Enfim, também se trata de ressacar das doses excessivas de reuniões e debates autárquicos em que estive envolvido ontem mesmo.
Nestas alturas, costumo recorrer a uma «desintoxicação», lendo uns pedaços de escritos de vários dos nossos autores mais renomados, o que também me suscita algumas emanações mentais descontraídas.
Esses escritos dos ditos «clássicos» são bons estimulantes e, considero, não são alienatórios, pois permitem uma espécie de «recuperação activa» que hoje pratico após os excessos «politizados» desta vida. Nestes contextos, também ensaio enveredar por propostas de avaliações diferentes das mais conhecidas, mas sempre subjectivas e, também por isso, mais apetecíveis.
Por exemplo: ao longo de uma evolução «crítica», que em mim já tem décadas, perante a vida e a obra de Camões, hoje afirmo sem hesitar: «Não aceito discutir, comparar, criticar o poeta Camões» — pois considero que, perante a genialidade da sua Obra, só nos resta lê-la numa respeitosa posição genuflectória (de joelhos)…
E o mesmo digo quanto a Fernando Pessoa. E de outros mais.
No caso de Camilo Castelo Branco, admiro-lhe a agilidade, o desassombrado talento verbal com que escreve. E escreveu dias e noites enquanto afastava os pensamentos das agruras da vida que lhe coube viver, até decidir acabar com ela. Baixo a minha cabeça respeitosamente.
E Eça de Queirós, talvez o mais hábil esgrimista com palavras e com críticas em língua portuguesa! Tremendo!
E Guerra Junqueiro, o poeta de todos os adjectivos com que construiu algumas das mais vibrantes metáforas!
E o «nosso» Bocage, esse mariola genial, capaz de tudo, por exemplo, no modelo dos 14 versos (soneto), e capaz de elevar à categoria de arte a mais carnal inspiração?
Gosto da escrita sólida, vigorosa e incorrupta de Herculano. Escreveu, vamos dizer, como só ele podia ter escrito. Avança a partir dos alicerces inabaláveis da sua trabalhada sabedoria.
E Aquilino, o «mestre» dos quase nossos contemporâneos. Homem de aventuras, escritor com o mais peculiar repertório linguístico, um arquitecto-operário da nossa língua que trabalhou com o «cinzel» da sua candente sensibilidade!
Quero também referir António Aleixo como um genuíno poeta que, sendo «popular» nas suas origens, alcança a maior elaboração mental em quadras rápidas e soltas, como se fossem estrelas cadentes que não caem. Com uma só quadra, Aleixo exprime aquilo que a grande maioria, mesmo dos mais «pintados», não alcança dizer num só livro, mesmo dos mais volumosos… Eis a síntese!
Pois como foi possível atingirem tanta arte, todos eles? Como é possível dominarem e fazerem cintilar, a toda a escala e com tamanha sensibilidade artística, uma língua — o nosso português?!
E tantos outros há! E há-os em todas as línguas e contextos sociais. Há especialistas que escrevem «apenas» o que é preciso escrever e, também por isso, são os que melhor se fazem entender pelas «massas»…
E sim, síntese precisa-se! Hoje há a «IA — Inteligência Artificial», que trabalha um texto dos mais arrevesados e produz sínteses bastante satisfatórias. Mas bolas, se aplicarem a Eça a «lei da síntese», por exemplo, em «Os Maias», lá se vai o prazer de ler muitos dos «quadros» que ele pintou a escrever como escreveu…
E quanta metáfora bem imaginada não será cortada à nossa leitura? E os piores efeitos aplica a «IA» aos romances de Aquilino, a «censurar-lhe» o vasto repertório que só ele soube escolher e aplicar com uma mestria plena… Não, nem tanto, nem tanto!
Termino esta efabulação afirmando que há quem não leia e, lendo, não goste destes autores. Não se pode obrigar ninguém a ler e ainda menos a gostar do que leia. Todavia, afirmo que perdem coisas boas e deixam de experimentar belas sensações, mas…
Mas, como também escreveu um Pessoa na sua versão de Bernardo Soares «desassossegado» e, aliás, com algum sentido de humor: «Mas que prazer ter um livro para ler e não o fazer»…
Autor: João Dinis, Jano
Correio da Beira Serra Jornal de Referência de Oliveira do Hospital e da região. Correio da Beira Serra – notícias da Região Centro – Oliveira do Hospital, Arganil, Tábua, Seia, etc


