Rio corre branco e com cheiro nauseabundo. Junta de Freguesia de Meruge denuncia novo episódio de poluição, acusa o Estado de inacção e alerta para “mais de 20 anos” de crimes ambientais impunes.
O Rio Cobral voltou esta quinta-feira, 15 de Maio, a ser atingido por uma descarga de efluentes lácteos, proveniente de queijarias localizadas na margem do curso de água, entre a Catraia de S. Romão e Carragasola, no concelho de Seia. A denúncia foi feita pela Junta de Freguesia de Meruge, concelho de Oliveira do Hospital, que fala numa “situação continuada de mais de 20 anos” e classifica o episódio como “um nefasto atentado ambiental e contra a saúde da população”.
O executivo da Junta afirma que, desde esta manhã, o rio corre “completamente poluído e branco de espuma”, sendo visível nas margens o efeito dos resíduos. No local, “o ar está empestado pelo cheiro nauseabundo do soro e dos restos de leite podres”. As imagens divulgadas pela Junta confirmam a alteração do aspecto da água e o impacto no ecossistema local.
Em comunicado enviado à imprensa, a Junta de Meruge questiona “onde estão as autoridades fiscalizadoras” e porque permanece o Ministério do Ambiente “mudo e quedo” perante as sucessivas denúncias e participações feitas à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e à Inspecção do Ambiente.
Segundo a mesma fonte, nas últimas duas semanas as descargas ocorreram sempre associadas a episódios de pluviosidade intensa. “Fizemos, em cada ocasião, a participação às autoridades competentes. Em vão. As descargas são cada vez mais intensas e violentas, o que demonstra a certeza dos criminosos de que não serão detectados, nem punidos”, refere o executivo da Junta.
A acusação recai directamente sobre os responsáveis pelas queijarias da zona, que, segundo a Junta, “abrem arrogante e ilegalmente as comportas dos seus tanques de retenção dos sobrantes lácteos, para o Rio Cobral”. A Junta denuncia ainda a alegada prática de rotulagem enganosa, apontando que o queijo vendido como sendo de Seia seria produzido com leite importado de Espanha e de Israel.
A Junta de Meruge garante que tem apresentado soluções, nomeadamente através da proposta de criação de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) colectiva, financiada por fundos comunitários e dotada dos “mais modernos métodos de tratamento de efluentes lácteos”. A proposta não terá obtido resposta por parte da câmara municipal e do Ministério do Ambiente, que são agora responsabilizados pela “inércia e ineficácia fiscalizadora”.
No final do comunicado, o executivo da Junta, composto por João Alberto Abreu, Sofia Viegas e Sandra Gouveia, deixa um aviso: “A história ensinou-nos que, quando o Estado se mostra ineficaz e desinteressado em promover a justiça, tem de ser o povo a fazê-la por suas próprias mãos. Esperamos, sinceramente, não ter de agir dessa forma”.
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