Home - Opinião - O Interior esquecido e a Presidência que se espera…Autor: Fernando Tavares Pereira

O Interior esquecido e a Presidência que se espera…Autor: Fernando Tavares Pereira

No país real, para lá do litoral e das grandes cidades, o interior continua esquecido. Não se trata de protocolo ou de ocupação de palácios, mas de presença. O futuro Presidente da República, que vamos eleger no dia 18 de Janeiro, não pode restringir-se aos despachos do poder; deve conhecer o país inteiro e ouvir os que vivem nas aldeias, vilas e ilhas, cujas vozes muitas vezes se perdem no ruído do litoral e na indiferença das estruturas centrais.

Tivemos recentemente a honra de receber em Midões dois candidatos à presidência da República. António José Seguro participou na celebração dos cinquenta anos do Grupo TAVFER – foi o único candidato a aceitar o convite, o que nos sensibiliza – e, durante várias horas, mostrou disponibilidade e atenção, ouvindo as dificuldades que se vivem no interior. Mais recentemente, o Almirante Gouveia e Melo visitou também a localidade, igualmente interessado em conhecer e compreender os problemas da região. Ambos se mostraram dispostos a defender as causas do interior, tratando todos os portugueses de forma igual, como deve ser.

Considero fundamental que os candidatos visitem o interior. Que vejam de perto as dificuldades que enfrentamos, desde a saúde à justiça e à educação, e que reconheçam as necessidades urgentes de regiões onde tantos serviços foram encerrados. O interior exige atenção, não por caridade, mas pelo bem de todo o país.

O actual Presidente da República começou bem, mas está a terminar mal. Esqueceu-se do interior, transferindo para as câmaras municipais a responsabilidade pelas acções ligadas aos incêndios de Outubro de 2017, sem garantir que as suas orientações fossem cumpridas. A distância a que se colocou revelou os limites da sua magistratura de influência. Um Presidente não pode assistir de fora, como mero espectador, ao incumprimento do Estado. Cabe-lhe assegurar que o país, em toda a sua extensão, seja tratado com justiça e atenção iguais. Isso não aconteceu. E sendo o mais alto magistrado da Nação, a passividade não lhe serve — nem o desculpa.

Um exemplo permanece particularmente ilustrativo. Durante o Governo de António Costa, realizou-se uma votação na Assembleia da República que visava reabrir as candidaturas aos incentivos destinados a colmatar os prejuízos provocados pelos incêndios de 2017, tendo merecido aprovação unânime, com os votos favoráveis de todos os deputados, incluindo os do PS. O Governo de António Costa não cumpriu o seu dever nem a sua obrigação, e Marcelo Rebelo de Sousa não questionou as razões dessa falha. Esta omissão reforça a sensação de abandono que o interior continua a sentir face ao poder central.

O que se espera da próxima presidência é algo mais do que a mera representação formal. Espera-se presença ativa, atenção, coragem cívica e a capacidade de exercer influência junto do governo para que todos os portugueses, independentemente da sua localização, tenham direitos e oportunidades equivalentes. É disso que o interior precisa. É disso que toda a nação se beneficiará.

 

 

Autor: Fernando Tavares Pereira

 

LEIA TAMBÉM

Também nas tempestades – “Mais vale prevenir que remediar!” … Autor: João Dinis, Jano  

A experiência e a sabedoria populares ensinam este postulado que é válido tanto para fogos …

“Crónicas de Lisboa”: Quando a Natureza Se Zanga. Autor: Serafim Marques

“….o vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde …