Escritos para ressacar o espírito. Autor: João Dinis

Hoje atravesso um «estado de espírito» meio em suspensão entre o «dolce fare niente» («o doce fazer nada») e o verter para a escrita uns bocejos de um português com pretensões a intelectual.

Enfim, também se trata de ressacar das doses excessivas de reuniões e debates autárquicos em que estive envolvido ontem mesmo.

Nestas alturas, costumo recorrer a uma «desintoxicação», lendo uns pedaços de escritos de vários dos nossos autores mais renomados, o que também me suscita algumas emanações mentais descontraídas.

Esses escritos dos ditos «clássicos» são bons estimulantes e, considero, não são alienatórios, pois permitem uma espécie de «recuperação activa» que hoje pratico após os excessos «politizados» desta vida. Nestes contextos, também ensaio enveredar por propostas de avaliações diferentes das mais conhecidas, mas sempre subjectivas e, também por isso, mais apetecíveis.

Por exemplo: ao longo de uma evolução «crítica», que em mim já tem décadas, perante a vida e a obra de Camões, hoje afirmo sem hesitar: «Não aceito discutir, comparar, criticar o poeta Camões» — pois considero que, perante a genialidade da sua Obra, só nos resta lê-la em respeitosa posição genuflectória (de joelhos)…

E o mesmo digo quanto a Fernando Pessoa e a outros mais.

No caso de Camilo Castelo Branco, admiro-lhe a agilidade, o desassombrado talento verbal com que escreve. E escreveu dias e noites enquanto afastava os pensamentos das agruras da vida que lhe coube viver, até decidir acabar com ela. Baixo a minha cabeça respeitosamente.

E Eça de Queirós, talvez o mais hábil esgrimista com palavras e com críticas em língua portuguesa! Tremendo!

E Guerra Junqueiro, o poeta de todos os adjectivos com que construiu algumas das mais vibrantes metáforas!

E o «nosso» Bocage, esse mariola genial, capaz de tudo, por exemplo, no modelo dos 14 versos (soneto), e capaz de elevar à categoria de arte a mais descarada e carnal inspiração?

Gosto da escrita sólida, vigorosa e incorrupta de Herculano. Escreveu, vamos dizer, como só ele podia ter escrito. Avança a partir dos alicerces inabaláveis da sua trabalhada sabedoria.

E Aquilino, o «mestre» dos quase nossos contemporâneos. Homem de aventuras, escritor com o mais peculiar repertório linguístico, um arquitecto-operário da nossa língua que trabalhou com o «cinzel» da sua candente sensibilidade!

E o poeta mais representativo de uma poesia «ecologista»: Cesário Verde, grande «cultor» de palavras e ideias.

Quero também referir António Aleixo como um genuíno poeta que, sendo «popular» nas suas origens, alcança a maior elaboração mental em quadras rápidas e soltas, como se fossem estrelas cadentes que não caem. Com uma só quadra, Aleixo exprime aquilo que muitos, mesmo dos mais «pintados», não alcançam dizer num livro, mesmo dos mais volumosos… Eis a síntese!

E há duas mulheres maiores na arte da escrita. A «mãe» das mulheres portuguesas emancipalistas, mestra «no 14» (no soneto) e do «amar, amar, perdidamente! — Amar, amar e não amar ninguém!», é Florbela Espanca, que gostava de se abrir em poema, como flor bela, mas interrompida ao transpor para o sono eterno (suicídio), e bela nas suas 36 primaveras.

A outra foi menos breve e um pouco mais tardia, mas sempre fresca, e chegou a tempo de falar e de poetar como poucas e poucos o fizeram: a (gentil) Sophia de Mello Breyner Andresen, que tão bem nos levou, pela imaginação, à essência do 25 de Abril, àquela «madrugada que eu esperava — O dia inicial inteiro e limpo — onde emergimos da noite e do silêncio»… Lindo!

E aqui chegados, salve Ary dos Santos, o nosso imenso «Poeta da Revolução». Cantemos contigo: «E se Abril ficar distante desta terra, deste Povo — a nossa força é bastante — para fazer um Abril novo»… Assim seja!

Pois como foi possível atingirem tanta arte, todos eles? Como é possível dominarem e fazerem cintilar, a toda a escala e com tamanha sensibilidade artística, uma língua — o nosso português?!

E tantos outros há! E há-os em todas as línguas e contextos sociais. Há especialistas que escrevem «apenas» o que é preciso escrever e, também por isso, são os que melhor se fazem entender pelas «massas»…

E sim, síntese precisa-se! Hoje há a «IA — Inteligência Artificial», que trabalha um texto dos mais arrevesados e produz sínteses bastante satisfatórias. Mas bolas, se aplicarem a Eça a «lei da síntese», por exemplo, em «Os Maias», lá se vai o prazer de ler muitos dos «quadros» que ele pintou a escrever como escreveu…

E quanta metáfora bem imaginada não será cortada à nossa leitura? E os piores efeitos aplica a «IA» aos romances de Aquilino, a «censurar-lhe» o vasto repertório que só ele soube escolher e aplicar com uma mestria plena… Não, nem tanto, nem tanto!

Termino esta efabulação afirmando que há quem não leia e, lendo, não goste destes autores. Não se pode obrigar ninguém a ler e ainda menos a gostar do que leia. Todavia, afirmo que perdem coisas boas e deixam de experimentar belas sensações, mas…

Mas, como também escreveu um Pessoa na sua versão de Bernardo Soares «desassossegado» e, aliás, com algum sentido de humor: «Mas que prazer ter um livro para ler e não o fazer»…

 

 

Autor: João Dinis, Jano

LEIA TAMBÉM

Pogacar “derrotado” por queda na “Vuelta”. Autor: João Dinis

E desta vez, a “lotaria” das quedas saiu a Tadey Pogacar nesta edição da “Vuelta”  …

Na feira medieval. Autor: Paulo Geraldo

Na escola organizámos uma feira medieval. De vez em quando, numa escola ou noutra, fazem-se …

Sahifa Theme License is not validated, Go to the theme options page to validate the license, You need a single license for each domain name.