Home - Opinião - E há mesmo indústrias do fogo cujo “combustível” é dinheiro público… Autor: Carlos Martelo
Carlos Martelo

E há mesmo indústrias do fogo cujo “combustível” é dinheiro público… Autor: Carlos Martelo

Entretanto, as Populações exasperam e quem tem por missão combater as chamas anda exausto e muitas vezes em perigo.  Até parece uma fatalidade trágica.

A grande comunicação social, com as televisões à cabeça, mostra e remostra, a toda a hora, as chamas a queimarem, durante dias e noites seguidos. E sempre vem à liça o combate ao fogo e em especial os meios aéreos utilizados (ou não…). Não ponhamos em dúvida que são necessários e indispensáveis os vários meios de combate ao fogo mas também já nos basta de acesa controvérsia em torno deles e das respetivas coordenações no terreno ou da falta destas.  Sim, já basta !

Os meios aéreos de combate a fogos não apagam as escandaleiras!

 Este ano, voltaram a acumular-se sucessivas escandaleiras em torno dos meios aéreos de combate aos incêndios. De tudo acontece, dos aviões avariados a pagar caros alugueres; aos helicópteros desadequados; aos «kits» (conjuntos) de peças comprados há anos mas ainda não instalados, em aviões C – 130 de Força Aérea para os adaptar ao combate aos fogos; aos 177 milhões de euros contratados a apenas três empresas de meios aéreos, isto em quase 300 milhões de euros contratados no total e pela Força Aérea para o efeito, claro que a pagar dos Orçamentos do Estado. Saliente-se que duas das empresas com maiores contratos estão sob forte suspeita de vigarices praticadas em várias negociatas do tipo, o que não leva o Estado Português a pôr, como se impõe, tais empresas de lado pelo menos enquanto decorram investigações ou os casos suspeitos transitem em julgado nos Tribunais (inclusive em Espanha).

E nem sequer vamos entrar noutros casos com enormes e crescentes gastos de dinheiros públicos e que suscitam legítimas interrogações…

Enfim, objetivamente, não aconteceria nada disto caso não aparecessem com a maior regularidade e «espetacularidade» os violentos e muito extensos fogos florestais também designados por fogos rurais. E não havendo fogos frequentes e alarmantes, não surgiria como necessário, logo admissível, gastar centenas de milhões de euros públicos em meios de combate aéreos ou não. Cai-se, assim, num sistema montado de causa-efeito.

Como já se disse, a grande comunicação social encarrega-se de lhes dar toda a divulgação possível, até à náusea.  Isto transforma-se, aliás, num «caldo de cultura» mental e social muito propício a surgirem ainda mais incêndios pois, é sabido, existem muitos pirómanos que reagem com mais fogo ao «espetáculo» proporcionado pelo fogo…

No contexto hiper-dramatizado, embora com acontecimentos que podem mesmo ser trágicos, os poderes públicos instituídos, a começar pelos Governos, ficam prisioneiros das situações que se acumulam e sentem-se à mercê de todas as conjeturas. Logo, no calor das chamas, pressionados, são instados a entrar em despesas crescentes, sobretudo nos meios de combate ao fogo, para darem a ideia de que estão atentos e atuantes face ao flagelo. Porém, assim, agem  mediante estímulos iminentemente políticos (e partidários)  para tentar não perder o pé e mostrarem ações.ao «público», aos eleitores, que andam emocionados e preocupados com tanto e tão extenso incêndio.  E assim se perpetuam dos mais viçosos ramos da tal (e muito lucrativa…) «indústria do fogo» e também não estamos a dizer que esta assente «apenas» em atos de natureza suspeita ou já confirmada como criminosa…

Prevenção de Incêndios é o mais eficaz «meio de combate» !

 Diz a experiência e repete a sabedoria mais elaborada que a Prevenção de Incêndios é a melhor forma de os prevenir e, em consequência, de os «combater» logo antes da sua nascença… E já os mais antigos diziam, sempre fruto da experiência, que os incêndios devem ser atacados quando ainda se podem apagar com os pés…quer dizer bastante tempo antes de chegarem os aviões, por exemplo…

E de nada adianta entrar em exibições de pura ostentação cénica como  fez, perante a televisão e ainda recentemente, o presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital durante o fogo que lavrava no Vale do Alva. Sim, nada de tontarias exibicionistas, ainda por cima nestas ocasiões em que a calma é a melhor conselheira…

É sabido que a ruína da Agricultura e do Mundo Rural, sempre acompanhada e mesmo provocada pelo desinvestimento público, a mando dos vários governos, no sector e na Floresta em especial, isso afastou as Pessoas das suas aldeias e vilas e muito contribuiu para que a Floresta – a madeira a baixo preço – perdesse interesse económico para os proprietários e produtores florestais.

O desinteresse económico pela Floresta e pela Agricultura e o êxodo rural são fatores determinantes para o que está a acontecer e estão na génese mais profunda dos incêndios extensos e violentos. Portanto, a par com medidas sistemáticas de Prevenção no terreno que temos – medidas mais do que propagandeadas mas sempre adiadas – é necessário acudir à Agricultura de tipo familiar sobretudo e, por aí, também ao nosso Mundo Rural.

É vital que isso comece a acontecer, a sério !

Carlos Martelo

 

 

 

Autor: Carlos Martelo

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