Quaisquer semelhanças entre personagens invocados e personagens carnais não é pura coincidência.
Esta peça burlesca é de um acto só. É o «monólogo do deputado» (Alex) que faz o seu primeiro discurso na Assembleia da República para onde foi eleito. É suposto ir falar para o hemiciclo, mas, de facto, vai falar mais para si próprio.
Dirige-se à Tribuna em passos medidos e posiciona-se frente ao micro do som cuja posição corrige. É grossa honraria subir àquela Tribuna. «Alex» fez toda a questão nisso.
Entre os dedos inquietos segura já uns papeis onde tem o discurso alinhado. Ajeita o cabelo ralo. Apruma o peito e o fato que veste e de onde espreita, e se agita nervosa, uma gravata bege.
Ainda não abriu a boca para soltar a verve e já se antevê como o «maior» que naquele palco alguma vez «orou» que para ali, acha, até aprimorou a oratória. Falar ali, naquela «kémbra» (como pronuncia «câmara») no Palácio de S. Bento, na Assembleia da República, constitui o «clímax» da sua vida política de matriz mais do que populista. Sabe que falar ali não é a mesma coisa que falar durante jantaradas e outras farras mais ou mesmo políticas por onde andou e anda, amiúde. Ali «o campeonato» é outro, como sói dizer-se… Mas assume uma postura que pretende transparecer à vontade embora esteja no meio de um certo «tremedairo». Mas lá se consegue controlar…
Em pleno acto, imagina-se mesmo como se estivesse a actuar (a discursar) …no Vaticano, como faz o Papa… na Assembleia Geral das Nações Unidas, como Guterres…frente às Pirâmides no Egipto, como Napoleão…ou mesmo noutro planeta, quiçá noutra galáxia, como Darth Vader, o «vilão» da saga «Guerra das Estrelas».
A emoção chega a turvar-lhe a vista e a entaramelar-lhe a língua. Enfim, sempre é uma primeira vez…e, lá no fundo, ele não deixa de ser um sentimentalão. Mas lá arranca em estilo pretensamente neo-realista. Solta a voz e levanta os olhos a ver se mira caras de deputadas conhecidas – «onde estão elas ??» – parece interrogar-se. Em breve voltará a mirar de soslaio a ver se perscruta alguma reacção certamente favorável à sua performance em «modo oral».
Para que este texto não seja mais o «monólogo do narrador» – deste vosso criado – vamos então ouvir o novel deputado a arengar através do registo gravado na ocasião e que obtivemos. De notar que há expressões que não nos soaram bem, de pouco correctas, mas que transcrevemos embora entre aspas e em itálico a assinalar as «dissonâncias» detectadas. Vamos então:
O «monólogo do deputado» que se imagina já presidente adiado daquela «kémbra»…
– «Senhoras e Senhores:
Deixem-me dizer que eu venho desde a «kémbra» municipal, onde fui e continuo sendo presidente, para vir actuar nesta lustrosa «kémbra» na capital, da qual só não sou presidente porque ainda me não conhecem bem por cá. Não sabem da minha capacidade «inata» para presidir, para juntar a minha equipe, antes com vereadores e agora com deputados se preciso for. E deixem que também diga que tenho aqui boas amigas e bons amigos que «podeis» testemunhar de meus feitos regionais desde quando andei nos futebóis, nas escolas, nos incêndios e na pandemia.
Mas «tremem» lisboetas imigrados que eu estou determinado pra falar, para «interver» sem cansar até conseguir o que me «indicarem» os meus «concidadões» enquanto seus porta-voz nesta «kémbra». Deixem-me dizer que me sinto aqui como um «primo entre pares» (deveria ser «primus inter pares» – em latim).
E de São Bento ao Terreiro do Paço, passando ali por perto da Estrela (Conselho de Ministros), vão abrir-se para mim, a minha solicitação, todas as portas do poder que normalmente até se «encontrem» fechadas. E até vou dar um salto a Belém sempre que me apeteça a «comprimentar» o meu amigo Presidente Marcelo. E tirar umas «selfis» com ele, e beijocar umas visitantes de todas as idades ao palácio da Presidência da República.
E deputados e deputadas e ministros e ministras (prefiro ministras) vão respeitar-me que eu não brinco. Eu sou uma espécie de «guerrilheiro», agora urbanizado, capaz de atirar gramáticas de português à cabeça de quem me escutar sem a devida reverência.
Aquela «kémbra» antes e depois de «Alex».
Tremei, tremei e sem ser de frio que a história desta «kémbra» na Assembleia da República vai passar a ser delimitada por «até Alex» e por «depois de Alex» como aliás já «foram delimitadas» a história da «kémbra» e da Assembleia Municipal de onde provenho na política. Sim, aqui e agora digo de novo como disse César, o Júlio, dos antigos romanos: – «alea jata est» quero dizer, «lancei os dados»! Avé que «nobis Alex sumo(s)!» (nós somos o Alex!).
Bem falo assim, mas eu sou um homem do povo. Prezo as minhas origens modestas em casa de meus pais em que não havia luz eléctrica quando lá nasci. Brinquei com os garotos mais humildes da minha terra e reparti com eles o pão que não era muito nessa altura. Por isso, acho estar fadado por algum destino predestinado a ser um grande deputado da Nação depois de ter sido presidente de «kémbra».
Lanço aqui, já, uma petição ponderosa que arranquei do «amângo» da minha região abençoada por Deus por me ver lá nascer. Quero que seja construído um teleférico de linha dupla desde o alto do Monte Colcurinho, a passar por Oliveira do Hospital e a finalizar no nó do IC 6 em Gavinhos e mesmo sem ser indispensável que já tenha sido continuado este IC 6, o amor até aqui «frustado» da minha vida! Ouvi e «aproveis», pois, e alevantai vossas mãos em sonoro aplauso!
Tenho dito».
Fim
Após uma tal tirada, ressoa no hemiciclo a voz do presidente da Assembleia da República a dar continuidade aos trabalhos perante um Plenário distraído. Na gravação que obtivemos, mal «Alex» falara, ouve-se alguém questionar por meio de uma risada:
– «Mas quem é este afinal? Já só cá nos faltava uma encomenda assim! Alguém do Grupo Parlamentar dele que lhe escreva os discursos. Piedade!».
Autor: Carlos Martelo
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