Pensar uma freguesia exige mais do que manter rotinas. Exige mais do que cumprir mandatos ou repetir fórmulas. Pensar uma freguesia é saber sonhar com ela e comprometer-se com esse sonho. É isso que está em causa em Alvoco das Várzeas. Não a gestão do presente, mas a construção de um futuro com sentido.
Nos dois artigos anteriores falei da presença, da entrega, do que foi feito, do que se sonhou e do que se cuidou, mas agora é tempo de dar um passo maior. De pôr em cima da mesa o que ainda falta dizer. E falta dizer isto: o modelo de freguesia assistencialista, parada no tempo, dependente do favor político ou do medo de perder votos, morreu. E quanto mais o prolongarmos, mais afundamos esta terra num sono sem retorno. Há uma geração que não pode ser síndica da decadência. Tem de ser a geração da mudança. Da ousadia. Da visão.
Não para amanhã. Não apenas até às próximas eleições. Mas acima de tudo daqui a vinte anos. Quando muitos de nós inclusive já cá não estiverem. Quando os nossos filhos — se os houver — forem os guardiões desta paisagem, deste nome, desta memória colectiva.
Alvoco das Várzeas, como já escrevi, é a freguesia com menor densidade populacional do concelho. Vive um inverno demográfico prolongado desde o final do século passado. E está entre as mais distantes da sede do município. Conquanto, há aqui mais futuro do que passado, se o soubermos construir com união, com ideias e com dinâmica.
Sonhar com o futuro de Alvoco não é apenas uma questão de estratégia, é uma questão de justiça. Porque quem cá vive tem direito a ficar. A viver com qualidade, com serviços, com oportunidades. Sem ser obrigado a partir para ter acesso ao que devia existir aqui.
Aquilo que foi feito nestes quatro anos foi apenas o início. Com poucos meios, demos passos importantes. Requalificámos espaços. Cuidámos do essencial. Inovámos nos eventos. Reforçámos a marca da freguesia. Criámos, entre outras iniciativas, o Arraial Social, o ciclo INteriorizar, o Dia da Freguesia, o Alvôco Iluminado. Valorizámos os nossos açudes, os nossos caminhos e acredito muitos cantos da nossa Freguesia. Trabalhámos ainda o espaço público com pequenos gestos com grande impacto.
E tudo isto foi feito sem técnicos permanentes, sem grandes fundos comunitários, sem gabinetes nem avenças. Apenas com tempo, trabalho voluntário e uma vontade clara de servir. Servir, servir, servir. É isso que deu corpo ao que foi feito, e é isso que pode alavancar ainda mais o que queremos fazer. Mas é agora que precisamos de mais. De ir mais fundo. De dar o salto. De capacitar e catapultar Alvoco das Várzeas.
Há toda uma geração que não herdou uma terra fácil. Herdou desafios, inércias, silêncios, mas também herdou a liberdade de escolher um novo rumo. E essa liberdade traz consigo a responsabilidade: de pensar mais longe. De fazer diferente. De arriscar.
Temos de lançar um programa para o uso temporário de casas devolutas com reabilitação leve e legal. Temos de melhorar a mobilidade, com soluções regulares e circuitos com passeios seguros e esteticamente qualificados. Temos de reforçar a proposta cultural, com mais exposições, ciclos de pensamento, concertos e criação artística. Temos de cuidar da saúde de proximidade, com acções de prevenção, rastreios e acompanhamento. Temos de aprofundar a literacia cultural, cívica, digital, e promover o conhecimento intergeracional. Temos de afirmar, com mais força, a marca “Visite Alvoco das Várzeas”, como símbolo de autenticidade, bem-estar e valor comunitário.
Se Alvoco tiver a coragem de se reinventar, pode ser muito mais do que uma freguesia resiliente. Pode ser um laboratório vivo do futuro rural: onde a natureza, a tradição, a cultura, a proximidade e a inovação convivem como activos estratégicos. Onde se experimenta, se testa e se inspira.
Afinal de contas, as freguesias não podem continuar a ser trampolins pessoais, nem territórios geridos por medo ou dependência. Precisam de projecto. Precisam de critério. Precisam de quem olhe para elas com respeito, e não como mera extensão de aparelhos ou dinâmicas partidárias.
E este, também é o tempo de convocar os que partiram. A nossa diáspora, os jovens que estudam ou trabalham fora, os que têm raízes aqui e querem retribuir à terra que os viu crescer. O futuro constrói-se com os que estão, mas também (muito) com os que querem voltar ou ajudar a partir de longe. Criar canais, plataformas e meios de participação digital fará parte desse caminho.
Para isso tudo, precisamos de fazer uma coisa simples, mas (assumidamente muito) difícil: assumir um plano a 20 anos. Que ultrapasse o calendário eleitoral. Que não se renda à gestão do possível. Que seja arrojado, estruturado e feito com todos.
O segredo está na união, na capacitação e nas sinergias de todos nós. Acredito que Alvoco pode ser um exemplo de pequena freguesia com grande visão. Um lugar que diz presente, mas que pensa para lá do seu tempo. Porque, desculpem-me a franqueza, ou arriscamos, ou desaparecemos. E esta terra, com tudo o que tem, com tudo o que foi e com tudo o que ainda pode ser, merece muito mais do que a resignação inerte e caduca.
Se tivermos (a) coragem, esta terra não será apenas memória, será destino. Não será apenas uma aldeia postal, será um projecto. Se caminharmos juntos, com união e visão, Alvoco das Várzeas será mais do que a “última” do concelho: será a primeira a dar o exemplo.
Não somos muitos, mas temos tudo. Temos alma, temos história, temos gente. E agora temos a missão: provar que o interior não é passado. É uma possibilidade.
O tempo? É em Outubro. A geração é toda aquela que acredita. O futuro não será fácil, mas começa aqui.
Autor: João Miguel Pais
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