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Tinha acabado de chegar à UCI, Unidade de Cuidados Intensivos, de Cardiologia daquele hospital, vindo da sala de Hemodinâmica, local onde se fazem os conhecidos “cateterismos”, e ali me tinham efectuado uma angioplastia cardíaca, após uma recidiva ao meu primeiro EAM, Enfarte Agudo do Miocárdio, vulgo ataque do coração. Ali, na UCI, os cuidados e a vigilância médica são rigorosos, porque só ali está aquele que ainda corre perigo de vida, por causa da patologia que o tenha levado para aquela unidade de medicina tão especial e tão apetrechada em recursos, incluindo os humanos, médicos, enfermeiros, etc. Lá, aquele ambiente de antecâmara entre a vida e a morte só é quebrado quando algum paciente carece de reacção imediata às alterações clínicas bruscas, por vezes, o final da vida, com vista à sua estabilização e recuperação. Apesar da minha fatalidade, pois ter um enfarte aos 46 anos de idade é algo que nos “violenta” a vida, ali, na UCI, e depois da angioplastia, parecia haver paz dentro de mim, porque a dor era suportável e porque soube agir perante os sintomas de enfarte. Agir mais rápido do que um enfarte é vital. Afinal, tinha sido feito um furo na virilha da perna direita e, por aquela artéria, introduzido um cateter até ao local da coronária lesionada, na qual foi efectuada uma desobstrução e colocado um “stent” para reparação do “estrago” que causou o enfarte. O ambiente, quase silencioso, era propício à meditação acerca da minha vida e dos “porquês” que me levaram àquela situação clínica. Dissera-me o médico que passaria a ser um paciente assíduo em Cardiologia, bem como diferente passaria a ser a minha vida futura. Naquela data, há trinta anos, passava-se e assumia-se a ideia de que ter um “ataque do coração” e sobreviver era como que acabar para uma vida normal. Muita evolução ocorreu, neste tempo, também nesta área, mas, assim, “tolheu” muita gente.
Estava eu a “deitar contas à vida”, quando o sistema de suporte de vida disparou o alarme e levou a equipa médica ali presente, nas UCI nunca os doentes estão sós, a agir. Levaram-me, na cama-maca, em alta velocidade para a sala de cirurgia. Tinha-se apoderado de mim, razão para o disparar do alarme, uma sensação estranha, em que senti o apagamento da minha vida. Foi como que um desmaiar, mas diferente, porque o meu corpo se deixava levar, como se fosse em levitação, a caminho de um túnel do tipo de um funil iluminado e com uma luzinha lá ao fundo. Nunca vi qualquer imagem em foto semelhante àquela. Ou seria a minha alma a deixar o meu corpo, abandonando-o ao fim de 46 anos de habitar nele e o comandar, sem dor e sem qualquer outro tipo de sofrimento? Era uma sensação suave e sem agitação, diria mesmo de paz, aquele abandono da alma do meu coração recauchutado na lesão causadora da diminuição da capacidade do músculo cardíaco, o miocárdio, e a percorrer o túnel da morte, guiada por uma luz através desse túnel? Esta sensação, sem dor e sem qualquer reacção minha, foi interrompida pelo alarme e a equipa médica, agindo, interrompeu aquela “viagem” que eu estava a fazer, levando-me para a sala de Hemodinâmica, porque o meu coração estaria a colapsar. Na sala de cirurgia, a equipa médica terá feito uma correcção na angioplastia que tinha efectuado poucos minutos antes. Depois, regressei para a UCI, onde fiquei vigiado até à passagem para a enfermaria de Cardiologia, no dia seguinte, e, mais tarde, à alta médica.
