! Chove mas vai quente. Vamos aproveitar, vamos, que é tempo de preparar o nosso futuro como chefes disto aqui!” – diz um senhor de óculos e barba descuidada em estilo «démodé» para o seu posto.

– «Sim, vamo-nos a eles! Vamos aos inauguramentos em série.  Convoque-se o povo e os nossos, principalmente !  Haja festa rija, desde o pôr do sol côr de laranja até ao amanhecer côr de rosa» – logo adianta outro compincha, «chefe» partidário e adjunto do «reino» também.

– «OK que eu sou da cultura uma capataz.  Mostrámos-lhe há dias como afinal isto se faz.  Foi no inauguramento da Casa da Cultura ou ´Domus Culturae´ como nós, as e os latinos afinal cultos, devemos falar.  Requentado foi o inauguramento mas finalmente ´consummatum est´ (está consumado). E irei eu ajoelhar-me em prece pública,´publica oratio´, frente à outra placa ´toponímica´ descerrada que o foi lá dentro, à entrada do salão grande da nova ´Domus´. Uma placa mais linda e ajustada que aquela outra, cá fora da ´Domus` que sendo maior todavia não é melhor, nem mais íntima e tocante para mim. Avé, presidentes, nós os seguidores Vos saudamos !  E havemos, ´habemus´, mesmo nome para dar do ex-presidente e nosso ´sempre-chefe´, para outra placa a colocar, cá fora, em pública exibição, em outra obra recente, lá em baixo, no dito ´campus´ escolar» – assim falou, com ar de enlevada, uma senhora presente.

– «Sim, vou já preparar uma edição mais do que específica do boletim oficial de propaganda oficial do ´reino´. Vou nisso utilizar 200 fotos vossas para que o pessoal saiba bem de quem falamos, quem promovemos, para nos retribuir, para nos retribuir com votos, em breve» – diz por sua vez o conhecido propagandista privativo das faces e dos feitos do regime.

– «Atenção meninas e meninos, atenção ´minha equipe´ – entrou nos ditos o bi-presidente do «reino» e do regime. – «Atenção que no julgamento público que nos pretendam fazer, diremos sempre que a culpa que comandou e conta no atraso verificado nas obras do nosso ´reino´, essa culpa deve ser nomeada como sendo apenas minha e não do meu ´vice´ e seguidor que tenho neste ´reino´, ouviram bem ?!  Ou então pode acontecer que se percam dedos e aneis se formos corridos dos corredores deste poder que tanto amamos e de que tanto precisam, vários de vós. Sejam, por isso, cúmplices esclarecidos !» – concluiu.

– «Sim, sim esteja descansado, ó ´sempre-chefe´» – logo se ouviu afiançar um rapazão alto e careca em serviço de confiança política.

– «E breve faremos – assim continuou o actual ´chefe´ – a universidade local cheia de estudantes do mundo inteiro a dormir na ´residência do regime´ com um décimo deles lá dentro e nove décimos deles a olhar para lá desde cá de fora pois não haverá lugar para mais».

– «Poderíamos fazer uns jogos com todos eles a ´sprintar´ para se ver quem lá chega dentro primeiro a obter direito a pernoita, de cada vez. Podem assim treinar para os 100 metros em atletismo universitário» – aventou um senhor ainda novo e ligado ao desporto do «reino».

– «Caríssimos participantes neste conclave. Queiram passar à sala aqui ao lado, cuja porta acabo de abrir, para o beberete cúmplice que lá está preparado. Entrai, para prazer e glória de todos nós e honra para os produtos que adquirimos para aqui serem por nós degustados. Informo que foi previamente confirmada a respetiva cobertura orçamental nas contas do ´reino´» – propôs, alto, magro e pálido, o dito «mordomo» pago pelo regime mas à nossa conta.

E o primeiro a avançar, e com pressa, foi o «chefe» atual do «reino».       E não o fez por protocolo mas por já estar a salivar só por antever as garrafas dos vinhos a emborcar…

– «Calma, companheiro. Exijo que se portem todos bem ! » – fez-se ouvir destarte o bi-presidente do «reino». E continuou ele:- «Ou se portam bem ou eu (5) terei outra vez que dar o dito por não dito e emergir da sombra voluntária para assumir de novo a presidência deste ´reino´! Tá bem ?».

– «In vino veritas» (a verdade está no vinho) – dizemos agora nós, os afinal contribuintes e pagantes». E continuamos meio zangados:- «Omnes sumus eruditionies ! Sed non ibi. Patientes estote» – e não se traduz este dito mas com ele se pretende manter alto nível linguístico e cultural, inspirados que «sumus» todos, na senhora dos diálogos supra…

 

Autor: Carlos Martelo

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