Igreja de São Lourenço, no Porto, cujo projecto é atribuído a Silvestre Jorge. A construção do colégio jesuíta arrancou em 1573.

Os 500 anos do nascimento do “arquitecto de Nogueira do Cravo”

Nascido em 1526, em Nogueira do Cravo, Silvestre Jorge começou como pedreiro e chegou a mestre-de-obras e tracista da Companhia de Jesus, com intervenção em colégios e casas da Ordem em várias cidades portuguesas. O homem de Nogueira do Cravo que marcou as obras dos Jesuítas completaria esta ano cinco séculos.

Faz este ano 500 anos que nasceu Silvestre Jorge, natural da então Vila de Nogueira, actual Nogueira do Cravo, concelho de Oliveira do Hospital, que viria a distinguir-se na arquitectura da Companhia de Jesus. Filho de um pedreiro, começou por seguir a profissão da família antes de assumir funções como mestre-de-obras, orientador de arquitectos e tracista, participando em obras da Companhia em Lisboa, Coimbra, Braga, Porto, Évora e Bragança. A documentação municipal fixa o nascimento em 1526, enquanto o historiador de arte e professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Fausto Sanches Martins aponta para “cerca de 1526” no estudo que dedicou ao seu percurso.

A ligação a Nogueira do Cravo não é apenas uma referência biográfica. Silvestre Jorge descendia de uma família de pedreiros e o pai, Jorge Pires, exercia essa profissão. O irmão, Marcos Jorge, também seguiria uma carreira ligada à Companhia de Jesus. No estudo de Sanches Martins, a oficina paterna surge como o ponto de partida da formação profissional de Silvestre, que entrou na Companhia mantendo a profissão que aprendera em casa. O próprio investigador viria a falar de uma futura monografia sobre “o arquitecto de Nogueira do Cravo”.

A relação com a tradição local da pedra encontra ainda hoje um reflexo no Monumento aos Arguinas, inaugurado em Nogueira do Cravo a 10 de Junho de 2002. A obra presta homenagem aos homens que, ao longo dos tempos, trabalharam a pedra e à arte dos “arguinas”, uma actividade que marcou a identidade da povoação. O monumento não é dedicado a Silvestre Jorge, mas estabelece uma ligação com o ofício que esteve na origem do seu percurso.

Silvestre entrou na Companhia de Jesus em Coimbra, a 21 de Agosto de 1550, como irmão coadjutor temporal. Durante os primeiros anos, os catálogos não registam intervenções concretas relacionadas com a sua profissão de pedreiro. Em 1560, porém, já surgia à frente das obras da Casa Professa de São Roque, em Lisboa, com o título de “Prefeito das obras”. Os documentos jesuítas atribuíam-lhe ainda as designações de “Praefectus operum” e “Praefectus Architectorum”, que Sanches Martins traduz como “Mestre-de-obras” e “Orientador dos Arquitectos”.

A partir daí, a actividade de Silvestre Jorge acompanha a expansão das obras da Companhia de Jesus em Portugal. Em Braga, em 1567, dirigiu trabalhos de ampliação da nova igreja. Dois anos depois estava em Coimbra, novamente como “Prefeito das obras”, encarregado também de preparar novas traças para alterar o projecto original do colégio e enviá-las a Roma para aprovação. A sua intervenção já ultrapassava, assim, a execução dos trabalhos e entrava no domínio do desenho e orientação das construções.

Em 1571 foi enviado para o Porto, onde recebeu instruções para medir o local escolhido para o Colégio de São Lourenço e delinear a traça do novo edifício. A primeira pedra seria lançada em 1573. Depois passou por Évora, onde entre 1576 e 1580 continuou ligado às obras do Colégio do Espírito Santo e acumulou outras responsabilidades. Por volta de 1578, o Cardeal D. Henrique convidou-o ainda a executar a traça do Hospital da Universidade.

O percurso ganhou nova dimensão em Lisboa, no Colégio de Santo Antão. Em 1581, depois da morte do Cardeal D. Henrique, Silvestre Jorge recebeu a missão de delinear uma nova traça para substituir o projecto original. A proposta foi aprovada pela comunidade do colégio, embora viesse mais tarde a ser criticada pelo arquitecto italiano Filippo Terzi, levando a novos retoques. Em 1587, depois de uma passagem por Bragança para executar uma traça e dirigir obras na quinta de recreio de Parâmio, regressou a Santo Antão, onde continuou a trabalhar no conjunto colegial e no desenho da igreja.

É sobretudo a partir de 1580 que Sanches Martins identifica uma nova fase na carreira de Silvestre Jorge. Depois de uma primeira etapa como pedreiro e de outra como mestre-de-obras, a sua actividade passa a centrar-se principalmente na elaboração de traças. O investigador coloca-o entre os nomes a quem, com propriedade, pode ser atribuído o título de tracista da Companhia de Jesus, ao lado de outros arquitectos ligados à Ordem.

A actividade não terminou em Lisboa. Em 1595, o reitor de Évora voltou a chamá-lo para traçar a planta e dirigir os trabalhos de um corredor e dormitório do colégio. Em 1601, já na Casa Professa de São Roque, tinha como missão “atender e cuidar das obras”. Dois anos depois regressou a Coimbra, onde permaneceria até à morte.

Silvestre Jorge morreu a 29 de Fevereiro de 1608 e foi sepultado na igreja do Colégio de Jesus de Coimbra, na cova número 20, destinada anteriormente ao pai, Jorge Pires. Tinha dedicado mais de meio século à Companhia de Jesus, entre a actividade profissional ligada à pedra, a direcção de obras e a elaboração de traças arquitectónicas.

No balanço do percurso, Fausto Sanches Martins considera que Silvestre Jorge foi “a figura mais relevante da Província de Portugal, no campo da arquitectura”, destacando a sua intervenção constante nas obras da maior parte dos colégios. É uma avaliação do investigador, mas ajuda a explicar a dimensão alcançada por um homem que saiu de uma povoação do actual concelho de Oliveira do Hospital e acabou ligado a algumas das principais construções jesuítas do país.

Cinco séculos depois do ano apontado para o seu nascimento, a memória de Silvestre Jorge continua particularmente ligada aos documentos que permitem reconstruir o seu percurso. Em Nogueira do Cravo, onde nasceu e de onde saiu para a Companhia de Jesus, não é conhecida uma homenagem pública especificamente dedicada à sua figura. A terra conserva, contudo, a memória da tradição da pedra que marcou a sua origem, enquanto os estudos sobre a arquitectura jesuítica recuperam o percurso daquele que Sanches Martins deixou identificado como “o arquitecto de Nogueira do Cravo”.

LEIA TAMBÉM

Estabelecimentos abertos até às 4h00 da madrugada na quadra de Natal e Ano Novo em Oliveira do Hospital.

Restaurantes e bares de Oliveira do Hospital com horário alargado no Natal e Ano Novo

A CM de Oliveira do Hospital aprovou ontem, 18 de Dezembro, em reunião do executivo, …

Capela de Sant’Ana e a Igreja Moçárabe de Lourosa também foram assaltadas na madrugada de quinta-feira

A Capela de Sant’Ana, na cidade de Oliveira do Hospital, e a Igreja Moçárabe de …

Sahifa Theme License is not validated, Go to the theme options page to validate the license, You need a single license for each domain name.