Hoje dirijo-me em especial àqueles que se estão a iniciar ou a pensar iniciar-se nisto da fotografia:
Um exercício que faço muitas vezes quando estou a leccionar fotografia prende-se com a percepção que cada um de nós tem do Mundo que o rodeia. Esta percepção difere de pessoa para pessoa. Não há duas pessoas iguais… Porém, nos dias que correm, tendemos, muito por culpa de fatores externos, a querer ser mais iguais, a imitar aquilo que vemos bem feito. E não há mal nenhum nisso, e sim, é inevitável. Porém, a partir de determinada altura isto acaba por fazer mais mal do que bem.
Recorro como exemplo a um Monumento (O Mosteiro dos Jerónimos) e pergunto aos formandos que palavras usariam para o caraterizar se tivessem de o fazer com apenas uma palavra. Já recebi todos os tipos de adjetivos para todo o tipo de monumentos “Grande”, “Majestoso”, “Velho”, “Antigo”, “Belo”, “Maravilhoso”, etc. Frequentemente, numa turma de 6 a 8 formandos não aparecem dois adjetivos iguais. Dou continuidade ao meu raciocínio explicando que todos nós analisamos os motivos que nos rodeiam com todo o nosso ser; a nossa sensibilidade, a nossa educação, as nossas crenças, a nossa formação académica, etc. Uma abordagem fotográfica ao Mosteiro dos Jerónimos pode iniciar-se pelo simbolismo religioso do monumento, se esse aspeto for importante para um fotógrafo. Porém, um arquiteto poderá desvalorizar por completo a afluência de crentes (o elemento humano) em horário de culto e cingir-se apenas às soluções arquitetónicas do edifício. Já alguém de História de Arte poderá abordar o mesmo monumento e centrar a sua atenção nos elementos artísticos que o identificam como sendo de uma determinada época… E todos eles poderão também ser sensíveis a todo e qualquer tipo de elementos… Não existe um padrão. Todas as abordagens podem resultar em excelentes propostas visuais.
De seguida pergunto aos formandos se existem duas pessoas iguais no Mundo… A resposta é óbvia: Não!
Durante todo o meu percurso pela fotografia assisti a pessoas que se dedicam à fotografia de corpo e alma. Porém tudo o que fazem é imitar outrem… seguir caminhos que já foram trilhados, experimentam técnicas até à exaustão, até as dominar por completo. E vão passando assim o tempo, derivando desta técnica para aquela até que esta não lhes ofereça segredos. Outros existem que passam o seu tempo a tentar descobrir algo novo que fotografar, querendo ser pioneiros, procurando ser diferentes.
É claro que têm o direito e o dever de seguir estes caminhos. Esta abordagem à fotografia não é menos dignificante nem desvaloriza ninguém. Não é isto que está mal. Porém algumas destas pessoas tendem a entrar em crises existenciais e a passar pela angústia de achar que não são diferentes, que não criam nada de novo, pese embora o talento que têm. E não tem mal nenhum não criar nada de novo! A verdade é que não há nada para criar na fotografia… A única coisa que vai permitindo trilhar novos caminhos prende-se com os limites que a tecnologia permite colocar mais além (Em termos de gama dinâmica ISO e cadência de disparo, na minha opinião).
Quando se começa a fazer fotografia procura-se invariavelmente a imitação das imagens que vê, que se gosta e que se gostaria de fazer. Com o tempo e a curiosidade percebe-se que elas não são possíveis de fazer com o equipamento de que se dispõe.
Investiga-se assim e investe-se mais e mais naquilo que outros fazem… Até se chegar a resultados satisfatórios… mas depois vem de novo o vazio… não tem interesse, já é monótono, já é visto… anda-se a fotografar, mas é-se escravo de condições que apenas são alcançadas pela via da aquisição de mais equipamento. E a verdade é que não somos nós, não somos diferentes, não nos diferenciamos (salvo raras excepções), não estaremos satisfeitos, a menos que daí venha uma mais-valia financeira com a venda de imagens… Mas desenganem-se, ganhar dinheiro com a fotografia (principalmente em Portugal) também não é para todos e muitas vezes nem sequer são os melhores que se prezam disso.
A técnica e o equipamento são apenas 50% de uma boa fotografia, os restantes 50% é quem a realiza. A sua interpretação do Mundo, a sua forma de estar nele, as características que o Mundo tem e que o influência.
Isto leva-me a 3 certezas:
1 – Alguém que tem um bom equipamento jamais será um excelente fotógrafo apenas porque este o permite ir mais além;
2 – Alguém que apenas domine a técnica na perfeição fará boas fotografias, mas não fará delas obras de arte.
3 – Alguém que se preocupe a ouvir-se a si mesmo e a transportar a sua interpretação do Mundo que o rodeia para as suas fotografias vai diferenciar-se, pode vir a ter reconhecimento. Esta pessoa deixará de fazer meras fotografias e começará a apresentar propostas visuais. Se depois suportado por equipamento e pela técnica poderá vir a ser ainda melhor.
Aconselho sempre os que se querem iniciar nisto da fotografia a fazer uma única coisa: Divirtam-se, nao se escravizem de equipamentos, mas sim da vossa curiosidade. Fotografem, fotografem tudo o que mexer e não mexer. Fotografem por tudo e por nada. Esqueçam-se dos equipamentos, estudem os Mestres (principalmente os do passado), leiam qualquer coisa acerca de composição e enquadramento e depois pratiquem os conhecimentos que leram, Leiam acerca de Exposição e pratiquem. Contentem-se com aquilo que têm. É sempre muito fácil outra pessoa aconselhar equipamentos de toda a natureza quando esta está a referir compras com o vosso dinheiro.
A fotografia é um hobbie caro, não pensem que é barato. Mas também se pode começar com pouco dinheiro. Não ponham no vosso hobbie a angústia de querer ter e depois não poder.
Outra certeza: Estão a ver aquela objetiva que parece igual à do vosso amigo, mas é muito mais barata e vocês podem comprar? Não vos serve! Vão adquirir esta e daqui a uns meses vão querer voltar a gastar mais dinheiro (muito mais dinheiro) porque “aquela que o vosso amigo tem é que é a boa”. E uma objetiva boa custa muitas vezes milhares de euros. Esperem até poder e quando puderem comprem de uma vez e para toda a vida.
Continuando com o exemplo da objetiva; tendemos sempre a apreciar as fotografias boas que o nosso amigo fotógrafo faz com aquela objetiva que nós não temos. Tomamos por certo que ele só faz aquele trabalho porque tem aquela objetiva que é muito boa e nós não temos, e não porque tem mais conhecimento, porque fotografa há muito mais tempo, mas sim porque tem aquela objetiva e nós não. E muito raramente prestamos atenção às boas fotografias que esse fotógrafo consegue fazer com equipamento que tem e que é igual ao nosso. Eu sirvo como exemplo: pese embora o equipamento que tenho e fui adquirindo, neste momento, mais de 90% das fotografias que faço, faço-as com uma câmera compacta. Que importa investirmos dinheiro numa objetiva para chegar mais perto se ainda nem sequer dominamos aquela que já tinhamos?
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