O atleta de Seia Rui Coelho, de Seia, conquistou já este ano dois dos principais títulos nacionais em marcha atlética
O atleta de Seia Rui Coelho, 27 anos, que representa o Benfica, está a realizar um início de ano verdadeiramente alucinante: a 16 de Janeiro sagrou-se campeão nacional nos 35 quilómetros marcha e a 16 de Fevereiro arrecadou o mesmo título nos 20 quilómetros. O atleta é um exemplo de superação. Continua a treinar em Seia e a trabalhar como agente da GNR, mas isso não impede de vencer os principais títulos da modalidade Rui Coelho aposta agora em provas internacionais e sonha com uma presença nos Jogos Olímpicos. “Estar presente uma única vez já me iria fazer sentir realizado nesta minha carreira desportiva”, conta em entrevista ao CBS, na qual elogia as condições que a cidade de Seia proporciona aos atletas, um modelo que deveria ser seguido por outras localidades do interior. “Infelizmente nem todos os atletas pertencem a este concelho e, sinceramente, se as associações distritais não fizerem algo para mudar este panorama, será uma questão de tempo para que o atletismo ‘morra’ no interior”, conta.
CBS – Qual o significado para si destes dois títulos de campeão nacional?
Para começar, iniciei a época com o objectivo de chegar a outro patamar. Não me chega ser apenas dos melhores a nível nacional se isso não me levar a ser atleta olímpico. Como tal quero treinar para chegar aos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Se isso me levar a ser campeão nacional melhor. Mas em ano de estreia pelas cores do Benfica chegar a dois títulos individuais (em dois possíveis), feito que ainda não tinha conseguido na minha carreira, só mostra o compromisso que, eu e o meu treinador, assumimos com este clube. Era uma tarefa difícil. Mas saí vitorioso do campeonato nacional de 35 quilómetros em 16 de Janeiro, e três semanas depois, volto a repetir a vitória. Mais difícil se tornou porque o 2.º e 3.º classificado no Campeonato de 20 quilómetros não estiveram presentes na competição de 35 quilómetros.
Rui Coelho – O facto de João Vieira (Sporting) não ter participado dá a ideia que praticamente não teve concorrência…
O João Vieira é um dos atletas mais profissionais que tive o prazer de conhecer até hoje, no entanto, quando se está numa competição, todos podem ganhar. Se eu estiver preocupado com a condição do João, vou esquecer-me de que tenho outros atletas a competir contra mim, e isso não pode acontecer. Para além disso, pelos resultados alcançados este ano pelos outros atletas, se eu tivesse mantido o nível do ano passado não teria alcançado nenhum título. Portanto, estando ou não o João presente, quero-me focar no compromisso de treino que tem levado a estes ótimos resultados.
Já tem o estatuto de atleta de alta competição ou continua a partilhar a prática da modalidade com a de agente da Guarda Nacional Republicana?
Actualmente, enquadro-me no projecto de alto rendimento da Federação Portuguesa de Atletismo e no Projecto Olímpico do Benfica. No entanto, ainda não consegui alcançar o desejado estatuto de alta competição, como tal, continuo a prestar serviço de patrulheiro, fazendo turnos e noites como a maioria dos militares da GNR deste País. Continuo a gerir da melhor forma o descanso com treino e trabalho, tendo sempre o apoio incansável dos que me são mais próximos.
“Estar presente uma única vez [nos jogos Olímpicos] já me iria fazer sentir realizado nesta minha carreira desportiva”.
A saída para o Benfica alterou muito as condições de treinos e de preparação para as provas? Em que aspectos?
Não houve qualquer mudança por eu ter sido transferido para o Benfica. Contínuo a treinar em Seia, o treinador também é o mesmo, bem como os ajudantes de treino. Creio que a maior diferença foi mesmo aproveitar melhor o que a nossa região tem para nos dar, nomeadamente a altitude. Outro fator para esta evolução foram os anos de treino que, na marcha, já vai para 11 anos. O Benfica apareceu numa fase crucial, pois antes de eu ter recebido a oferta, decidi viver os próximos três anos (ciclo olímpico) para o atletismo e a minha saída para o Benfica irá com certeza ajudar-me a alcançar os meus objectivos.
Quais são os seus grandes objectivos para os próximos tempos?
Para breve espero alcançar o estatuto de alta competição. Só assim posso melhorar a minha condição de trabalhador – atleta e, havendo melhoria nesse aspecto, creio que terei todas as condições para alcançar outros voos. Terei oportunidade de os alcançar ainda este ano no Campeonato do Mundo de atletismo e no Campeonato da Europa de atletismo. Portanto, após o Campeonato do Mundo de Nações de Marcha Atlética, que se vai realizar a 4 e 5 de Março em Omã, é para lá que irei preparar o resto da época.
Os Jogos Olímpicos continuam a ser um sonho?
São um marco na carreira de qualquer atleta. É a maior competição desportiva do mundo e estar presente uma única vez já me iria fazer sentir realizado nesta minha carreira desportiva.
“As entidades aqui localizadas [Seia] têm-se esforçado para manter o atletismo vivo. Há apoios, há interesse e as equipas mostram resultados”.
Estes títulos e a atenção que começa a receber acha que podem ser importantes para o desenvolvimento da modalidade no interior do país, como Seia?
A modalidade está a ter um decréscimo nos praticantes, não refiro apenas a marcha atlética, mas também todas as outras disciplinas do atletismo. Espero ser uma referência não só para a modalidade,
mas também para tudo o resto. Nem todos seremos atletas, médicos, etc.., mas se em cada coisa que fizermos nos comprometermos a 100 por cento, acredito que seremos sempre bem-sucedidos e, disso sim, posso assumir-me como exemplo.
O que recomenda aos jovens que estão para escolher uma modalidade de atletismo e que se encontram no interior do país como foi o seu caso, onde é mais complicado conseguir apoios?
Tenho mais a dizer aos pais. Os jovens, independentemente da atividade que pratiquem, irão querer uns pais que os apoiem em todos os momentos. No caso do atletismo em Seia não há qualquer entrave, pelo contrário, não pagam mensalidades, não têm despesas com deslocações ou alojamentos e temos um estádio onde é possível treinar sem haver qualquer despesa. Trabalhei no Montijo, tinha de fazer 40 km diários de carro para ir a uma Pista de Atletismo e ainda tinha de pagar para a usar. Portanto, a nível de atletismo está a ser feito um óptimo trabalho nesta cidade.
Seia é uma referência nas condições da prática de certas modalidades do atletismo?
As entidades aqui localizadas têm-se esforçado para manter o atletismo vivo. Há apoios, há interesse e as equipas mostram resultados. A prova disso é que, no presente ano, o concelho conseguiu colocar uma equipa na primeira divisão nacional (Centro de Atletismo de Seia em Masculino) e uma equipa na segunda divisão nacional (ACR Senhora do Desterro em Masculino). Infelizmente nem todos os atletas pertencem a este concelho e, sinceramente, se as associações distritais não fizerem algo para mudar este panorama, será uma questão de tempo para que o atletismo “morra” no interior.
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