“Arrisco-me a dizer que cresci na região do país com melhor qualidade para se treinar enquanto ciclista”

Natural de Gonçalo, no concelho da Guarda, o ciclista da Tavfer Rafael Barbas vai representar a Caja Rural-Seguros RGA a partir de Janeiro de 2027

Foi nas estradas da Serra da Estrela que Rafael Barbas se formou como ciclista. Natural de Gonçalo, no concelho da Guarda, o corredor de 22 anos chegou à Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua aos 18 anos e estreou-se este ano na Volta a Portugal, terminando no top 15, depois de um sétimo lugar na Torre e de ter sido segundo na Classificação da Juventude. A boa época valeu-lhe agora um contrato de dois anos com a Team Caja Rural-Seguros RGA, formação espanhola do escalão ProTeam, que participou recentemente em mais uma edição, e onde o jovem português vai correr a partir de Janeiro de 2027. Rafael Barbas fala também da estreia na Volta a Portugal, da formação no interior, da conciliação entre o ciclismo e o curso de Medicina e da nova etapa da carreira. “É uma mudança muito importante. Sempre trabalhei para, um dia, conseguir dar este salto, e esse dia finalmente chegou”, conta em entrevista ao Correio da Beira Serra.

CBS: Foi a sua primeira Volta a Portugal. O que retira desta experiência que não esperava antes de partir?

Rafael Barbas: A verdade é que levo muitas coisas boas desta Volta a Portugal. Ganhámos uma etapa como equipa e eu, pessoalmente, fiquei extremamente contente com o meu desempenho nas etapas mais duras, mas também levo o pior do ciclismo, e isso não esperava encontrar, que foi a partida de um colega de estrada, de um companheiro de pelotão que, com apenas 19 anos, infelizmente, teve o infortúnio de falecer num acidente. Foi uma das coisas que mais me marcou nesta Volta a Portugal.

Terminou no top 15 da geral, foi o segundo melhor jovem e foi sétimo na Torre. Olhando para estes resultados, superou aquilo que esperava?

Sim, claro que sim. Fazer top 15 na geral é muito importante, apesar de não ter feito uma Volta a Portugal muito regular, porque perdi tempo em algumas etapas chave. Mas tenho de estar contente com o sétimo lugar na Torre, com o oitavo lugar no Gerês e com a certeza de que me superei a mim próprio. Tenho de estar muito orgulhoso disso.

A chegada à Torre acabou por ser um dos momentos altos da sua Volta. O que sentiu quando percebeu que estava entre os melhores numa subida que conhece tão bem?

Acabou por ser um momento muito positivo da minha Volta a Portugal. Até ao dia da Torre tínhamos apenas passado por etapas mais rolantes, que foram discutidas principalmente ao sprint e, até aí, não sabia como é que poderia vir a estar. Mas a verdade é que nesse dia senti-me super bem desde o início da corrida e, na subida da Torre, consegui estar com os melhores. Tive muito apoio ao longo de toda a subida, muitos conhecidos, muitas pessoas que gritaram pelo meu nome, e isso fez toda a diferença para que conseguisse estar na discussão da etapa, o que foi muito especial. Era uma das etapas que mais nervosismo me dava e na qual mais vontade tinha de fazer as coisas bem feitas.

Depois desta estreia, sente que a Volta a Portugal mudou a imagem que tinha das suas próprias capacidades enquanto ciclista?

Durante estes últimos anos trabalhei muito para chegar ao nível em que estou, por isso, apesar de ter feito uma excelente Volta a Portugal, tinha perfeita consciência de que a poderia ter feito assim ou ainda melhor. É muito gratificante, mas não diria que mudou qualquer tipo de imagem que tinha das minhas capacidades. Acredito que sou um ciclista completo, mas principalmente um escalador, já que as subidas longas são o meu ponto forte. Acima de tudo, acho que ainda me estou a descobrir. E os próximos anos serão cruciais para isso.

Começou a andar de bicicleta em Gonçalo, concelho da Guarda. Como é que um miúdo daquela terra, do interior do país, descobriu que podia chegar ao ciclismo profissional?

Penso que foi algo feito e pensado muito aos poucos, indo ano a ano, mês a mês, dia a dia. Foi algo muito ponderado, mas que acabou por acontecer naturalmente, porque a paixão pelo ciclismo surgiu muito rapidamente e sou do tipo de pessoa que, quando coloca algo na cabeça, é capaz de trabalhar muito para alcançar esses objectivos, e assim foi. Ser do interior não é nada fácil, principalmente quando precisas de te mostrar ao país se queres arranjar algum tipo de equipa ou de contrato, mas não mudava nada. Se calhar foi por ter essa dificuldade que quis realmente fazer dar certo, e assim foi.

Crescer e treinar na Guarda, com a altitude, o frio, o vento e aquelas estradas, ajudou a formar o ciclista que é hoje?

