Relacionados
Na EN17, mais conhecida como Estrada da Beira, os coletes reflectores aparecem ao longe, entre curvas, bermas estreitas e carrinhas de apoio. Nestes dias de Maio, voltam os grupos que seguem a pé para Fátima. Saem muito cedo, ainda de noite, para terminar a jornada do dia cedo, antes de o cansaço pesar mais. Na véspera, a chuva já era uma preocupação. Esta sexta-feira de manhã, confirmou-se.
Horácio Marques Gomes, 71 anos, residente na Guarda, segue numa das carrinhas de apoio. Reformado, acompanha peregrinos há seis anos. Leva malas, comida e aquilo que for preciso. “Transporto-lhes as coisas, transporto o que é preciso”, conta. A chuva preocupava-o: na estrada, os peregrinos ficam mais difíceis de ver e os carros passam com menos margem. Quando isso acontece, liga os quatro piscas, “por causa dos carros”. Faz o mesmo quando a estrada aperta ou a luz do dia ainda é pouca.
O grupo vem da Guarda e segue para Fátima. São cerca de 34 pessoas, incluindo dois condutores. “Somos dois condutores, o resto são peregrinos”, resume Horácio. A chegada está prevista para dia 11, antes das celebrações centrais da peregrinação de Maio, que culmina na noite de 12, com a Procissão das Velas, e no dia 13, com as principais celebrações no Santuário.
António Esteves, 52 anos, empresário da construção civil, caminha no grupo. Vai a pé a Fátima pela quarta vez. Em todas, diz, foi para cumprir promessas a Nossa Senhora de Fátima. Quando lhe perguntam o que o faz voltar à estrada, a resposta sai curta: “A fé.”
Mas a fé não tira o peso aos quilómetros. No Pavilhão da Irmandade do Senhor das Almas, no concelho de Oliveira do Hospital, a peregrinação chega muitas vezes pelos pés. José Agostinho, 74 anos, sabe o que vem com os caminhantes: bolhas, unhas inflamadas, músculos doridos, cansaço. Foi ele quem ajudou a fundar o posto de apoio, há cerca de 30 anos.
Agostinho também já foi a Fátima a pé. “Fazemos o que podemos para aliviar o sofrimento”, diz. “Só quem vai a Fátima a pé é que sabe o quanto custa.”
O posto funciona apenas durante a peregrinação de Maio. Abre nos dias 5, 6, 7, 8 e 9, quando a passagem é maior. “Só abrimos em Maio, porque não temos disponibilidade para estar nas restantes, e a de Maio é aquela que tem mais peregrinos”, explica Agostinho.
No pavilhão há cerca de 40 camas montadas e mais 10 noutro espaço. Para essa noite, eram esperadas cerca de 60 pessoas para dormir. “Tratamos das bolhas, tratamos dos músculos, tratamos daquilo que é necessário”, diz Agostinho.
O actual pavilhão foi criado para apoiar os peregrinos, embora também sirva para “umas festas”. Antes, o acolhimento fazia-se na Casa da Residência, com a ajuda de uma tenda militar montada para receber os caminhantes. O movimento já foi maior. O posto chegava a tratar cerca de 600 pessoas. “Era de manhã à noite”, recorda Agostinho. Agora, calcula, passam por ali “umas 200, 200 e tal” pessoas por ano.
Agostinho diz que, naquele troço, o apoio faz falta. “Daqui até Coimbra não têm mais nada”, afirma. Por isso continua a abrir o espaço, apesar da idade e de já não ter “muita saúde para isto”. “Faz pena vê-los passar aí com o sacrifício que vão.”
A peregrinação de Maio recorda a primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos, a 13 de Maio de 1917, e culmina nas celebrações de 12 e 13 no Santuário de Fátima. Para muitos, o caminho faz-se por promessa. Na Estrada da Beira, o Pavilhão da Irmandade do Senhor das Almas permite recuperar forças antes de retomarem a caminhada.
Correio da Beira Serra Jornal de Referência de Oliveira do Hospital e da região. Correio da Beira Serra – notícias da Região Centro – Oliveira do Hospital, Arganil, Tábua, Seia, etc