Novamente na UCI, pude continuar a meditar na vida e no episódio a que muita gente, com experiências semelhantes à minha, apelida de “morte e regresso à vida”, graças à acção médica. Sem isso, aquela “viagem” teria sido a última na minha vida. Depois de refeito, mais pela sensação de que poderia não ter retornado para continuar a viver, ocorreu-me um episódio da minha vida,
quando era uma criança na minha aldeia beirã, onde se nascia e morria em casa. Tinha eu seis ou sete anos e era meado de Setembro. A minha mãe encarregou-me, as crianças pobres e numerosas faziam trabalhos rurais que pudessem dispensar um adulto, de vigiar o milho já debulhado e a secar na eira, umas lajes de pedra irregular, mas que carecia de apanhar mais sol para que ficasse pronto para ser guardado na arca, donde iria saindo para o moleiro o converter em farinha e, posteriormente, em pão, a base do alimento da minha família de cinco irmãos e já com o pai “roubado” pela doença da época, a tuberculose, de que padeceu cerca de nove anos, até falecer num dos sanatórios por onde passou. Na eira, passei o dia em vigia, por causa da passarada que ali poderia vir matar a fome, tal como eu a sentia, apenas com uma côdea de broa. De noite, entrei numa situação febril, com sintomas de falta de ar e dor no peito, e uma sensação “mortiça” do meu corpito sem gorduras. A minha mãe, uma mãe-coragem, pela dupla tarefa que desempenhava, ser mãe e pai, e provedora dos parcos alimentos que enganassem a fome aos cinco filhos, era sempre a última a comer, por vezes, nada sobrava para ela de uma sardinha para três, desde que houvesse uns tostões para a adquirir à peixeira que, de tempos a tempos, vendia o “peixe dos pobres” nas aldeias. Dizia eu que a minha mãe, no dia seguinte, e porque o meu estado não melhorou, meteu-se a caminho, apanhou a carreira para Viseu e levou-me às urgências do Hospital de S. Teotónio, à época da Santa Casa da Misericórdia de Viseu. Mesmo naquele estado, consegui entender algumas coisas e ouvi o médico da urgência a dizer-lhe que me levasse para casa, na aldeia, para ali morrer, tal como aconteceu a algumas crianças da minha geração. O diagnóstico era uma pneumonia, que, à época e ainda hoje, vitimava gente, mais ainda os pobres e das aldeias onde o “mundo” era longe. Mas a minha mãe não acatou e esperou que o médico fosse substituído. Afinal, valeu a pena a espera, talvez no recusar da morte de uma criança de seis ou sete anos, porque o
médico substituto mandou-me internar imediatamente. Ali, na enfermaria pediátrica, nada se comparava às casas de aldeia daquele tempo, mas, depois da despedida da minha mãe, que prometeu vir buscar-me mais logo, “chorei baba e ranho” até desfalecer e adormecer. Estive internado, não sei quantos dias, mas de tal modo que, quando me deram alta hospitalar, parecia um “bêbado” a caminhar no corredor e na escadaria do hospital. Reaprendi a caminhar e a voltar à faina dos trabalhos agrícolas outonais.
Hoje, quase setenta anos depois daquela prévia condenação à morte por aquele médico, ele foi o primeiro médico na minha vida, estou ainda por cá neste mundo. Aprendi a viver, depois do primeiro enfarte, aos 46 anos, e outro ocorreu seis anos depois. Mas esta minha longevidade, ainda não atingi a esperança média de vida dos homens, 78,3 anos, devo-a
a essa disciplina médico-farmacológica, mas também à vontade de querer estar por cá, neste mundo, apesar de tantas tristezas que ele, não ele, mas os humanos, nos provocam. Mas depois disso já fiz tanta coisa boa, por exemplo, “dar-me” aos meus netos, como se fosse um pai/mãe e bem melhor do que fui, afinal este “background” adquirido favorece a “avosidade”. São eles uma das minhas energias e vontade de viver, desde há mais de uma década. Há trinta anos, experienciei o caminho que a nossa alma percorrerá quando o nosso corpo se finar. Mas será calmo e suave em todas as situações de morte? Não, porque existem as mortes violentas, guerras, homicídios, mortes nas estradas, etc., e essas, garantidamente, serão dolorosas.
E a nossa alma, que caminho seguirá?
Autor: Serafim Marques
Economista
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