Dar vida a uma freguesia é, por vezes, o maior desafio. Não basta fazer obra. É preciso devolver-lhe alma, orgulho e uma presença que se sinta no dia-a-dia. É preciso ajudar uma comunidade a reencontrar-se, afirmar-se e projectar-se para o futuro.
Foi com esse espírito que procurámos servir Alvoco das Várzeas ao longo destes quatro anos. Mais do que prometer, quisemos estar. Mais do que gerir, quisemos cuidar. Mais do que fazer, quisemos ligar.
No artigo anterior, partilhei a visão que me move: afirmar a freguesia como um território com Cultura, Associativismo, Saúde, Literacia, Serviços, Eventos e Marcas. Mas uma visão só vale se se traduz em acções concretas e foi isso que procurámos construir, passo a passo, em conjunto com a nossa comunidade.
Trouxemos de novo a cultura para o centro da freguesia. O ciclo INteriorizar deu espaço à reflexão, à memória e ao debate. Organizámos exposições que valorizaram a nossa história e as nossas gentes. Promovemos conferências e encontros que mostraram que vivenciar a a cultura também é construir comunidade.
Procurámos reforçar os laços colectivos. O Arraial Social tornou-se um verdadeiro momento de reencontro e de afirmação da nossa identidade, de música, cultura e solidariedade. O Dia da Freguesia foi um espaço de celebração, reconhecimento e de união. O programa Visite Alvoco das Várzeas ajudou a começar e a afirmar uma marca da freguesia que pretende ir além da serra, mostrando que temos muito para dar e para partilhar: o nosso nome, o nosso património, as nossas tradições.
Nada disto teria sido possível sem a força viva do nosso associativismo. Estivemos sempre ao lado das associações e colectividades, com respeito, presença e colaboração. É através desta rede que se tece grande parte da alma da freguesia e é nela que temos de continuar a investir.
Também na área da saúde procurámos estar atentos. Promovemos acções de sensibilização e prevenção, trabalhámos para apoiar as populações mais vulneráveis e defendemos a importância de respostas de proximidade. Uma freguesia só é verdadeiramente viva se for uma freguesia onde todos se sentem cuidados.
A literacia, nas suas várias dimensões, foi outro eixo de compromisso. Trouxemos, como disse lá atrás, debates e formações, promovemos a circulação de conhecimento e o pensamento crítico. E sabemos que este é um trabalho que tem de continuar, porque uma comunidade informada é uma comunidade mais livre e mais forte.
No plano dos serviços essenciais, cuidámos do espaço público, garantimos a continuidade dos serviços administrativos e sociais, defendemos sempre um serviço público próximo e digno. Uma freguesia precisa de respostas básicas com qualidade, que respeitem a dignidade de quem cá vive. Preparámos também um passo importante para o futuro: o projecto e o financiamento da requalificação da sede da Junta, que queremos ver como um verdadeiro espaço de cidadania e de comunidade. Um ponto de encontro, de apoio, de serviço e de afirmação local.
Levámos a freguesia a ser falada, a ser visitada, a ser respeitada. E fizemo-lo com orgulho, porque uma terra que se afirma com confiança ganha força. Cá dentro e lá fora.
Tudo isto foi feito com muito trabalho voluntário, com entrega pessoal e colectiva, e com profundo respeito pelo verdadeiro sentido do serviço público. Não com grandes orçamentos, mas com a convicção de que, quando se serve com vontade, é ( mesmo) possível fazer muito.
Alvoco das Várzeas é a freguesia com a mais baixa densidade populacional do concelho. É um território onde o inverno demográfico nos invade desde o final do século passado. E é também aquela que fica mais distante da sede de concelho. Sabemos isso. Sentimos (todos os dias) isso. Contudo, sabemos também que há muito ainda por potenciar e que o segredo está na união, na capacitação e nas sinergias de todos nós.
Apesar de tudo o que foi feito, e do trilho que juntos singrámos, tenho a certeza de que há muito mais que pode — e deve — ser feito. Para isso, é preciso levantar os olhos do chão e pensar mais longe.
Mais do que pensarmos a freguesia em ciclos de quatro anos, como ditam os calendários eleitorais, é tempo de projectarmos um horizonte a vinte anos. Sem ilusões, mas com visão. E com risco. Muito risco.
Porque se não ousarmos construir esse futuro a longo prazo, estaremos sempre castrados ao nosso tempo de existência.
Porque o futuro de Alvoco não se escreve sozinho. Escreve-se com todos. E para durar.
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