Rui Escaroupa, antigo contabilista, gestor e tesoureiro da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Tábua (AHBVT), negou ter desviado dinheiro da instituição para benefício próprio, na primeira sessão do julgamento em que responde, juntamente com uma pessoa colectiva correspondente à sua empresa de limpeza florestal, pelos crimes de peculato, branqueamento e falsificação de documentos. O julgamento decorre no Palácio da Justiça de Coimbra, segundo relata o “Diário de Coimbra”, que acompanhou a sessão.
O Ministério Público de Coimbra sustenta que o valor alegadamente desviado ascende a 369.644,44 euros, entre 2013 e 2018, período em que o arguido acumulava as funções de gestor, tesoureiro e contabilista da associação. De acordo com a acusação, o dinheiro era retirado das contas bancárias da AHBVT e das caixas dos centros de exame de condução geridos pela instituição e canalizado para contas pessoais de Rui Escaroupa e para a sua empresa. Para ocultar os movimentos, o arguido terá ainda falsificado elementos contabilísticos e documentos.
O “Diário de Coimbra” relata que o arguido admite ter feito as transferências e depositado cheques e dinheiro provenientes da actividade da associação e dos seus centros de exames, mas sustenta que se tratou de um “acerto de contas”, destinado a compensá-lo por despesas que pagou em nome da Associação Humanitária. Uma auditoria realizada à contabilidade, também citada pelo jornal, terá validado mais de 460 mil euros em movimentos, deixando por validar 119 mil euros. Rui Escaroupa rejeitou ter aproveitado o conhecimento que tinha da contabilidade e o acesso às contas bancárias dos Bombeiros para obter um benefício indevido.
O antigo tesoureiro, segundo o mesmo jornal, afirmou que tinha acesso às contas da associação desde 2004, quando começou a trabalhar nos Bombeiros, e não apenas a partir de 2013, ano em que assumiu as funções de tesoureiro. Manteve-se ligado à instituição até 2018, quando saiu na sequência de um processo disciplinar relacionado com suspeitas de desvio de verbas.
Rui Escaroupa justificou a sua actuação com as dificuldades financeiras dos Bombeiros de Tábua. A associação foi confrontada, em 2010, com um processo fiscal que, de acordo com o seu depoimento, resultou numa condenação ao pagamento de 600 mil euros e, posteriormente, de mais 300 mil euros. Perante as dificuldades no pagamento a fornecedores, funcionários e ao Estado, afirmou ter começado a suportar despesas da associação com dinheiro próprio, ressarcindo-se depois através dos movimentos agora em causa.
“Se fosse hoje não o faria”, disse o arguido, acrescentando que a situação era tão grave que considerava aquela a única forma de manter a actividade da associação. Garantiu ainda que a direcção, em particular o presidente da altura, tinha conhecimento da situação.
Uma das questões colocadas pelo presidente do colectivo foi a origem do dinheiro utilizado pelo arguido para efectuar esses pagamentos. O juiz-presidente questionou-o sobre a entrada de mais de um milhão de euros, tendo em conta rendimentos declarados de cerca de 120 mil euros anuais, e procurou saber se existiam outros rendimentos, heranças ou património que justificassem essa capacidade financeira.
“Nunca tive emprestado à Associação mais de 30 mil euros”, respondeu Rui Escaroupa, que referiu também ter recorrido a dinheiro do pai para efectuar alguns pagamentos. O juiz-presidente questionou o recurso a património pessoal para suportar despesas da entidade patronal e a utilização de dinheiro do pai.
A procuradora do Ministério Público questionou a motivação do arguido e a informação transmitida à direcção. A representante da Associação Humanitária contestou, por seu lado, a interpretação dada aos movimentos registados na chamada “conta 23”, alegando que esta não reflectiria a neutralização dos valores defendida pelo antigo tesoureiro.
A defesa sustentou que o arguido tinha um papel abrangente na associação, que o presidente da altura conhecia as dificuldades financeiras existentes e que a direcção nunca apresentou uma solução alternativa nem questionou as contas.
A complexidade dos movimentos financeiros levou o juiz-presidente a admitir a necessidade de uma análise mais completa à contabilidade da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Tábua. O julgamento prossegue, ficando por esclarecer, entre outras questões, a finalidade das transferências e depósitos efectuados, a origem das verbas movimentadas e a discrepância entre os valores apontados pelo Ministério Público e os que a actual direcção da associação diz ter identificado.
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