Biblioteca de Lagares da Beira comemora nono aniversário

Atirar livros para o lixo? NÃO! Autor: Renato Nunes

Recentemente, ao passar junto a um caixote do lixo, reparei que uma senhora se preparava para atirar alguns livros para o depósito dos indiferenciados. Não hesitei. Travei a marcha e fui resgatar os volumes que encontrei no meio da imundície. Assim que me preparava para partir, deparei-me novamente com a mesma mulher, que, entretanto, regressara com mais um monte de livros condenados nas mãos. Pedi-lhe, então, que fizesse o favor de deixar os volumes na calçada, pois eu iria levá-los para casa. Sorriu, visivelmente surpreendida, mas anuiu amavelmente. Entrementes, um transeunte, vendo-
-me a vasculhar o caixote do lixo, parou e ficou demoradamente a observar-me. Quando o pressenti, converti a minha revolta em palavras:

“─ Deveria ser considerado crime atirar os livros para o lixo!”

Anuiu de imediato. Andaria quiçá na casa dos 60 e respondeu-me à altura:

“─ É o resultado deste mundo tecnológico! As pessoas não lêem livros sérios. Só querem consumir brinquedos…” ─ fiquei em silêncio, talvez até algo emocionado com aquelas palavras que tanto me tocavam a alma. Despedimo-nos alguns instantes depois, como é da praxe, nesta época, com votos de um “Excelente Ano Novo”.

A mulher regressou entretanto; uma, duas, três, quatro, cinco, seis ou até mesmo sete vezes ─ e as pedras da calçada foram permanecendo tapadas com a grande quantidade de papel esmaecido pela passagem dos anos. Já munido de alguns sacos que fora rapidamente buscar, lá transportei então um número considerável de livros para casa, no meio dos quais se escondiam alguns manuscritos.

Antes de partir, ganhei coragem e encetei o derradeiro diálogo:

“─ Minha senhora, estes livros eram seus?

─ A minha mãe foi por estes dias a enterrar e não quero isto lá em casa.

─ A sua mãe era professora, não era?

─ Você parece que é bruxo! Mas, diga lá a verdade, você gosta mesmo disto?

─ Sim, gosto. Nem pode calcular a minha alegria. Esta foi talvez a minha melhor prenda deste Natal. Mas já reparou que também tem aqui papéis que fazem parte da sua história, da sua família?

─ Olhe…, se fossem umas notas das gordas, isso é que era!”

Calei-me. Afinal, o que poderia eu dizer? Enquanto arrastava os sacos com os livros, dei por mim a pensar nos sacrifícios que um dia os seus verdadeiros donos teriam feito para conseguir comprá-los. A mim, que sou oriundo de uma família onde não havia livros e que fui (e vou) pacientemente construindo a minha biblioteca pessoal, toca-me profundamente esta imagem de uma filha que, sem qualquer peso na consciência, despeja no caixote do lixo indiferenciado parte do património cultural da sua família, da sua identidade.

Como é evidente, nenhum objecto é sagrado, mas, de acordo com a minha mundividência, um livro não é um objecto para ser simplesmente usado e destruído. Um livro representa um elo da sabedoria entre várias gerações, entre várias civilizações e culturas e mesmo os seus “erros”, que o tempo ajuda a trazer à superfície, permitem-nos, desde logo, compreender que tudo o que fazemos ou escrevemos deve ser relativizado e submetido ao princípio elementar da humildade gnosiológica. Houve uma época, o tempo em que eu nasci e cresci, em que muitas pessoas compreenderiam de imediato o significado das frases anteriores. Houve um tempo em que muitas pessoas teriam vergonha de dizer publicamente que não gostam de ler, mas hoje tornou-se comum fazê-
-lo, mesmo entre as classes dos supostos intelectuais. Era a época em que se encadernavam os livros, incluindo os manuais escolares, para não os estragar. Hoje, os tempos mudaram e as mentalidades alteraram-se de um modo profundo.

Quando Donald Trump reassumiu a presidência dos EUA, em 20 de Janeiro de 2025, tive a percepção de que o mundo no qual eu nascera tinha acabado. Putin, Trump, Xi Jinping, Viktor Órban, Le Pen, King Jong-un, Benjamin Netanyahu, André Ventura, entre tantos outros, são agora os novos Júlios Césares que, directa ou indirectamente, influenciam os nossos destinos. Hoje, como ontem, estes ditadores populistas e demagogos representam uma poderosa ameaça à civilização.

Penso que não é possível explicar a ascensão destes fenómenos extremistas sem compreender, entre outros aspectos, o processo de erosão cultural em que vivemos submersos. Atirar bibliotecas inteiras para o lixo indiferenciado é apenas um exemplo, talvez um dos que mais me perturbam porque quem o faz nem sequer desconfia que está a destruir, de um modo irreversível, vestígios fundamentais da sua própria existência.

2025: esgotado um quarto do século XXI, o cenário não é animador, até porque, infelizmente, dentro das nossas portas, o sistema educativo português necessitaria de transformações profundas, muito difíceis de concretizar na actual conjuntura em que se continuam obsessivamente a privilegiar as Novas Tecnologias. A nível internacional, os EUA de Trump converteram-se num aliado confesso de Putin, sendo que o presidente norte-americano tem apenas uma obsessão: amealhar dólares.

A generalizada proliferação das notícias falsas, através de esquemas liderados por profissionais da manipulação, exige um investimento sério, da parte de cada cidadão, nos órgãos de comunicação social que procuram fazer um trabalho sério, rigoroso e, por isso, o mais independente possível (subscrever uma assinatura anual de um jornal é também uma forma de promover a democracia).

Espero, sinceramente, que 2026 traga à humanidade novas preocupações e interesses culturais, com menos espectáculo e mais ciência. Com mais livros que nos incitem a pensar e não sirvam apenas para entreter-nos. É uma utopia, bem o sei, mas eu já ficaria contente se, pelo menos, existissem mais cidadãos a compreender que os livros não se atiram para o lixo. Caso contrário, a democracia tornar-se-á um alvo cada vez mais frágil, o que também significa que a linha que separa a civilização da barbárie será cada vez mais ténue…

 

 

 

Autor: Renato Nunes

LEIA TAMBÉM

O «Mordomo» agora «manda» na estratégia local do PS! Autor: Carlos Martelo

Já uma vez abordámos o papel da singular figura de um personagem, alto, magro, pálido, …

Há duas décadas à espera. Autor: Nuno Pereira

Na primeira semana de Setembro realizou-se mais uma reunião de grande interesse para a região …

Sahifa Theme License is not validated, Go to the theme options page to validate the license, You need a single license for each domain name.