Há tempos, fiz publicar no CBS um artigo de opinião motivado pelos “500 Anos do nascimento” de Luís Vaz de Camões. Agora, pelos seus prováveis “501 Anos”, resolvi revisitar o Poeta no contexto da sua vida tal como ele a terá vivido e certamente também sofrido. Nos entretantos, também foi boémio, mulherengo, brigão e aventureiro. E pelo meio de tudo isso “colheu doce fruito (fruto)” do que de melhor levou desta sua vida “pelo mundo em pedaços repartida”.
Também coleccionou problemas e dissabores. Mas por cima de tudo isso, e apesar disso, brilharam e brilham a sua sensibilidade, o seu talento, o seu saber de “experiências feito” – que considero ímpares – e que lhe proporcionaram comprovar aquele seu outro dito do “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Luís Vaz também foi um experimentado sábio com a particularidade de ser capaz de pôr a sua sabedoria ao serviço da arte poética.
E, assim, Camões continua no seu caminho para a eternidade, para além de nós mas dentro da nossa maior e mais comum circunstância, a de continuarmos humanos. Sim, pelo menos enquanto houver seres humanos neste mundo, Camões e sua Obra vão continuar presentes !
Repito, gosto de ler Camões embora fazê-lo com alguma profundidade também implique trabalho e muita concentração. De facto, é bem trabalhoso ler e entender Camões sobretudo na versão da sua escrita em Português antigo, apesar dele mesmo ter feito evoluir imenso a nossa Língua. Enfim, é mais fácil lê-lo, e entendê-lo, já “traduzido” para Português actualizado mas também é verdade que, assim, há sempre algo que se perde nessa tranposição, algo que nos foge em semântica e estética linguísticas. Como exemplo mais conhecido disto mesmo, são aqueles versos em Os Lusíadas, referindo-se à malograda Inês de Castro, como a “mísera e mesquinha (infeliz e desafortunada) que despois de ser morta foi Rainha”. Enfim, isto assim assumido até pode parecer pedantice intelectual de minha parte mas um tal “pecado” corre o risco de o cometer quem afirme que não gosta de ler Camões e ainda que o leia pouco…
Em muitos dos episódios da Epopeia Os Lusíadas – como acontece neste do assassinato de Inês de Castro – Camões expressa-se, apesar de o fazer por interposto narrador (o marinheiro descobridor Vasco da Gama), a toda a escala do lirismo clássico e da sua sensibilidade mais apurada e quase tangível. Já no episódio dedicado à Batalha de Aljubarrota, o Poeta percorre as cenas que descreve com recurso à maior expressividade dramática mas também muito sensorial, “plástica” e rítmica. Um tal “realismo”, poético embora e carregado de metáforas, isso até indicia que Camões tinha de facto basta experiência de situações críticas como soldado combatente em várias batalhas como o foi em África e nas Índias. E se continuarmos até entrar dentro do episódio da “Ilha dos Amores”, poderemos presumir, sem receio de exagerar, que Camões também foi um experimentado “mestre” na arte do amor físico, sexual, “tocado” a toda a escala e sem falsos pudores ou preconceitos (foi um renascentista…) mas sempre com elevada concepção.
Como não citar pois passagens desse episódio mais do que notável da “Ilha dos Amores” em termos simbólicos e líricos ?! – “Ó que famintos beijos na floresta – E que mimoso choro que soava – Que afagos tão suaves, que ira honesta, – Que em risinhos alegres se tornava ! ”. Bravíssimo Luís Vaz que, neste campo e como agora se diz, “pecado é não pecar” !…
Muito recentemente, li mais uma biografia do Luís Vaz – gosto mesmo de nomear Camões assim. É um livro que ajuda à sua leitura e compreensão pois, e tal como a própria autora esclarece, não é um livro para eruditos. Ora, eu já tinha uma avaliação da tremenda, por difícil, experiência de vida que lhe coube atravessar em verdadeira “via sacra” mas não sabia ainda quão difícil, ingrata e castigadora foi essa mesma sua vida. Por assim dizer, aconteceu de tudo a Camões e por vezes em doses realmente excessivas ! Por ironia, provavelmente quando esteve em Macau, Camões teve uma função pública e remunerada por ter sido oficialmente nomeado “Provedor-mor dos defuntos e ausentes” o que, na altura, correspondia a inventariar e guardar os espólios daqueles, e eram bastantes, que por lá morriam ou desapareciam, com o objectivo de vir a entregar esses espólios aos herdeiros, a eventuais credores e afins. Pois até nisso a tal “má fortuna” perseguiu Camões pois os espólios por ele já recolhidos foram engolidos pelo mar num naufrágio trágico em que também perdeu a sua mulher (uma chinesa) mui amada e chorada, à época. Em consequência, Camões até terá sido preso que não tinha posses para repor o prejuízo com os espólios perdidos, registados que estes estavam ! “Safou-se” devido à ajuda especial de um seu influente amigo e admirador. Na sua Obra mais importante, Luís Vaz revelou profunda devoção a sua Pátria e ao seu Povo, embora não tenha deixado de também expressar, de quando em vez, algumas fortes críticas relacionadas com certos episódios da nossa Lusa e histórica saga.
