Nesta quadra dos já mortos, estamos a 1 de Novembro, aparecem afloramentos sociais e individuais que nos remetem para outras visões no âmbito das crenças e crendices.
Na minha Terra, acabo de me deparar com o boneco de uma espécie de bruxo ou de bruxa, colocado assim como se estivesse emboscado numa esquina, por sinal no Cimo do Povo. A sua concepção artística – que nos espicaça a imaginação de base “ancestral” – faz-me intuir um aspecto de certa forma até simpático o que é inovador pois é suposto bruxas e bruxos não terem aspecto “simpático”…
À frente deste boneco, está adaptada uma pequena carroça feita em madeira, carregada com bruxinhas por assim dizer em miniatura e puxada por uma rena, também de madeira. Este contexto físico é amenizado, no domínio que gera no âmbito conceptual, pela cor branca de roupagens e adereços. É uma representação cénica engraçada que até consegue superar eventuais efeitos do “medo” que temos entranhado nas “catacumbas” do cérebro, um “medo” mais habitual nestes contextos tradicionais. Aliás, eu tenho a impressão de já ter conhecido a rena da carroça noutra situação cénica no ambiente mais iluminado do Natal… Digamos que, assim sendo, é uma rena multiusos…criada e reposicionada pela sua criadora (artística), a artesã habilidosa que nós conhecemos.
Por mero acaso, ao tirar a foto, passou um bicho-gato nada perturbado pelo ambiente. Pena foi não ter sido um gato preto que se integraria melhor, de outra forma, no quadro cénico e na quadra “de lutos” em curso…
Bruxas e bruxos, crenças e crendices, evocações e invocações que recuam para séculos e mais séculos atrás, nesta nossa formidável caminhada antropológica pela Humanidade afora.
Fazem-me recordar o mais visionário dos meus conterrâneos-contemporâneos nessas matérias escusas, homem já falecido, perante cuja imagem e memória eu me curvo respeitosamente. Sim, ele via bruxas e bruxos, chegou a ver o próprio Belzebu, e conhecia as manhosices da “bruxa Lúria” que andava por lá, pelo Cimo do Povo, na minha Terra, a incomodar as pessoas, nomeadamente aquelas com que “embirrava”. Dizia ele que a “bruxa Lúria”, quando encontrava uma porta de casa fechada, conseguia entrar pelo buraco da fechadura para fazer malvadezas do lado de dentro das portas… Passei bom tempo a ouvi-lo, com toda a atenção, a contar essas e outras peripécias de encantamentos do tipo. Não porque eu acredite em bruxas ou similares mas porque o homem, à sua maneira “castiça”, era mesmo um visionário na matéria. E eu tinha-o ali, à minha frente, como se fosse um artista a “pintar quadros” imaginários de inegável valor artístico que me faziam segui-lo nas asas da ,minha própria imaginação. Descansa em paz, bom homem !
Que este tipo de “imaginação”, também no domínio do culto dos mortos e na pesquisa (medrosa…) do além, continua sendo, entre nós, das mais fortes pulsões espirituais, e mesmo físicas, que nos é dado vivenciar…e sonhar ainda que, muitas vezes, em modo de pesadelo.
Viva a imaginação que me permite ir para muito longe, muito para lá de mim e deste tempo ! Viva !
1 de Novembro de 2023.
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