Sem dúvida. Arrisco-me a dizer que cresci na região do país com melhor qualidade para se treinar enquanto ciclista. Temos um pouco de tudo e, apesar de no Inverno fazer muito frio e no Verão fazer muito calor, penso que aqui no interior do país temos tudo aquilo que é preciso para se chegar longe, tanto a nível de estradas, de dureza, como de paisagens. Penso que é perfeito para forjar ciclistas e teve um papel fundamental para chegar onde estou agora.

Há alguma estrada ou subida da região que tenha ficado especialmente ligada à sua formação como ciclista?

Sim, existem algumas estradas que estão muito ligadas a mim e à minha formação enquanto ciclista. Uma delas, provavelmente a principal, foi a subida que vai entre Valhelhas, Famalicão e Guarda. É provavelmente a subida que mais vezes fiz na minha vida. Tem cerca de 20 minutos e não é extremamente exigente, mas é uma das que está mais perto da minha casa. Depois, em Manteigas, tanto o Vale Glaciar como a subida para as Penhas Douradas foram outras duas que me marcaram muito.

Existem hoje em Portugal condições suficientes para que um jovem com talento possa dedicar-se ao ciclismo e chegar ao profissionalismo?

Penso que cada vez mais existem boas equipas de formação. Não vou dizer que é possível e realista conseguir em Portugal, com 20 anos, dedicar-se só e exclusivamente ao ciclismo, porque, como sabemos, infelizmente em Portugal os salários não são os melhores, mas com vontade e sacrifício tudo se pode conseguir. O importante é estar feliz a fazer aquilo de que gostamos.

O que se poderia fazer para os jovens conciliarem a modalidade com os estudos?

Provavelmente, e falando do meu caso, falta sobretudo um maior apoio na vertente académica, por parte dos professores e das universidades. Esse apoio poderia passar por horários mais flexíveis e, sobretudo, pela possibilidade de os adaptar às exigências do desporto profissional.

No seu caso, como é que consegue conciliar o ciclismo profissional com o curso de Medicina?

É uma questão de organização. Obviamente que não é fácil. Mas sou uma pessoa bastante trabalhadora e que tenta fazer sempre as coisas bem. O principal é ter a noção de que não é nem nunca será fácil e de que, muitas vezes, é necessário fazer escolhas e optar por dedicar mais tempo aos estudos ou ao ciclismo, em função dos objectivos que tenhamos mais a curto prazo. Mas, sobretudo, é não ter medo de fazer essas escolhas e estarmos seguros de que estamos a fazer aquilo que achamos melhor naquele momento.

Estudar Medicina mudou a forma como olha para o seu próprio corpo enquanto atleta?

Sim, sem dúvida. Sempre gostei bastante do desporto em geral, da saúde e do bem-estar e, ainda para mais, agora que estudo Medicina tenho mais noção ainda de tudo o que envolve a performance, mas principalmente a questão do bem-estar. Esta parte da minha vida ajuda bastante na pessoa em que sou e, mais ainda, no atleta em que me tornei.

Já está confirmado o contrato com a Team Caja Rural-Seguros RGA? Quando começa oficialmente esta nova etapa?

Sim, já está confirmado. Assinei com a Caja Rural-Seguros RGA para as próximas duas épocas. O contrato entra em vigor a 1 de Janeiro de 2027.

Como surgiu esta oportunidade e em que momento percebeu que a mudança podia concretizar-se?

Foi algo que surgiu ao longo do tempo. O primeiro contacto veio imediatamente depois da Ronde de L’Isard, corrida em que participei pela selecção nacional, e depois disso foi feito um seguimento ao longo da época, para finalmente, depois da Volta a Portugal, surgir o contrato. Ao longo destes meses sempre acreditei que se poderia concretizar, depois da boa prestação que fiz ao longo da época, mas penso que o sétimo lugar na Torre foi muito importante para isso e foi um momento chave.

O que representa para si este salto para uma equipa ProTeam, depois de quatro anos na Tavfer?

É uma mudança muito importante. Sempre trabalhei para, um dia, conseguir dar este salto, e esse dia finalmente chegou. Sinto que é a recompensa pelo trabalho que tenho vindo a fazer nos últimos anos e tenho de estar muito orgulhoso disso.

Qual é agora o principal objectivo para a primeira época na sua nova equipa?

Sobretudo aprender o máximo que conseguir, adaptar-me ao novo mundo do ciclismo internacional e sentir que estou a fazer aquilo que está ao meu alcance para um dia vir a ter as minhas oportunidades. Acredito que posso contribuir com as minhas qualidades como ciclista, tanto a trabalhar em equipa como a aproveitar as oportunidades nas provas mais exigentes. Fora das competições, espero contribuir para o ambiente positivo.

Nuno Pereira

 

 

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