Três autênticos “milagres” aconteceram na vida de Luís Vaz
E é nesses contextos que, digamos, aconteceu o primeiro grande “milagre” e que foi consumado na extraordinária Obra escrita que chegou até nós porque havia bastante mais obra que se perdeu. Afinal, com tanta vicissitude a transpor, é um verdadeiro “milagre” ele ter conseguido manter e expressar, ao longo de tão duros anos, a sua muito apurada sensibilidade, a sua resiliência artística e mental, o seu “engenho e arte”! Ele foi humano e como humano teve seus momentos de desânimo, de descrença, quiçá daquilo a que hoje se chama de “depressão”. Mas a tudo sobreviveu, e manteve produção artística até ao fim em que seu corpo quase acabou em vala comum quando o seu espírito já voava alto rumo à eternidade !
Alguém conhece outro artista monumental com uma tremenda experiência de vida como teve Camões ?! Embora se continue a discutir a verdadeira autoria, sempre nos vem à cabeça o início do célebre soneto “O dia em que nasci moura (morra) e pereça – Não o queira jamais o tempo dar”, o que sintetiza a maior negação (desilusão) de um nascimento, e mesmo de toda uma vida…
Outro “milagre” foi ele ter sobrevivido – com vida – a tantas e tão perigosas viagens marítimas, às rixas e aos combates militares que travou pelos vistos com valentia, à míngua frequente, a prisões e doenças várias. Morreu com uns 55 anos de idade o que não sendo propriamente mau no seu tempo em termos de longevidade, não deixou de evidenciar o “gasto” de várias vidas através de uma só.
Outro e feliz “milagre” foi a sua Obra mais importante ter escapado à destruição ou ao desaparecimento, sem se perder nas desmesuradas bolandas em que o Poeta se viu envolvido, em África e sobretudo nas Índias, em Macau, etc, “em perigos e guerras esforçado” e até sobreviveu, com ele, a um “famoso” naufrágio, lá longe. Enfim, perdeu-se de alguma forma e em algum lado, o seu “Parnaso”, uma obra poética também notável como atestaram um ou outro de seus contemporâneos que conheceram esse poema. Foi pena !
Em última análise, quem com tais “milagres” (verdadeiros prodígios) mais veio a beneficiar foram os vindouros que podem apreciar a sua Obra ! Camões teve a noção clara do seu mérito e ainda terá apreciado reconhecimentos do seu valor como vate e da importância da sua Obra. Ao menos que isto lhe tenha proporcionado algum reconforto pessoal que a “pensão” – a recompensa por serviços prestados ao Rei – dos 15 mil réis anuais, atribuída por decisão régia nos últimos anos da sua vida (e depois dele, também no final da vida de sua mãe), foi para isso muito insuficiente.
Considero que Camões é completamente hábil e talentoso em muitas sínteses poético-filosóficas que atravessam a sua Obra. Cito mais uma delas, aquela do “Erros meus, má fortuna, amor ardente – Que em minha perdição se conjuraram” – porventura aquela síntese que, em estilo de confissão, melhor resume a sua própria vida.
E nem vou aqui reproduzir, por minha consternação, a inscrição feita na lápide que um outro admirador mandou colocar na sua primeira sepultura. Prefiro muitíssimo mais “ julgá-lo”, com toda a dignidade, dentro do Panteão dos Jerónimos, na Lisboa que, se o não viu nascer, o viu morrer !
Viva Luís Vaz e sua Obra!!
Autor: João Dinis, Jano
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