Passou um mês desde o maior incêndio de que há memória no País. Em Alvoco das Várzeas, as encostas foram devoradas pelas chamas. O que começou de madrugada, com o fogo a descer da serra, transformou-se em poucas horas num cenário de medo, destruição e resistência. Localidades evacuadas, famílias em sobressalto, terrenos agrícolas e florestais reduzidos a cinzas. Aldeias que passaram do verde ao preto em instantes.
Hoje, a comoção já saiu dos noticiários. Mas cá, no terreno, o cheiro a queimado ainda está na memória e as marcas negras na paisagem lembram-nos, todos os dias, o que vivemos. A boa notícia é dura: para o próximo Verão, dificilmente voltará a arder por aqui. A má notícia é pior: se nada mudar, será apenas noutra encosta, noutra aldeia, noutro vale.
Depois do levantamento dos estragos e dos processos em curso, sobra a sensação de sempre: visitas oficiais, fotografias em cenários de cinza, publicações sobre o fogo, promessas de “não esquecer”. Tudo numa clara alusão à tentativa de ludibriar as emoções das pessoas. Mas no dia seguinte, tudo continua igual. E aqui afirmo: o território não precisa de álbuns fotográficos da tragédia, precisa de decisão, de muita decisão.
Segundo a Fundação Francisco Manuel dos Santos, a tendência é clara: os fogos tornaram-se maiores e mais destrutivos. Até 1986 nunca tínhamos tido incêndios acima de 10 mil hectares; em 2003 já passávamos os 20 mil; em 2017 ultrapassámos os 40 mil, o maior de sempre. Entre 1961 e 2019, 257 pessoas morreram em fogos, quase metade só em 2017. Pior: entre 2000 e 2017, os incêndios custaram a Portugal em média 1% do PIB por ano. Cada euro investido em prevenção poupa entre 4 e 7 em combate. E, ainda assim, insistimos em gastar mais a apagar do que a prevenir.
Portugal tem hoje mais meios do que em 2017, mas a nossa prevenção continua frágil. Prevenir não é comprar aviões: é ter a floresta tratada e diversificada, mosaicos agrícolas activos, aceiros transitáveis, hidrantes a funcionar. É ter comunidades preparadas, e não apenas corajosas. É ter um cadastro florestal resolvido e não milhões de prédios rústicos abandonados ou em heranças indivisas.
E aqui está o “elefante na sala”: sem economia não há gestão. Sem gestão não há prevenção. Sem prevenção não há futuro. Enquanto cortar o mato não der rendimento, enquanto plantar carvalhos for menos competitivo do que plantar eucaliptos, enquanto não houver cadeias produtivas ligadas à biomassa, à resina, à madeira ou aos frutos secos, a floresta será sempre um depósito de combustível. Uma floresta sem valor económico é uma floresta condenada ao abandono.
Não obstante, por cá, em Alvôco, não podemos esperar que Lisboa resolva sozinha. O futuro começa aqui, na nossa freguesia, com medidas claras:
Criar uma unidade de protecção civil local, com voluntários formados, meios próprios e capacidade de resposta imediata;
Garantir aceiros e estradões transitáveis, para que os bombeiros cheguem a tempo;
Instalar pontos de água devidamente identificados e dotar a Junta de uma bomba para abastecer autotanques directamente do rio;
Tornar efectivo o programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras”, com formação, simulações e planos de evacuação claros;
Promover a literacia de risco, para que ninguém seja apanhado desprevenido quando o fogo ameaça.
Não se trata apenas de técnica ou de poetização. Trata-se de devolver confiança às populações e garantir que a coragem das comunidades não continue a substituir a ausência do Estado.
Afinal de contas, em cada tragédia, o País promete mudar. De Verão em Verão ouvimos o poder central a dizer “nunca mais”. Porém, mais uma vez, quando passa o alvoroço e as televisões mudam de tema, regressa à normalidade do esquecimento.
A memória política tem prazo de validade. E se nada mudar, não será apenas a serra a pagar o preço: será também quem governa. Porque os cidadãos já perceberam que a negligência tem rostos e, mais cedo ou mais tarde, essa factura será apresentada nas urnas.
É tempo de um verdadeiro pacto nacional: que una Governo, oposição, autarcas, especialistas e proprietários. Os incêndios não podem ser tratados como tema sazonal. Ou o País se une neste dossiê, ou continuaremos a viver entre lágrimas em Agosto, silêncio em Setembro e esquecimento em Outubro.
Um mês depois, já não há espaço para promessas vagas ou fotografias de ocasião. É tempo de decisões concretas.
Porque, se nada fizermos, a história será sempre a mesma: aldeias em cinza, negócios destruídos, pessoas desanimadas.
Mas há outro caminho. O caminho de comunidades protegidas, florestas tratadas e um interior com futuro.
Alvoco das Várzeas já mostrou que não desiste. Agora, quem governa tem de mostrar que também não.
A pergunta permanece: até quando teremos de arder para sermos lembrados?
A resposta depende da coragem que tivermos e das escolhas que fizermos já.
Autor: João Miguel Pais
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